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Mensagem sobre o tópico Café preto no Ministério
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yuri vieira  
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De: "yuri vieira" <yur...@gmail.com>
Data: Wed, 20 Feb 2008 14:10:12 -0300
Local: Qua 20 fev 2008 15:10
Assunto: Café preto no Ministério

Café preto no Ministério<http://ogargantadefogo.org/2008/02/20/cafe-preto-no-ministerio/>
*yuri vieira*, 1:49 pm
Arquivado sob: Cotidiano <http://ogargantadefogo.org/category/cotidiano/>,
Política <http://ogargantadefogo.org/category/politica/>
Tags: Política <http://ogargantadefogo.org/tag/pol%EDtica/>,
racismo<http://ogargantadefogo.org/tag/racismo/>

Talvez seja apenas um preciosismo de gente chata, mas não consigo deixar de
me perguntar o porquê de o ministro da Igualdade Racial ter de ser sempre um
negro<http://oglobo.globo.com/pais/mat/2008/02/20/edson_santos_toma_posse_h...>.
Um amigo de São Paulo me disse que conheceu um ótimo advogado, formado no
Brasil, mas nascido no Irã. Aposto que há menos persas no Brasil que negros.
Não poderiam convidar esse advogado para ministro da Igualdade Racial? Há
ainda muitos coreanos, chineses, japoneses. (Um amigo meu, coreano, é capaz
de afundar o nariz de quem quer que afirme serem esses três povos membros da
mesma raça.) E nem falamos dos judeus… Ei! Espere aí! E os índios? O
ministro não poderia ser um índio? Nada mais natural. Claro, isso poderia
iniciar uma briga entre diferentes etnias indígenas, cada qual apresentando
o seu candidato, mas seria um primeiro passo. Ou será que só a raça negra
precisa ser… *igualada*? Eu tive uma tataravó negra que, digamos, "igualou"
com meu tataravô italiano. Depois de várias *igualadas *mais — com
portugueses, índios, cristãos novos (judeus) — surgi eu. Isso é que é *
igualar*? Se é, não precisamos de ministérios, mas de *casamenteiros*. Acho
que Gilberto Freyre concordaria.

Não me lembro quem me contou o *causo *a seguir. O sujeito estava viajando
de Brasília para Goiânia e, no meio do caminho, sonolento que estava,
decidiu parar e tomar um café. Entrou numa dessas lanchonetes de posto de
gasolina e pediu:

"Por favor, me vê um café preto?"

O atendente fez um muxoxo, pegou uma xícara e foi à máquina. Voltou com o
café fumegante.

"Tá aqui. Mas, olha, não precisa falar comigo desse jeito. Eu sou preto mas
sou limpinho."

O freguês arregalou os olhos, sem saber o que dizer. Na terra dele — Minas?
Paraná? — era costume dizer "café preto", talvez uma redundância perceptível
apenas em outras regiões. Mas, poxa vida, ao fazer seu pedido, ele não fez
nenhuma pausa entre o *café *e o *preto*. Como o atendente podia pensar que
ele era capaz de se dirigir a alguém daquela forma? Ficou tão constrangido
que achou melhor não tentar esclarecer nada, a emenda poderia sair pior que
o soneto. Bebeu tudo num gole, pagou, saiu de fininho. Percebeu que outros
fregueses, chegados apenas momentos antes da fala do atendente, o olharam
cheios de censura, quase com rancor. Nunca mais pisou ali…

Eu jamais seria hipócrita a ponto de afirmar que não há racismo no Brasil.
Ou em qualquer outro lugar. As diferenças raciais, em seus aspectos físicos
(o fenótipo), são evidentes, por mais que venham nos dizer que os genes (o
genótipo) são praticamentes iguais. Creio que haja outras diferenças, em
termos de temperamento, por exemplo, bastante marcantes e que seria horrível
se eliminadas. A variedade é sempre bem-vinda. Assim, a intenção de igualar
só pode ser justificada no tocante aos direitos. Mas, para tanto, não basta
que a Justiça seja… *justa*? E este não é o trabalho do Ministério da
Justiça? Qual é então a função desse ministério da Igualdade Racial? Vigiar
os tribunais de justiça? Policiar a polícia? Enquadrar cidadãos racistas?

Meus pais tiveram, anos atrás, uma diarista negra. Talvez ela tivesse tido
mais sucesso como humorista do que como empregada doméstica, mas, enfim, foi
contratada não para fazê-los rir e sim para arrumar a casa. No entanto, ela
não deixava de contar casos hilariantes do Tocantins, seu estado de origem.
Seu personagem cômico preferencial: o índio. Contava ela que nunca, em seus
vinte e um anos de vida, nunca vira um índio a andar solitário pelas ruas ou
pela estrada.

"Os índios vivem em cardume", dizia.

"Um dia, eu viajava pra Porto Nacional com meu tio, numa D-20, e então, mais
adiante, à beira da estrada, vimos um índio pedindo carona. 'Vou parar',
disse meu tio, que então perguntou ao índio onde ele pretendia ir. Esse
respondeu que até Porto Nacional. 'Pode subir', murmurou meu tio, orgulhoso
de sua boa vontade. O índio então virou-se para trás e gritou
'Ouuuuuhhhh!!', deixando-nos assustados. Era um ponto da estrada em que, de
ambos os lados, havia barrancos, já que aquele trecho havia sido aterrado
para evitar as cheias do riacho próximo. Assim que o índio gritou, surgiram
dos dois lados da pista cerca de vinte outros índios que, sem a menor
cerimônia, foram subindo na carroceria da caminhonete, que chegou a empinar
a dianteira com todo aquele peso. 'Mas que filho da mãe!', sussurrou meu
tio, puto da vida. 'Por que ele não disse que estava acompanhado pela tribo
inteira? Que safado!' E assim seguimos até Porto, onde o *cardume *saltou
sem dizer um ai sequer de agradecimento."

E ela tinhas outras histórias.

"Uma vez, eu tava na casa da minha mãe, conversando com ela e com uma
vizinha, quando alguém então bateu palmas na porta de casa. Fui olhar: era
um índio. Estava só e queria saber se podia pegar algumas mangas no quintal
de casa. Mamãe adorava fazer doces e, por isso, tinha ali um pomar bem
variado, mas naquela ocasião apenas a mangueira estava carregada de frutos.
Minha mãe foi à porta, achou-o simpático e disse que ele poderia se servir
de quantas quisesse, voltando em seguida para dentro de casa, onde
continuamos a conversa. De repente, ouvimos uma algazarra tão grande, que
parecia haver uma parada na rua. Ao olhar pela janela, vimos cinco índios
trepados na mangueira, enquanto outros doze colhiam as frutas que os
primeiros jogavam para baixo. Eram tantos e tão animados, que não sabíamos
se ficávamos com medo ou com raiva deles. Desta vez, o índio que pediu
autorização veio nos agradecer, mas fingiu que não entendeu quando mamãe
reclamou por ele não ter avisado que eram tantos. Foram embora com sacos e
sacos de mangas. Quando chegamos ao pé, não havia restado um fruto sequer.
Lá em casa, ninguém confia em índio…"

Eu pergunto: há racismo nessa última afirmação? Se há, o ministério da
Igualdade Racial se pronunciaria a respeito? Ou o verdadeiro nome do
ministério é Ministério da Raça Negra? Eu realmente não entendo essa
ausência de rodízio racial na direção do dito cujo. Não apenas o novo
ministro também é negro como os candidatos preteridos também o eram. Eu
pensaria duas vezes se, caso fosse funcionário ali, decidisse seguir as
tradições do soporífero serviço público e fosse até a cozinha pedir um *café
preto*…

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