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Pois é....
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João Jonas Veiga Sobral  
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De: João Jonas Veiga Sobral <joaojo...@globo.com>
Data: Tue, 3 Nov 2009 15:53:46 -0300
Local: Ter 3 nov 2009 16:53
Assunto: Pois é....

ENTREVISTAS DE LULA

Um gênio que não se compreende?

Por Eugênio Bucci em 28/10/2009

** Dois sentidos convergentes

O título deste artigo tem dois sentidos óbvios – são distintos, mas não são
divergentes. O primeiro é mais imediato: refere-se a um gênio que não
compreende a si mesmo, que não sabe dizer como é que ele próprio funciona,
como pensa, quais máximas guiam suas ações – e, não obstante, ele funciona,
pensa e age com maestria. O segundo sentido indaga se o suposto gênio não
carece da compreensão dos seus contemporâneos. O interessante é que um e
outro sentido nos servem. Por um ou por outro, chegaremos ao mesmo lugar.
Pode ser um bom lugar, desde que essa condição que se vai associar à figura
do presidente da República, a condição de um político genial, seja posta,
por enquanto, sempre diante de uma interrogação. A genialidade não é algo
que se afirme assim, sem mais nem menos. Mas, na altura em que nos
encontramos, já é algo que se pode ao menos perguntar.

Fora isso, há ainda outros sentidos nesse título, mas desses não nos
ocuparemos agora.

** Da genialidade como defeito

A percepção de que Lula tem um quê de genial começa a ser falada por aí,
embora um tanto timidamente, com parcimônia. Com um toque curioso: ela
aparece mais em discursos que criticam e menos naqueles que elogiam o
presidente. Por exemplo: há poucos dias, o articulista José Nêumanne Pinto
anotou com todas as letras: "O presidente Luiz Inácio Lula da Silva é um
gênio da política e disso não dá para duvidar." ("Banzé brasuca em
Tegucigalpa", O Estado de S. Paulo, 30/9/2009)

Os aliados preferem não se manifestar sobre a poderosa intuição de seu
líder, talvez para não passarem por bajuladores – embora, não raro, sejam
pouco mais que bajuladores. Já os adversários lhe reconhecem os dons de
raríssima acuidade política. Como eu disse, aqui e ali esse reconhecimento
já se faz notar. Alguns, no entanto, ao se permitirem admitir o brilho
político de Lula, adotam não o tom de elogio, como fez Nêumanne, mas um tom
de admoestação. É gozado. Eles não o aplaudem: eles o acusam de ser um
virtuose no jogo do poder. Eles o acusam de ganhar todas, de driblar os
adversários a ponto de fazê-los perder o rumo, eles o acusam de ser um
craque. A sua eventual genialidade, portanto, vira uma espécie de vantagem
indevida, uma forma de concorrência desleal. Se dizem que ele é um craque,
dizem-no apenas para pedir que se comporte, para exigir dele que não abuse
de sua superioridade individual. É quase como se pleiteassem que o
presidente fosse considerado hors-concours logo de uma vez, já que, contra
ele, os normais não conseguem competir.

Repito que não é esse o caso de José Nêumanne Pinto, mas, em geral, o
discurso daqueles que tentam desqualificar o presidente passou por uma
transição particularíssima. Antes, eles o atacavam porque ele não tinha
diploma, não era poliglota e não lia cinco livros por semana. Agora,
atacam-no por ter inteligência, sensibilidade e capacidade de liderança
acima da média, mesmo sem ter pós-doc, mesmo sem saber recitar de cor, e em
alemão, A crítica da razão pura.

Atacam-no porque seus talentos se converteram agravantes, que encobririam
seus defeitos e os vícios presentes em seu governo. O raciocínio desses
opositores é elementar: o fato de Lula ser um exímio articulador melhora o
governo – o que, vejam bem, é péssimo, pois vem camuflar a incompetência que
o cerca. O fato de Lula saber se comunicar com todas as camadas sociais, e
isso de forma espontânea, sem ter de chamar os marqueteiros para "traduzir"
suas mensagens, torna seu prestígio incontestável, dentro e fora do Brasil –
o que é terrível, tenebrosamente terrível, pois mascara os interesses
escusos que o sustentam. Segundo essa visão, que se expressa como um
resmungo, teria sido melhor para a democracia se Lula fosse apenas mais um
medíocre. Mas ele não é. Oh, Deus, ele não é medíocre.

Lula enxerga três, quatro lances adiante e sabe levá-los em conta quando
realiza o movimento presente – o que em xadrez é banal, mas em política
representa um dom bastante incomum. Para aflição dos antagonistas, é assim
que Lula é. E não há o que fazer.

A questão não é se Lula age certo ou errado, se ele é virtuoso ou não.
Quando se fala em "genialidade" do presidente, ao menos no sentido que isso
vem aparecendo, o que se tem em mente é o fato de que suas jogadas políticas
são, cada vez mais, coroadas de êxito. Ele é um animal político eficaz, como
poucas vezes se viu. Não importa se para o bem ou para o mal: ele é eficaz.
O que ele encasqueta de levar adiante acaba dando certo. É nesse contexto
que, agora, os adversários deram de xingar o presidente de genial, mesmo que
à boca pequena. É bem isso: eles o xingam de genial. Com inconformismo, com
cara feia, reconhecem em Lula essa superioridade relativa. E assim,
xingando-o de genial, eles se reconciliam internamente com uma atitude que,
em si mesmos, julgam ser generosa.

Além disso, xingar o presidente de brilhante, de inteligente, de genial tem
lhes servido de cobertura para que, por meio de um aparente elogio,
reafirmem extemporaneamente preconceitos antigos. Eles continuam acreditando
que quem não tem diploma não pode governar, mas, em vez de dizer isso,
afirmam apenas que o caso de Lula não é parâmetro, não conta, pois ele
afinal de contas é um tipo excepcional, é a exceção que não revoga, mas
confirma a regra antiga. Dizer então que Lula é um gênio, um tipo único, é
um modo de dizer que não surgirão outros iguais. Mais cedo ou mais tarde, as
coisas voltarão ao "normal".

É fascinante como se tecem as teias dos sentidos. Concedendo o título de
"genial" ao presidente da República, os adversários dizem o que querem e,
provavelmente sem notar, denunciam de si mesmos o que gostariam de
dissimular. De novo, é o caso de alertar: também no discurso desses que se
opõem a Lula há outros sentidos divergentes, além dos que realcei aqui, mas
por enquanto não vamos nos ocupar dos demais. Já temos um bolo de sentidos
mais do que suficiente.

**...e por falar em sentidos contraditórios

Do mesmo modo, há toneladas de sentidos divergentes e mesmo contraditórios
nas profusas declarações de Lula à imprensa. E também nos comícios ou, como
se prefere oficialmente, nos atos de governo para fiscalização ou
inauguração de obras. Pululam frases que rendem panos e mais panos para
mangas e mais mangas na prosa dos comentaristas políticos. A elas se dedicam
os exegetas hodiernos, intrigados com o fato de que as palavras desajeitadas
do presidente contrastam com a precisão inacreditável de seus movimentos na
arena política. De que modo elas os explicariam? Por meio de que charadas,
de que cifras, de quais enigmas? Como interpretá-las? Como, por meio delas,
entender um pouco melhor o personagem?

A fala de Lula sobre os atos de Lula é fraca, é insuficiente. Sempre. A fala
de Lula é constrangedoramente inferior à performance de Lula. Mesmo assim,
espera-se dela que ilumine os milhões de pontos escuros de seu estilo
prático. Espera-se com razão. Fora seu discurso, não há muitos outros
lugares de onde tirar a chave para os movimentos que ele faz. Por isso, suas
entrevistas e suas declarações se revestem de tão grande interesse. Não só
por ele ser o maior político em atividade hoje no Brasil. Não só por ele ser
a autoridade máxima no Estado. Também porque existe esse descompasso
enervante entre a clareza premonitória de seus atos na disputa política –
quase sempre bem sucedidos – e a precariedade de suas palavras, que só são
mais expressivas quando são mais desastradas. É esse desacerto e essa
imprevisibilidade, aparentemente fora de controle, que tornam tão atraentes
as declarações de Lula.

(Um parênteses. Há aqui uma distinção necessária. Quando fala para os
eleitores ou para os públicos internacionais, Lula é claríssimo. Sua
comunicação é quase impecável. O ruído acontece quando dele se quer ouvir a
teoria sobre a política que ele faz. Aí é que o sentido se bifurca
sucessivamente. Quando fala de seu modo de agir, a fala de Lula é sempre
insuficiente e refratária.)

Enfim, das declarações de Lula à imprensa não se conseguem extrair
explicações cristalinas sobre sua ação política. No entanto, quando ele
escorrega, quando erra no jeito de falar, acaba revelando involuntariamente
o que talvez preferisse manter invisível. Lula se explica melhor quando se
trai pela fala. Por isso é que, também nas suas entrevistas e nos seus
pronunciamentos, os sentidos cruzados aparecem. E, nesse caso, são muito,
mas muito mais interessantes do que os sentidos arrevesados dos que o
criticam duramente por ser genial.

Não que Lula não tenha consciência de seu lugar na História. Passados já
sete anos de governo, é indiscutível que ele domina bem o papel que lhe
cabe. Tanto para o que é bom, modernizante, justo etc., como para o que não
é tão bom assim – como os pactos com o fisiologismo e o pragmatismo
excessivo, que ele dá sinais de firmar por não enxergar alternativas. O
ponto é que sabemos que Lula tem essa consciência de si não pelo que ele
diz, mas pelo que ele faz. São os seus gestos que transmitem essa
consciência. A sua fala apenas confunde o observador.

O Lula orador não é um bom intérprete do agente Lula – daí a sensação de
que, talvez, ele mesmo não se compreenda muito bem. Talvez por isso mesmo,
sua fala segue tão irresistível. Por baixo dos sentidos aparentes,
insinua-se um riquíssimo acervo de revelações inadvertidas. Vale repetir:
também as entrevistas de Lula têm seus múltiplos sentidos – e alguns deles
nos interessam aqui.

** Alhos, bugalhos e atos falhos

Vez por outra, as declarações do presidente enunciam o oposto do que ele
talvez pretendesse proclamar. Isso acontece com todos nós, não há dúvidas,
mas, em se tratando de Lula, o processo chega a ser clamoroso. Mais ou menos
assim: ao se referir a um atributo positivo que julga ter, o presidente
expõe outro, negativo, que gostaria de ocultar. Não que ele esteja mentindo
quanto ao primeiro – o atributo positivo que ele acredita ter. Ele diz a
verdade. Mas o outro aspecto, o segundo, o que ele gostaria de sonegar, é
também verdadeiro e contradiz o primeiro, sem, contudo, anulá-lo. Assim, o
presidente deixa que seu interlocutor lhe veja as contradições – que por
enquanto são insolúveis.

Vamos a um exemplo. No dia 12 de agosto de 2009, uma quarta-feira de manhã,
Lula compareceu ao culto de comemoração de 150 anos da Igreja Presbiteriana
no Brasil. A celebração aconteceu na Catedral Presbiteriana do Rio de
Janeiro. Logo depois, a notícia estaria nos jornais, como na reportagem que
Luciana Nunes Leal e Alberto Komatsu escreveram para O Estado de S. Paulo no
dia seguinte.

Na ocasião, Lula reclamou da qualidade da programação de TV, a pretexto de
defender os valores da família – que, em nosso país, são valores bastante
associados à tradição e à família. Segundo o relato dos dois repórteres, o
presidente criticou o excesso de violência e afirmou que, se houvesse
aferição de "quantos filmes falam de integração familiar, de amor, de paz",
viria à tona que o porcentual "é infinitamente menor do que a quantidade de
filmes que começam atirando, terminam atirando e no meio matam pessoas que a
gente nem consegue entender por quê".

Lula prosseguiu: "Muito mais graves que os problemas econômicos, sociais,
tem um problema crônico que é a degradação da estrutura familiar deste país.
Quantos momentos de bons ensinamentos temos na televisão, nacional e
importada?"

De saída, já existe, aí, uma fratura no discurso: ao reclamar da TV, Lula
acaba declarando que vê muita TV, o que não lhe cairia bem, já que, segundo
o seu próprio juízo, a TV é tão ruim. Mas essa fratura não é central para o
que este artigo pretende focalizar. Por isso, será deixada de lado. Passemos
adiante.

Ainda segundo a reportagem do Estadão, Lula disse que está na Presidência
"por obra de Deus", no que contou com a anuência do reverendo Guilhermino
Cunha, segundo o qual o presidente foi "eleito pelo povo e abençoado por
Deus". Entre todas, a frase mais reveladora só viria quando o presidente se
retirava da catedral. Na despedida, ele declarou aos jornalistas: "Valeu a
pena viver meu cristianismo por algumas horas".

Fixemo-nos então nesse arremate. Ele nos interessa mais de perto. Segundo a
frase presidencial, "cristianismo" é algo que se "vive" dentro de uma
igreja, durante a cerimônia religiosa, por "algumas horas". Por decorrência
lógica, quando o sujeito está fora da igreja, vive outras condições de sua
existência, mas não o seu "cristianismo". Surge aí a contradição entre
aquilo que o autor da declaração se apressa em manifestar de si (que ele tem
dentro de si o "cristianismo") e aquilo que o incomoda, ou seja, o fato de
ele não viver seu "cristianismo" durante todas as horas do dia.

Sendo assim, cabe perguntar: que tipo de coisa ele estaria "vivendo" nessas
outras horas? Uma crítica fácil seria dizer que Lula não compreende o
significado da palavra cristianismo. Ele parece não entender que ou bem o
sujeito tenta viver o cristianismo durante as 24 horas do dia, ou bem o
sujeito não é cristão. Claramente, essa seria uma crítica possível. Ocorre
que, além de fácil, ela seria falsa. Não é por aí. Lula não deixa de saber o
que se entende por essa palavra, cristianismo. Não é bem de ignorância
teológica que ele padece, mas de uma dor subjetiva. Uma lâmina o espreita e,
dela, o presidente se sente instado a dar conta – como se precisasse
confessar que tangencia o fio da navalha. Essa lâmina é o pragmatismo
violento que a política vem exigindo de seus praticantes no Brasil.

Na fala oblíqua do presidente, essa lâmina tem parte com o pecado. Lula não
se vê como um não-cristão, ele sequer deixa de ser cristão segundo seu
próprio juízo, mas, de vez em quando, é obrigado a rezar fora do catecismo,
quer dizer, é obrigado a se pautar por outra cartilha, e isso o aporrinha
(um pouco, apenas um pouco, mas aporrinha). Ele não chega a se ajoelhar para
outros deuses, mas vai até eles e, diante deles, procede às
confraternizações necessárias. Não vê como escapar disso e, nesse sentido,
lamenta-se.

O que nós temos aqui não é uma mentira oposta a uma verdade. Temos duas
verdades. Podemos tomá-las como duas verdades porque elas são perfeitamente
verdadeiras para aquele que as enuncia. Mais ainda: duas verdades que se
opõem, mas nenhuma tem força suficiente para anular a outra. Então, ambas
coexistem, em permanente contradição.

Lula quis dizer que é um cristão (o que é verdade) e acabou dizendo que, nas
outras horas do dia, é outras coisas além de cristão (o que também é
verdade). Entre essas outras coisas, encontra-se a profissão de político,
que lhe impõe um preço alto. Ao que se pode deduzir de suas palavras, o
preço que lhe é cobrado é um custo de consciência. Ou, pelo menos, um custo
que ele desejaria ver computado como um custo de consciência.

De novo, é preciso dizer: há mais sentidos nisso tudo, mas, por agora, esses
aí nos bastam. Mesmo porque prosseguiremos aqui com os conflitos religiosos
mais íntimos de Lula, pois eles continuaram habitando a sua fala por mais
tempo.

** O ato falho que reincide

Mais recentemente, em entrevista exclusiva a Kennedy Alencar, da Folha de S.
Paulo, o mesmo político soltou uma afirmação que virou a principal manchete
do jornal de quinta-feira, 22 de outubro de 2009: "`No Brasil, Jesus teria
que se aliar a Judas´, diz Lula". Outra vez, emergem aí dilemas da
consciência cristã. Outra vez, brotam os sentidos contraditórios.

FOLHA - Ciro disse que o sr. e FHC foram tolerantes com o patrimonialismo
para fazer aliança no Congresso. Ou seja, aceitaram a prática de usar bens
públicos como privados.

LULA - Qualquer um que ganhar as eleições, pode ser o maior xiita deste país
ou o maior direitista, não conseguirá montar o governo fora da realidade
política. Entre o que se quer e o que se pode fazer tem uma diferença do
tamanho do oceano Atlântico. Se Jesus Cristo viesse para cá, e Judas tivesse
a votação num partido qualquer, Jesus teria de chamar Judas para fazer
coalizão.

Consta que alguém da CNBB logo cuidou de ralhar elegantemente com o
presidente acerca da correta interpretação dos evangelhos. Falou-se em
fariseus e saduceus, alianças, traições e um pouco mais. Mas não é isso o
que vem ao caso – aqui, no caso deste artigo. O que clama no discurso,
agora, é que o entrevistado tenta se comparar a Jesus Cristo, não por
julgar-se ao nível dele, mas porque não enxerga, de fato, alternativas a um
jogo político que o força a buscar o apoio dos patrimonialistas. Nem Cristo
faria diferente, ele diz. Assim, expondo-se em um sacrilégio brando, busca
uma branda expiação da culpa. Lula não se considera melhor do que Jesus.
Lula não se considera igual a Cristo. Apenas confessa, humildemente, que,
nessa matéria, a política brasileira, da qual ele entende muito bem, nem
Cristo poderia montar uma base aliada mais limpa do que a que ele mesmo
construiu.

O encerramento da entrevista também nos interessa:

FOLHA - É o que explica o sr. ter reatado com Collor, apesar do jogo baixo
na campanha de 1989?

LULA - Minha relação com o Collor é a de um presidente com um senador da
base.

FOLHA - Dá aperto no peito?

LULA - Não tenho razão para carregar mágoa ou ressentimento. Quando o
cidadão tem mágoa, só ele sofre. Quando se chega à Presidência, a
responsabilidade nas suas costas é de tal envergadura que você não tem o
direito de ser pequeno.

Assim como os adversários que se sentem generosos quando elogiam o
presidente da República por sua notável competência de articulador, Lula
parece sentir como uma grandeza de sua parte a capacidade de tolerar os
vícios pré-históricos dos que lhe dão sustentação. Ao declarar indiretamente
sua grandeza ("você não tem o direito de ser pequeno"), o entrevistado se
outorga o perdão que a ele tanta falta faz. A outros, a expressão "você não
tem o direito de ser pequeno" poderia significar "você não tem o direito de
ter princípios", mas não é isso que conta agora. Para Lula, o fundamental é
que o sujeito não tem o direito de ser inflexível. E não vamos discutir aqui
se ele tem ou não tem razão nisso, pois aí a discussão seria política, e
sairia dos registros estritos dos sentidos que se descolam do discurso
concreto.

Só o que se quer demonstrar aqui é que, também agora, o discurso fala pelo
avesso. Diz o contrário do que aparentemente pretende dizer e, também aí,
diz a verdade – mas uma verdade invertida. Lula diz a verdade quando afirma
que o sujeito não tem o direito de ser pequeno. Como isso, diz – o que é
incontestável – que precisou sacrificar suas "pequenezas" para conseguir
fazer política. Tanto assim que nem Jesus Cristo poderia fazer diferente.
Ele fala como quem está convencido de que não pecou, mesmo que ninguém o
tenha acusado de pecado.

Prosseguindo, outra vez é preciso afirmar que, também aqui, há ainda outras
verdades (invertidas ou não) dentro do mesmo discurso. Outra vez, não vamos
delas nos ocupar.

** Eles não sabem o que fazem

Falando em Jesus Cristo, que entrou nessa história mais ou menos como Pôncio
Pilatos entrou naquela outra, a que chamam "Credo", ele talvez dissesse ao
que chamava de "Pai": "Perdoai-os, eles não sabem o que fazem". Ou:
"Perdoai-os, eles não sabem o que falam". Não sabem mesmo. Não sabemos.
Ninguém sabe inteiramente, por definição, o que comparece à sua própria
fala. A fala é falha, amalgamada de erros, saltos, atos falhos. Somos seres
ideológicos não por acalentarmos uma carta de valores que pretendemos
traduzir em realidade, não porque queiramos "mudar o mundo" (por favor, não
é por isso), mas porque não sabemos o que fazemos ou falamos. Ou por que
fazemos. Ou como falamos. E, no entanto, fazemos. E falamos.

Ao falarmos, deixamos no ar as nervuras abertas do manto de palavras embaixo
do qual gostaríamos de nos esconder. Queremos nos esconder de quem?

Falemos ainda um pouco da genialidade posta como interrogação.

Há aqueles que se destacam porque parecem ter parte com as leis da natureza
e realizam proezas impossíveis aos comuns. Lula sabe o que não sabe que sabe
e, por sabê-lo, age como um craque. Age, talvez, por não se preocupar em
saber – porque o saber, talvez, o aprisionasse. Seu espírito político sabe –
sua fala apenas rasteja ao redor do que seu espírito sabe.

Vamos comparar, porque é inevitável: parece que Garrincha também era um
craque – mas que não lhe pedissem para explicar planos táticos, armações de
meio campo, contra-ataques e polivalências. Ele seria incapaz de explicar.
Sabia fazer, mas não sabia dizer nada das fundamentações do que fazia. Ele
sabia, no corpo, que a bola obedecia aos seus comandos, mesmo que tivesse de
desafiar a lei da gravidade. Ia lá e... fazia. Pelo menos é o que contam.

Bem, a metáfora esportiva é sempre a pior possível – sobretudo aqui, neste
texto, onde não existe uma única letra que goste de futebol – e, não
obstante, é com ela que caminharemos para o final. Penso que justamente por
explicar tão mal o jogo político que conduz tão bem é que Lula se
diferenciou dos concorrentes. Nele, a política é natural. Como se fosse
pré-lingüística. Como se fosse infra-lógica. Isso é possível? Não sei – e
não importa.

A sua fala cheia de ranhuras, de imperfeições, de quebras sintáticas e
anacolutos abissais acaba servindo de comprovação do que nele começa a tomar
a forma de uma genialidade atípica. É a prova cabal de que o melhor que ele
sabe ele o sabe apenas intuitivamente. O que nos outros é cálculo estudado,
nele é reflexo filtrado e refiltrado por uma sabedoria indecifrável. É assim
que o que ele fala tem cada vez mais interesse. E é cada vez mais fascinante
tentar decifrar. Mesmo quando a gente não consegue.


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