Quando somos crianças, vivemos num estado em que, sem o saber, somos
felizes, plenos, unos. Há um instante, porém, em que se instala uma mediação,
já não somos mais aquilo uno e indiferenciado que está e é uma coisa só, e
passamos a agir para.
Já não somos, mas atuamos para obter algo, um reconhecimento, afeto, um
objeto, qualquer coisa desejada. De adultos, tentamos voltar, e muitas vezes
conseguimos, a esse estado primordial de unidade, felicidade, amor,
contentamento.
A literatura, a oração, o trabalho desinteressado, a amizade, a fé, o
esporte, a arte em geral, podem ser algumas das vias de reencontro desse
paraíso perdido.
Cada um de nós pode rastrear, e acaba fazendo isto, o instante em que perdeu
a unidade e passou para a mediação, a diferenciação, o ser e o fazer para, a
ruptura, a infelicidade, a culpa, a preocupação com a morte ou a solidão ou o
abandono, o medo.
Isto acontece quando você é rechaçado por algo que alguém, geralmente seus
pais ou tios ou irmãos ou colegas, apontam como sendo errado. Você é errado.
Então, você passa a tentar se convencer e convencer outrem, de que não, de
eu você não é aquilo, você é bom, você é o tal, e deve seguir sendo querido e
aceito como antes.
Adalberto Barreto mapeia esse instante no regresso à criança interior, a
criança que eu fui. Osho, ao falar na culpa e Allan Watts em Tabu, o que não deixa você saber quem você é.
Jesus, quando diz para nos tornarmos crianças para alcançarmos o Reino dos
céus.
O reino dos céus é isto, é este instante, é o aqui e agora, a integridade e
a plenitude deste momento irrepetível.
Carlos Castañeda também se refere a essa existência unitária, e Karl Marx,
inevitávelmente, também rastreia essa unidade perdida em vários dos seus
escritos, a Ideologia alemã, os Manuscritos Econômico-filosóficos de 1844, e
outros, em que a propriedade privada, a lógica como dinheiro do espírito, a
ideologia, o estado, a maisvalia, se mostram como alienações e alienadores,
frutos da dissociação, da perda de si, do deixar de ser quem você é para se
tornar o que os outros querem que você seja.
Na literatura, o tema do regresso à infância é recorrente. Graciliano Ramos
o faz em vários dos seus livros, Angústia, voltando a um estado primigênio de
ingenuidade e experiência de primeira mão das sensações, das pessoas a começar
por si próprio, o protagonista, a existir de um modo puro, sem censura, sem
repressão, sem abandono de si para adequação às normas sociais ou às
convenções.
Bhagwan Shree Rajneesh, Osho, em Meditação,
a arte do êxtase, também nos situa no campo da percepção ampliada ou
restrita. Voltando à infância: Álvaro Yunque em Ta-te-ti, Lovecraft em Viajes
al más allá, ciclo de aventuras oníricas de Randolph Carter, Arthur Clarke
em A cidade e as estrelas, em que Alvin, o único, se
depara com uma vida e pessoas e sociedade programadas, Ramón P. Muñoz Soler, em
outros sentidos, e Leonardo Lazarte, ao refletirem sobre as primeiras
experiências de unidade na infância.
A criança interior não está morta mas amordaçada, talvez anestesiada,
bloqueada, impedida de ser e de lhe dar a liberdade e alegria que são suas
desde sempre pelo fato de você ser, de você existir, de você ser um filho ou
uma filha de Deus, se quisermos usar esta expressão para nos referirmos ao fato
de você ser, como as plantas e as estrelas e a água dos rios e o sol e tudo que
existe, um ser vivo, um existente, alguém que está aí e respira e sente e quer
ser feliz e o é sem saber que o é.
Voltar a ser criança outra vez é voltar a essa unidade e amor, pureza e paz
que a meditação pode lhe trazer, se você fizer um pequeno esforço por se ter de
novo, sabendo que além de um produtor disto ou daquilo, um pai ou uma mãe de
família, você é um pedaço ambulante do cosmos, que é em si um cosmos completo,
nada lhe falta, tudo o que você necessita é você mesmo, está em si, e portanto
nada há que possa lhe tornar infeliz ou manipulável por nada nem por ninguém
que diga que pode lhe fazer feliz, porque você já é.
Você é Aquilo, como dizem os hindus. Você não necessita se tornar nada que
lhe tenham dito que você deveria ser, mas você é Aquilo. Num sentido essencial
e profundo, você e eu e todos, somos amor, paz, felicidade, saúde, unidade.
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