O estranho homem
Tony Pent
- Acho quem ninguém o conhece por aqui. – disse o homem para os
companheiros de mesa, ao olhar para pessoa que abriu a porta e entrou
e atravessou o ambiente festivo do bar. Por mais que desconhecido não
se mostrasse diferente dos moradores da cidade, não deixou que sua
presença fosse notada pelos seletos fregueses .
O homem tinha algo incomum que deixou os observadores intrigados.
Talvez fosse a roupa mal talhada ou o modelo que se parecia muito
antigo para os padrões em uso na época ou mesmo a palidez que o homem
tinha no rosto, que ao se misturarem às sombras escuras que lhes
salientavam as órbitas oculares dava-lhe um aspecto nada convencional
de beleza .
O homem observado para a curiosidade de todos, atravessou o salão e
olhando bem disfarçado em derredor, viu um local menos iluminado e
dirigiu-se para lá, sentando-se quase defronte a uma janela, a qual,
ele sabia que dificilmente algum freguês passaria por lá.
Após se acalmar da terrível impressão de ser observado, lembrou-se de
que esquecera de retirar o chapéu na entrada e em um movimento brusco
o retirou e o colocou sobre a cadeira ao lado.
Com o rosto tomado de súbito por um leve rubor ele olhou para os seus
observadores em busca de alguma censura, mas estes fingindo que não o
observavam, voltaram a comentar a respeito do desconhecido.
- Tenho a impressão que ele não é deste país!
- Dizem que ele é sim e mora sozinho! E que é pior, muita gente
comenta quê... -
Parou o narrador martirizando os ouvintes com as estúpidas pausas de
efeito.
- Comentam o quê?- indagou um dos quatro rapazes que estava na mesa e
que não se cabia de impaciência .
- Comenta-se que ele foi prisioneiro na Alemanha e que o dentista que
o atendeu contou ao meu amigo que ele tinha o dente obturado com um
metal sucedâneo, que só era usado pelos dentistas alemãs durante a
última guerra.
- Então seu dentista sabe da vida deste homem?
- Claro que sim, seus lerdos! Eu não falei que o dentista que o
consultou era amigo do meu amigo e que ele lhe contou tudo e por
conseqüência vocês não acham que ele também me contou tudo ...
- Contou o quê o homem? Que mania feia é essa de fazer pausa.
Desembucha logo! – gritou logo um outro ouvinte.
- Eu conheço toda a vida dele! – disse pausadamente o narrador ,
olhando para todos os presentes como se esperasse por uma ordem mais
lacônica.
Nesse instante em que todos aguardavam o complemento da historia ,a
garçonete passou por eles levando quatro canecas de cerveja escura, as
quais ela depositou na mesa do observado.
Aquele ato chamou a atenção, pois era visível que aquelas quatro
cervejas pertenciam ao desconhecido, por não haver mais ninguém dentro
do bar.
Percebendo que estava sendo observado, o desconhecido olhou de relance
para os rapazes e num só gole entornou o conteúdo da primeira caneca,
da segunda e já na terceira houve mais cerimônia para por fim ao
conteúdo. Entregando as canecas vazias a garçonete e falando para ela
alguma coisa , ele passou a olhar com certa profundidade para a última
caneca de cerveja que se postava a sua frente no que dava a entender,
que dentro dela houvesse algum elixir do esquecimento. A garçonete ao
se retirar da frente do desconhecido fez com que os rapazes da mesa
contígua voltassem a comentar o caso.
- Meu amigo me contou uma longa historia a respeito dele, mas eu a
resumirei da seguinte maneira: durante os desesperados meses que
antecederam o fim da segunda guerra, foi cogitado no alto comando do
exército alemão que, se algum espião em quem os ingleses confiassem
nos falsos detalhes de um grande ataque, certamente os alemães
venceriam a guerra . O primeiro passo foi estabelecer a boa fé do
espião, fornecendo-lhe informações verdadeiras. Em conformidade,
durante várias semanas, as patrulha alemães condenadas se arrastavam
por terras inglesas, e eram visivelmente massacradas por seus
inimigos. Um desses destacamentos condenados estava a cargo desse
homem que temos a nossa frente. Depois do seu alistamento, em breve
ele fora destinado aos trabalhos nas linhas de frente e pelos seus
atos de bravuras ele conseguiu as divisas de tenente, no que passou a
liderar um grupo de homem que tinha agora, uma missão
importantíssima : comunicar ao comando general do exercito alemão, um
extenso tratado de artilharia e que jamais poderia cair em mão dos
inimigos.
- E o que aconteceu em seguida? – indagou um dos rapazes.
- Breve ele descobriu que a sua tarefa, nada mais era do que
acompanhar alguns moribundos e feridos para bem perto das trincheiras
inglesas e que os deixassem serem capturados pelos inimigos para que o
audacioso plano alemão caísse em mão dos ingleses. Assim que todos os
seus companheiros caíram em mãos dos inimigos, ele tentou se afastar
da miséria, a qual ele havia levado aqueles pobres inocentes, mas algo
lhe veio como um choque adicional, uma granada atravessou assobiando
por cima da cabeça dele e explodiu a poucas jardas de onde ele estava.
De modo que ele viu, ouviu e não pode pensar mais.
- E daí? – indagou o terceiro rapaz.
- Ele teve a perda parcial da memória e quando voltou a si, não sabia
mais quem era!
- Quanto tempo ele demorou em ser socorrido?
- Ele disse para o dentista que não teve a mais leve consciência do
que se passou depois! Ele só sabe que foi feito prisioneiro!
- É essa é uma maneira cautelosa de apresentar um problema.- retrucou.
- Ele disse que depois do acidente com a granada, a memória dele foi
um vazio completo só vindo após alguns anos mais tarde, quando ele se
encontrava em banco do parque em Liverpool .
- Anos mais tarde?
- Sim! – respondeu o narrador- Após três anos ele se encontrava em
Liverpool e jamais havia conhecido aquele lugar. Como ele mesmo disse
para o meu amigo, havia vários compartimentos no cérebro dele e quando
um pensamento entrava em um deles, tinha que sair do outro.
- E o que ele fez?
- Disse ele que fora para casa após encontrar um bilhete e algum
dinheiro que, certamente alguma pessoa que o conhecia os teriam
colocado em seu bolso. No bilhete estava o nome dele e o endereço do
pai, a quem ele deveria procurar em Cambridge.
- Mas ele não era alemão?
- Ai é que está o grande mistério! – interveio o narrador. – Todo esse
artifício não passou de um grande negócio de guerra, onde os alemães
disseram exatamente aos ingleses onde ele estava para que pudessem
aprisioná-lo e, em seguida, matá-lo após a confissão sobre a
estratégia de guerra alemã.
- Mas, afinal, ele era inglês ou alemão?
- Na verdade ele era inglês e por ter perdido a consciência ele foi
requisitado pelo comando alemão para transferir os conhecimentos de
guerra para os próprios ingleses.
- E como aconteceu de alguém colocar o bilhete no bolso dele,
revelando sobre a verdadeira identidade dele.
- Quando ele estava em poder dos alemães, e após contar sobre uma
possível invasão na Normandia ele foi levado para um hospital e lá
acabou encontrando uma linda enfermeira alemã que, ao mesmo tempo em
que cuidava dele, dedicava-lhe um grande amor. Ela era uma moça
maravilhosa e ele tinha uma grande paixão por ela. Nos poucos momentos
em que a guerra permitiu que eles ficassem juntos, só existia amor
entre eles, até que em um belo dia eles resolveram viajar até Berlim.
Na volta ela parecia outra pessoa, pois foi nesse dia que ela
descobriu que ele não era alemão e sim inglês.
- Mas como isso se sucedeu?
- Vasculhando uma livraria para encontrar para ela alguma revista que
falasse sobre culinária , o senhor que esta a nossa frente encontrou
uma revista que dizia a seguinte manchete: "Os alemães perderam a
guerra por acreditar nas palavras dos seus próprios espiões" após ler
todo o artigo ele viu que o grande segredo que ele havia trazido e
guardado a sete chaves nada mais era do que uma estratégia militar
inglesa para destruir os inimigos, em suma os alemães.
Para resumir o caso, a enfermeira ficou sabendo que partira dele toda
aquela informação, mas, ela por amor a ele não o denunciou ao exército
alemão,no que logo ao acontecido a guerra acabou.
- Mas, então esse coitado foi usado pelo dois exércitos?
- Exatamente! Mas por causa dela ele acabou ficando feito doido e mal
podia viver sem ela. Após se encontrar novamente com seus familiares
ele tentou voltar à Alemanha , mas a moça acabou desaparecendo e
ninguém soube para onde ela foi parar.Alguns até dizem que ela se
suicidou, porque continuava apaixonadíssima por ele. Ele teve até umas
crises nestes últimos tempos e foi levado a pressa para o sanatório de
saúde mental. Por perder a sua amada e pelo simples fato dele ser um
inglês, isso fez com que ele sentisse ódio dos seus compatriotas em
ter vencido a guerra contra os alemães.
- Vocês são uns idiotas ! – gritou a garçonete aos rapazes – Porque
vocês não falam de outra coisa que não seja a vida dos outros.
- Por que você está se doendo pelo homem misterioso? – interrogou um
dos moços a garçonete – Será que ele também tem um caso com você?
- Não, mas ele foi muito delicado para comigo! Não olhem tanto assim
para ele, vai deixá-lo sem graças !
O homem retirou do bolso alguns trocados e a garçonete se dirigiu para
ele. No momento em que ia fazer o pagamento ele a interrogou:
- Eles estão falando de mim?
Sem esperar pela resposta e sem olhar ninguém tomou o rumo da porta.
Pela rua andava com muita pressa como se escondesse de seus
perseguidores invisíveis. Parou enxugou a testa e continuou a
trajetória, só que desta feita, mais vagarosa. Pouco a pouco foi
tomando conta dos pensamentos e seu rosto readquiriu um sorriso
infantil. Queria sorrir ,mas sempre era policiado por alguma coisa que
ele nem mesmo sabia o que era.
Atravessou a rua e se dirigiu para um local que mais parecia a sua
casa, por ser bem perto do local de onde o amigo do dentista
mencionara ao narrador do fato. O homem observou a manobra dos
transeuntes e parou frente a uma porta e aproveitando a sombra da
arvore que tinha logo à frente do poste de luz, entrou.
Logo mais algumas horas, uma mulher subiu a ladeira e chegando a
poucas jardas da crista, ela parou para tomar fôlego e olhando para
baixo e vendo que ninguém a seguia ela tomou o mesmo caminho e abrindo
a porta entrou.
- Dá impressão que nós nunca mudamos! – disse o misterioso senhor à
moça que entrara em sua casa.
- Isso faz com que vinte anos pareça ontem.
- Se você o encontrar o que lhe dirá?
- Não posso saber sem antes de vê-lo.
Ele olhou nos lábios dela e viu como eles tremiam.
- A propósito como soube que era eu?
Ela não respondeu e apenas sentiu que os anos perdidos chegavam ao fim
e que o passado e o futuro se uniriam novamente. Ele também percebeu e
correu para os braços da amada gritando:
- Minha amada! Eu sabia que em alguma parte desse mundo eu a
encontraria. Jamais pensei que tomaria as quatro cervejas novamente!
- Ah! meu querido, talvez não seja tarde demais...