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20/10/2009 | Simone Bruno | Bogotá
Militares mataram 2 mil jovens pobres para forjar baixas na Colômbia, acusa
promotoria
“As lágrimas caem nas minhas mãos... As tuas estão atadas esperando que te
matem. É o meu irmão que abateram na zona de combate“ canta Liz, de 17 anos.
Ela é irmã de Fair Leonardo, rapaz assassinado pelo exército, vestido como
rebelde e apresentado como inimigo morto em combate - um dos chamados
"falsos positivos" do exército colombiano.
Segundo um recente relatório da procuradoria-geral da Colômbia, são mais de
2 mil os jovens colombianos assassinados pelo exército e apresentados como
baixas de combate (no jargão, denominados "positivos"). Entre eles, haveria
59 menores de idade e 122 mulheres. A maioria dos crimes investigados pela
promotoria ocorreu a partir de 2002. O fenômeno foi dobrando ano a ano, para
alcançar o ápice de homicídios em 2007, ano em que foi cometido um terço
deles.
O caso veio à tona com os chamados “muchachos de Soacha”. Uma reportagem da
revista Semana, no final de 2008, revelou que alguns rapazes - hoje se fala
em mais de 30 - deste bairro pobre na zona sul de Bogotá, tinham sido
atraídos até a cidade de Ocaña, a 600km dali, com falsas ofertas de
trabalho. Mais tarde, as famílias denunciaram o desaparecimento dos jovens,
cujos corpos acabaram encontrados enterrados como mortos em combate com o
exército. Alguns foram assassinados poucas horas depois de seu
desaparecimento.
“Onde eu moro, somos pobres e não temos trabalho. Eu decidi escrever e
cantar lágrimas para lembrar meu irmão e para que outros garotos não caiam
na armadilha de ir embora com a ilusão de um trabalho. Porque o que
encontram é só a morte”, conta Liz, de 17 anos, ao Opera Mundi, pouco antes
de subir ao palco. Esta é a primeira vez que ela canta em frente a um grande
público. Ao seu lado, a mãe, Luz Marina, e outras das mães de Soacha, todas
trazendo placas que mostram as fotos dos filhos assassinados, o nome e os
anos que cada um tinha quando morreu.
O evento é o maior encontro de rappers colombianos: “hip-hop no parque”.
Marroco veio de Medellin para assistir ao concerto com os amigos. “Não temos
instrução e não temos futuro”, comenta. “Isto poderia ter acontecido
conosco. Esta canção é um alento para os que morreram. Esta é a realidade
que se está vivendo na Colômbia nas zonas marginalizadas, em nossos bairros
na total impunidade.” Pondo a mão no pescoço como enforcado, ele prossegue:
“Temos que denunciar. Muitos amigos nossos moram nos bairros e chegam lá
oferecendo um monte emprego e os caras vão sem saber que estão sendo levados
para a morte”.
Crime recorrente
O termo "falsos positivos" é uma definição jornalística. Para os organismos
internacionais, o crime é tipificado como execução extrajudicial. De acordo
com Michael Evans, diretor da seção colombiana da ONG National Security
Archive, de Washington, que o Opera Mundi encontrou em Bogotá, o crime não é
exatamente uma surpresa. “A única novidade é o translado das vítimas de uma
região para outra, certamente não o disfarce de corpos de guerrilheiros.
Isso sempre ocorreu na Colômbia”. Ele mostra uma série de documentos
liberados, inclusive telegramas da embaixada dos EUA em Bogotá e relatórios
da CIA, que confirmam suas palavras.
Por causa deste escândalo, o governo tomou a medida de exonerar 27
militares, entre eles três generais. A unidade de direitos humanos da
procuradoria está adiantando 1.273 processos contra membros do exército
pelas execuções – entre eles, os 48 militares envolvidos no escândalo dos
jovens desaparecidos de Soacha.
O presidente e o alto escalão do exército defendem a teoria das "maçãs
podres", como o general Óscar González: “Se alguém violou a lei, foi porque
quis. Não foi por falta de capacitação. É porque tinha esses instintos.
Aqui, a única coisa que se ensina são princípios. O Exército conta com 240
mil homens; não se pode julgar toda a instituição pelo comportamento de
poucos”.
Mas vários ativistas consultados pelo Opera Mundi não concordam e creem que
as políticas de recompensas aos militares por cada guerrilheiro morto são a
base do fenômeno dos "falsos positivos".
A alta comissária das Nações Unidas para os direitos humanos, Navanethem
Pillay, tampouco compartilha da visão do general e considera que os "falsos
positivos" poderiam ser considerados um crime de lesa-humanidade por seu
caráter generalizado e sistemático.
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