O carinho da ex-namoradinha
Antes da Internet as pessoas se afastavam e sumiam no mundo inexoravelmente.
Um escritor poderia escrever sobre sua infância, dando os nomes reais de
todos os que conheceu e esses jamais saberiam que alguém escreveu sobre
eles. Hoje, quando a gente pensa naquele menina lindinha por quem fomos
apaixonados na infância, basta ir ao Google, ao Orkut, ao Facebook, etc., e
acabou o mistério que parecia soterrado sob toneladas de passado. Bom, tudo
isso para dizer que encontrei uma menina por quem fui apaixonado em São
Paulo, quando eu tinha apenas 11 anos de idade. Ela tinha 8. Eu vivia
arranjando motivos para observá-la, tocá-la, abraçá-la e assim por diante.
Roubei beijos dela, deixei a mão boba passear durante as brincadeiras de
"polícia e ladrão" e "gatinho mia". E, numa das tardes mais paradisíacas de
São Paulo -- aquele baita frio --, eu dormi com a cabeça no colo dela.
Mentira, eu apenas fingi dormir, pois o prazer de estar com ela naquele sofá
me tornava incapaz do sono. Antigamente um escritor ficaria especulando
sobre o paradeiro da figura e, se fosse um Proust, escreveria um livro
inteiro sobre isso. Ok, apesar da internet, ainda há outras ex-meninas
desaparecidas, mas isso apenas porque não me recordo de seus sobrenomes. Já
esta, a que reencontrei, está casada, tem um filho e vive na Espanha. Em
suma, a questão é que eu lhe escrevi. E ela me respondeu com uma carta
(email!) carinhosa que começa assim:
Oi Yuri! Que coisa boa receber um email teu! Eu também lembro de você com
> muito carinho, meu primeiro namoradinho, amor inocente de criança... pode
> ter coisa mais bacana?
Sim, há uma coisa tão bacana quanto: saber que nossa imagem habita a
lembrança da "ex-namoradinha" tal qual a dela ainda habita a nossa...
{}'s
Yuri
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