Prestígio social criou novos horizontes para o Direito
No Brasil, nem os médicos são tão "doutores" quanto os advogados.
Reportagem especial da revista Veja sobre carreiras, informa que as
origens dessa deferência remontam ao período colonial, quando os ricos
enviavam seus filhos para estudar Direito na Universidade de Coimbra,
em Portugal. Entre outras facilidades, o diploma lhes franqueava
acesso aos cargos mais altos da administração pública. Essa tradição
sobreviveu à República. Mais da metade dos presidentes brasileiros
passou pelos bancos do direito.
Um terço dos senadores e deputados federais atuais seguiu esse
caminho. O prestígio do curso continua alto: seus vestibulares recebem
550 000 inscrições por ano, o que o torna o terceiro mais procurado
pelos brasileiros. Para além da tradição, o fato é que, a partir de
meados dos anos 90, novas oportunidades se abriram para os advogados.
No setor público, os governos voltaram a realizar concursos. Das 120
000 vagas disputadas em 2008, uma parte expressiva foi reservada para
quem cursou direito.
Leia íntegra da reportagem
Também se abriram novas frentes para advogados no setor privado. Há
dez anos, assuntos como energia e telecomunicações eram privativos de
engenheiros. Hoje, graças ao processo de privatização e à complexidade
dos contratos dele resultantes, pululam advogados especializados
nessas áreas. Quando se retrocede no tempo, constata-se, ainda, que a
Constituição de 1988 foi determinante para semear outros campos, como
o do direito do consumidor, o previdenciário e o ambiental.
Em 1995, a reforma do capítulo econômico da Constituição abriu uma
gama de possibilidades a quem se dedicava ao direito administrativo,
por causa do surgimento das questões regulatórias. E a estabilização
da economia impulsionou o direito comercial internacional e o
societário. Por último, áreas já consagradas, como a do direito penal,
deram filhotes. Formaram-se especialistas em crimes do
colarinho-branco, cuja legislação tem apenas 23 anos. "Tudo isso é
fruto do avanço da sociedade, que ficou mais complexa e, portanto,
produz problemas também mais complexos", resume Mário Nogueira, do
escritório Demarest & Almeida.
Uma das consequências dos horizontes mais vastos é que os advogados
passaram a ganhar mais. Uma pesquisa da consultoria Hewitt Associates
mostra que, não raro, a remuneração de advogados de grandes empresas
privadas alcança 40 000 reais mensais. No setor público, o salário de
um juiz pode chegar a 25 700 reais. Vencimentos como esses, somados ao
status social que a profissão confere, provocaram uma corrida às
faculdades de direito. O número de bacharéis em direito formados por
ano dobrou desde 1997. Infelizmente, a maioria dos cursos
universitários surgidos por causa da demanda oferece ensino de péssima
qualidade.
Os alunos que se formam nessas faculdades mambembes nem sequer
conseguem ser aprovados no exame da Ordem dos Advogados do Brasil
(OAB), exigido para quem vai exercer a profissão. Para se ter ideia de
como a situação é calamitosa, só um quarto dos candidatos é aprovado a
cada prova.
Num mercado ultracompetitivo, leva vantagem quem faz estágio em
escritórios renomados. Eles costumam dar prioridade a quem cursa ou
cursou universidade pública, onde o ensino é melhor, e tem fluência em
inglês. Aos poucos, impõe-se a cobrança por mais uma língua, como o
espanhol. Quem passa por todos esses filtros e consegue uma vaga é
instado a fazer algum tipo de especialização extracurricular. "É bom
chegar ao mercado de trabalho com um conhecimento prévio sobre uma
determinada área. Se você quer trabalhar em empresa privada, precisa
entender, por exemplo, de finanças", diz Ary Oswaldo Mattos Filho,
fundador do escritório que leva seu sobrenome. Professor da Fundação
Getulio Vargas de São Paulo, Mattos Filho convenceu a instituição a
criar um curso de direito empresarial que preparasse seus alunos para
o novo mercado. Nele, além de leis, os futuros bacharéis aprendem
contabilidade, administração e economia. Resultado: para a primeira
turma, que se formará neste ano, sobram propostas de estágio em bons
escritórios e departamentos jurídicos de grandes empresas. Um ótimo
começo para os doutores.
Era para ele ser engenheiro
Para satisfazer a família, o paulistano Alexandre Bertoldi estudou
engenharia química por três anos. No meio do curso, descobriu que
gostava mesmo era de Direito. Com facilidade para matemática,
dedicou-se a estudar principalmente direito empresarial e financeiro.
Começou como estagiário no escritório Pinheiro Neto, o maior e um dos
mais respeitados do país. Especializou-se em fusões e aquisições. Aos
33 anos, fez um MBA na Universidade de Glasgow, na Escócia. Fluente em
inglês, Bertoldi, hoje com 47 anos, domina também o italiano e o
alemão. O currículo o ajudou a conquistar clientes como o banco
Goldman Sachs e a ser escolhido pelos demais sócios do Pinheiro Neto
para dirigir o escritório.
Carreira no vácuo de uma nova lei
Em 1994, quando o Brasil passou a ter uma lei para regular a
concorrência entre as empresas, Bárbara Rosenberg ainda estava no
segundo ano de direito. Três anos depois, conseguiu estágio nessa
área. E passou a investir nela: fez mestrado em propriedade
intelectual em Berkeley, uma das mais prestigiadas universidades
americanas, e estagiou na Organização Mundial do Comércio.
Aos 28 anos, voltou para trabalhar na Secretaria de Direito Econômico
do Ministério da Justiça. Aos 34, é sócia do Barbosa,
Müssnich & Aragão, um dos escritórios mais reputados do país. Lá,
defende a fusão da Sadia com a Perdigão, a operação comercial mais
importante feita neste ano.
Revista Consultor Jurídico, 8 de novembro de 2009h