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--- Em qua, 30/9/09, Aurea - Hotlink <mabsi...@hotlink.com.br> escreveu:
De: Aurea - Hotlink <mabsi...@hotlink.com.br>
Assunto: Fw: O direito de não usar drogas - Opinião - Estadão .com.br
Para: "#Aurea - yahoo" <aureasilva2...@yahoo.com.br>
Data: Quarta-feira, 30 de Setembro de 2009, 8:59
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Segunda-Feira, 28 de
Setembro de 2009
O direito de não usar
drogas
Ronaldo Laranjeira
Recentemente, divulgou-se a
opinião sobre o futuro da política de drogas no Brasil do ex-presidente Fernando
Henrique Cardoso, que defende maior liberdade de uso da maconha. Fernando
Henrique disse que um mundo sem drogas é inimaginável, expressando a visão da
Comissão Brasileira sobre Drogas e Democracia. Ao alegar que a sociedade
conviverá sempre com as drogas, defende com uma clara distorção da racionalidade
a ideia de que isso deveria tornar os usuários imunes ao sistema criminal.
Teríamos uma inovação na área dos direitos humanos, na qual todos nós deveríamos
ter o direito de continuar usando drogas ilícitas, independentemente das
consequências negativas para o indivíduo e para a sociedade.. Por essa visão,
seria um abuso dos direitos individuais qualquer constrangimento ao uso de
drogas.
No Brasil, a lei que regula o consumo de substâncias (Lei nº
11.343/2006) trouxe mudanças significativas, com menor rigor penal para o
usuário. Ainda não se sabe se produziu alguma diminuição do consumo de drogas.
Todas as evidências indicam o contrário. Em relação à maconha e à cocaína, somos
um dos poucos países do mundo onde o consumo está aumentando. No mínimo, essa
nova lei não impediu esse aumento. Estamos com maior liberdade para usar drogas,
mas os usuários continuam tão desinformados e desassistidos de tratamento quanto
antes.
A defesa do direito ao uso de drogas é uma visão por demais
simplista e não leva em consideração a complexidade do uso de substâncias, em
particular as modificações que o uso de drogas provoca no sistema nervoso
central. Parte-se do princípio de que todos os usuários de drogas teriam plenas
capacidades de decidir sobre o seu consumo. Não podemos afirmar que todos os que
usam drogas estejam comprometidos quanto ao seu julgamento, mas podemos
argumentar que uma parte significativa dos usuários apresenta diminuição de sua
capacidade de tomar decisões.
As drogas que produzem dependência alteram
a capacidade de escolher quando, quanto e onde usar. É ilusório pensar que um
dependente químico tenha total liberdade sobre o seu comportamento e possa
decidir plenamente sobre a interrupção do uso. É por isso que os dependentes
persistem no comportamento, com grandes prejuízos individuais, para sua família
e para a sociedade.
Se, por um lado, a opinião de Fernando Henrique
carece de legitimidade com relação aos direitos humanos básicos, pois não existe
um direito ao uso de drogas ilícitas, por outro, temos aspectos do debate que
não foram mencionados. Por exemplo: existe uma relação entre saúde e direitos
humanos. As Nações Unidas e a Organização Mundial da Saúde desenvolveram
recentemente o conceito de que todos deveriam ter o direito ao mais alto padrão
de saúde possível (right to the highest attainable standard of health). É um
conceito relativamente novo, com não mais de dez anos. Afasta-se de declarações
vagas sobre saúde e responsabiliza a sociedade e o sistema de saúde pela
implementação de políticas que garantam a qualidade dos
cuidados.
Recentemente o Estado de São Paulo deu um bom exemplo de
garantia do mais alto padrão de saúde possível ao proibir o fumo em todos os
ambientes fechados. O que se garantiu nessa nova lei não foi o direito de fumar,
mas o direito de a maioria da população ser preservada do dano da fumaça. Mesmo
os fumantes têm o seu direito a um mais alto padrão de saúde garantido ao ser
estimulado a fumar menos. Esse foi um exemplo de como é possível termos
intervenções governamentais que preservem o direito à saúde e ao mesmo tempo
sinalizem uma intolerância ao consumo de uma droga que mata um número
substancial de cidadãos.
Experiências de sucesso em outros países apontam
na direção de combinar estratégias, do setor de Justiça com o setor educacional
e de saúde, para que se obtenham melhores resultados. Leis que sejam respeitadas
e fiscalizadas tendo como objetivo o bem comum.. A Lei Seca, que proíbe o beber e
dirigir, identifica o indivíduo e impõe sanções, também pode ser um exemplo,
pelo número de vidas salvas até o momento. O fato de se criar uma intolerância
com o fumar ou com o beber e dirigir em nenhum momento produziu desrespeito aos
cidadãos que fumam ou bebem.
No Brasil não temos uma política de
prevenção do uso de drogas. Deixamos os milhões de crianças e adolescentes
absolutamente sem nenhum tipo de orientação sobre prevenção do uso de
substâncias. Fornecemos muito mais informações sobre o meio ambiente do que com
os cuidados de saúde. Temos uma boa política de prevenção ambiental, mas não
temos com relação às drogas. Não temos um sistema de tratamento compatível com a
magnitude do problema, deixando milhares de usuários completamente
desassistidos.
O tema proposto por Fernando Henrique Cardoso é
importante, traz a oportunidade de debatermos que tipo de política construir
para a próxima geração. Queremos uma sociedade em que o uso de drogas seja um
direito adquirido? Ou queremos uma sociedade muito mais ativa, em que o sistema
de Justiça funcione em sintonia com os sistemas de saúde e educacional e
possamos criar ações baseadas em evidências científicas para diminuir o custo
social das drogas?
Talvez um mundo sem drogas jamais exista. Como também
não existirá um mundo sem crimes ambientais ou sem violações dos direitos
humanos. Isso, no entanto, não é desculpa para descartar o ideal e continuar a
lutar pelo objetivo de um mundo melhor. Tolerar as drogas, banalizar o seu
consumo não é a melhor opção para uma sociedade que valorize a saúde e os
melhores valores de respeito à dignidade humana.
Ronaldo
Laranjeira, professor titular de Psiquiatria da Unifesp, é coordenador do
Instituto Nacional de Políticas do Álcool e Drogas (Inpad) do CNPq
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