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WELCOME 51 |
ESCREVER PARA JORNAL Wanderlino Arruda Recebo em meu local de trabalho um envelope de O JORNAL DE MONTES PREFACIOS http://gbooks2.melodysoft.com/app?ID=Prefacios
CLAROS com um recado datilografado do Waldyr Senna, dizendo tratar-se
de assunto que só eu poderia resolver, pois, diretamente ligado a um
meu protegido. Dentro do envelope o JMC, outro envelope endereçado com
letra ainda tateante, com jeito de escrita primária, embora as
sílabas estivessem todas bem definidas com espaços uniformes, coisa
de quem tem costume e treino de escrever com certa regularidade. O
aspecto gráfico nem bonito nem feio, de alguma forma semelhante a
centenas de manuscritos de rapazes e mocinhas de nossas escolas
secundárias e, quem sabe, até de gente de grau mais adiantado...
Espanto, quando veio o Jornal passando-me problemas que deveriam ser
seu, e só venho entender tudo quando termino a leitura e reconheço a
assinatura de Paulo Tarcísio Silva.
A minha primeira reação é sorrir da malícia do Diretor,
transferindo-me o que para ele deveria ser uma 'batata quente', dessas
que chegam quase diretamente à Redação, de gente que deseja aparecer
a qualquer custo, vendo as suas produções publicadas em letra de
forma. 'Venho por meio desta carta falar com o senhor que eu estudei
Jornalismo através das Escolas Associadas de Cursos Livres',
apresenta-se o Paulo Tarcísio. 'E tenho escrito várias coisas e ao
mesmo tempo aperfeiçoando em novos conhecimentos'. 'Eu queria que o
senhor me desse algumas explicações e detalhes, qual seria o meio
mais fácil para ir iniciando a profissão, talvez até como
colaborador'. Conversa fluente, direta, humilde porém firme, Paulo
Tarcísio identifica-se e diz a que vem. Quer ser jornalista, pede a
indicação do melhor caminho, explicações com detalhes que a escola
livre não lhe ensinara por correspondência.
'Tenho vários amigos, ingressados na carreira jornalística, entre
eles destaca o senhor Wanderlino Arruda, que eu considero como um dos
meus maiores incentivadores'. É aí que o missivista me coloca na
história, dando-me, naturalmente, uma parcela de responsabilidade no
seu entusiasmo, um como que avalista intelectual do seu trabalho ainda
escondido para os olhos dos leitores. 'Peço ao senhor se for possível
pelo menos me indicar os endereços de outros jornais de Janaúba,
Brasília de Minas, Pirapora, Januária, Bocaiúva. Talvez eu entre em
contato com eles e consiga exercer esta tão sonhada profissão. Se eu
for atendido, ficarei muito grato ao senhor'.
Apresentava a carta em seu inteiro teor, simples e direta para não
deixar ao jornal a pergunta de 'ora vós quem sois', Paulo Tarcísio
assina deixando antes um desejo de 'felicidade' ao destinatário. Sei
que o leitor também a esta hora pergunta o que há de estranho numa
pessoa que, desejando exercer uma nova profissão, pede ajuda e
orientação. O espanto do Jornal talvez esteja no aspecto geral da
escrita e em algumas imprecisões de linguagem que, na transcrição,
deixei para trás. Também porque o Paulo Tarcísio não quer só a
publicação da sua carta, como é o costume dos leitores que escrevem
ao Jornal. Ele quer ser jornalista, se não possível em Montes Claros,
pelo menos em cidades menores da nossa boa vizinhança, para ele mais
adaptadas à sua humildade.
Meus esclarecimentos finais para o Jornal e para os leitores. Paulo
Tarcísio Silva é realmente meu amigo, e tenho dado a ele os
incentivos que ele merece. Não é um jovem, na expressão mais pura da
palavra, deve ser homem dos seus vinte e cinco para trinta anos. Não
teve escola regular, estuda como pode em cursos noturnos ou por
correspondência. Lê muito e diariamente, inclusive não perde um
número de O JORNAL DE MONTES CLAROS. As suas leituras são feitas de
manhãzinha, na hora do almoço, ou depois do banho de torneira à
tarde, quando sai do serviço. O seu sonho é realmente ser um
intelectual, se possível estudar Direito, para usar, mais tarde, terno
e gravata, falar bonito, empolgar as multidões. O jornalismo será uma
forma de chegar lá! Paulo, no momento, ainda não pode deixar a sua
profissão, mas o fará quando lhe for possível. Ainda exerce o pesado
cargo de servente de pedreiro. E vive suado todas as horas de sua
vida...
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