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Tlön, Urântia, Borges, Deus
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yuri vieira  
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De: "yuri vieira" <yur...@gmail.com>
Data: Wed, 9 Apr 2008 18:02:57 -0300
Local: Qua 9 abr 2008 18:02
Assunto: Tlön, Urântia, Borges, Deus

*Tlön, Urântia, Borges, Deus*

 "Não rir, não lamentar, nem detestar, mas compreender." Baruch Espinosa

 Em 1941, Jorge Luis Borges publicou *El Jardín de los senderos que se
bifurcan* e, neste livro, o conto *"Tlön, Uqbar, Orbis Tertius"*, que mais
tarde também apareceu em *Ficciones*(1944). O conto narra, de início, as
supostas peripécias de Borges e de seu amigo Bioy Casares, outro conhecido
escritor argentino, em busca do porquê de o verbete "*Uqbar*" constar na
enciclopédia deste último mas não no volume correspondente da de Borges. *
Uqbar*, segundo a *Anglo-American Cyclopaedia*, seria um país localizado na
Ásia Menor, com sua própria história, geografia, literatura, língua, etc. O
termo *Tlön *surge aí pela primeira vez, relacionado a uma "região
imaginária" presente com certa freqüência nas epopéias e lendas de *Uqbar*. No
entanto, por mais que os dados do verbete tragam certa verossimilhança, a
tal enciclopédia não lhes parece senão uma falaz reprodução da *Encyclopaedia
Britannica*(1902) -- certamente criada com o único intuito de divulgar
semelhante fraude. Afinal, além desse país não ser mencionado por nenhum
atlas oficial, a estranha história de *Uqbar *e *Tlön *leva-os tão somente a
infrutíferas pesquisas. Assim, anos mais tarde, ainda segundo o próprio
conto, tendo esquecido o assunto, o narrador descobre entre os pertences do
engenheiro inglês Herbert Ashe -- um amigo de seu pai, falecido havia pouco
-- um livro de 1001 páginas intitulado *A First Encyclopaedia of Tlön. vol.
XI* em cuja primeira página se vê um "óvalo azul" com a inscrição: "*Orbis
Tertius*". E não pára aí. Aos poucos, toda uma enciclopédia sobre o planeta
*Tlön *vem à luz, magnetizando as atenções gerais. Sim, ao invés de um único
verbete perdido numa enciclopédia comum, despontam, ao redor do globo,
volumes e mais volumes de uma enciclopédia tratando unicamente da vida num
estranho planeta. Borges, então, passa a descrever detalhes minuciosos das
crenças, da ciência, da filosofia, da psicologia, da história, da
literatura, enfim, dos mais diversos âmbitos da vida inteligente de *Tlön*.
E avisa: com o correr dos anos, todo esse conteúdo chegou a afetar a
humanidade a tal ponto que nosso mundo simplesmente passou a ser *Tlön*, uma
vez que, nas escolas, nas universidades e na vida cotidiana, a Terra deixou
de ter qualquer importância, não se estudando, respeitando ou vivendo senão
os aspectos e atributos desse novo orbe: "El contacto y el hábito de Tlön
han desintegrado este mundo". E então, sem deixar de lembrar que no
latim *inventar
*e *descobrir *são sinônimos, Borges indaga: "¿Quiénes inventaron a Tlön?"

Em 1997, recebi em meu apartamento, na Universidade de Brasília, a visita de
uma amiga que me apresentou um livro de 2100 páginas, em inglês, com três
círculos azuis concêntricos na capa e o título *The Urantia Book*. Comecei a
folheá-lo distraído e, sem que me apercebesse, acabei virando a noite sobre
ele. Quando finalmente me senti cansado, o sol já dourava o lago
Paranoá.Minha inclinação pela literatura de cunho fantástico não me
permitiria outra
atitude: tive a sensação de estar com o Graal dos livros de literatura
fantástica em minhas mãos. Do que tratava? Bem, a mera leitura de seu índice
me causou vertigens, haja vista suas 59 páginas. Sim, 59 páginas apenas de
sumário. Havia capítulos e seções com títulos tais como: "Os níveis
espaciais do Universo Mestre", "O circuito de gravidade mental", "Os sete
Superuniversos do Espaço-Tempo", "Os mundos Vorondadec", "A respiração do
espaço", "A energia, a mente e a matéria", "Os ultimátons, os elétrons e os
átomos", "As Personalidades do Universo Local", "As sedes centrais das
constelações", "As hostes seráficas", "A união trinitária da Deidade", "A
natureza da Ilha Eterna", "Os domínios do Absoluto Não Qualificado", "O
sistema Paraíso-Havona", "Os artesãos celestiais", "O superuniverso de
Orvonton", "As Esferas Arquitetônicas", "Os Serafins Transportadores", "Os
Sete Espíritos Reitores", "O Espírito Materno do Universo", "A estabilidade
dos sóis", "A origem dos mundos habitados", "Os manipuladores da energia",
"Tipos físicos planetários", "Os mundos dos que não respiram", "As criaturas
volitivas evolucionárias", "A rebelião de Lúcifer", "A origem de Monmátia -
o sistema solar de Urântia", "Os níveis da realidade no Universo", "A
associação terciária transcendental da realidade", "O conceito filosófico do
EU SOU", "A supervisão da evolução", "O fim da idade dos répteis", "A origem
das raças de cor", "Os Príncipes Planetários", "Os Adãos Planetários", "Os
sete Mundos das Mansões", "O governo de um planeta vizinho", "Dalamátia -- a
cidade do Príncipe", "Os edenitas entram na Mesopotâmia", "Os adanitas
entram na Europa", "A encarnação de Maquiventa Melquisedec", "A verdadeira
natureza da religião", "A ciência e a religião", "A finalidade do destino",
"As auto-outorgas de Cristo Miguel", "A viagem de Jesus a Roma", "O
significado da morte na cruz", "O totalitarismo secular", "O problema do
cristianismo", "O futuro"... Eu lia trechos e mais trechos de arrepiar os
cabelos, como, por exemplo, a informação de que, na sede central do Universo
Local, mais de um bilhão de seres materiais, "moronciais" e espirituais
assistiram, ao vivo, juntos e embasbacados, no anfiteatro em torno ao "Mar
de Cristal", ao martírio e à crucificação do Soberano de Nebadon no mísero
planeta Urântia, um dos planetas isolados pela rebelião de Lúcifer, que
havia sido escolhido previamente como cenário para a experiência material de
seu próprio Criador. Sim, o livro narra a vida de Jesus na Terra -- Urântia
-- sem saltar um dia sequer... Embora a princípio tudo se assemelhasse à
mera explanação da excêntrica doutrina de mais uma possível seita de
fanáticos cristãos, eu lia aquelas páginas como quem se depara com o guia do
mais vasto, completo e coerente mundo de *Role Playing Game*. O texto
parecia elaborado por uma equipe de seis Jorges Luises Borges e quatro
J.R.R.Tolkiens juntos. E, no correr dos últimos onze anos, tal impressão não
se desvaneceu, ao contrário, amplificou-se, uma vez que uma coesa unidade de
conceitos e princípios perpassa toda a obra. O responsável por aquilo tudo
não há de ter sido nenhum idiota. A obra traz conhecimentos avançados sobre
teologia, religião comparada, filosofia, antropologia, sociologia, política,
física, astronomia, biologia e, ousarei dizer?, história. Até mesmo o prêmio
Nobel de química Kary Mullis publicou artigos confessando sua surpresa
diante de dados científicos exatos apontados pelo livro com décadas de
antecedência. Na minha singela opinião, ou o livro é resultado de toda uma
vida de elucubrações espantosas -- a obra dum anônimo e delirante gênio --
ou é a evidência de que alguma sociedade secreta decidiu entrar para valer
na guerra cultural que assolou todo o século XX e que continua a agir por
trás de todos os grandes conflitos deste novo milênio. As alternativas me
assombram. Principalmente porque há também a opção -- nem um pouco
impossível, vale lembrar -- defendida pelo próprio livro: trata-se da
"Quinta Revelação Epocal". Quem enfim inventado (descoberto?) *O Livro de
Urântia*?

Escreveu Borges: "¡Oh dicha de entender, mayor que la de imaginar o la de
sentir!" Sim, a vida interior é detentora dos maiores prazeres. E nada
excita mais o intelecto do que um complexo quebra-cabeça, por mais esdrúxulo
e improvável que ele pareça. Tal quebra-cabeça pode ser, o que é muito
comum, uma mulher. Ou, quem sabe, o sentido da vida. Ou um livro sem autor.
A descoberta de uma resposta pode vir a ser um verdadeiro orgasmo psíquico.
Ou não, depende do *valor *dessa resposta. Há sempre a possibilidade de uma
ejaculação precoce ou de uma simples e frustrante broxada. Borges descreve
assim a descoberta do primeiro volume da enciclopédia sobre *Tlön: *"Numa
noite do Islã, que se chama a Noite das Noites, abrem-se de par em par as
secretas portas do céu e é mais doce a água nos cântaros; se essas portas se
abrissem, eu não sentiria o que senti naquela tarde." Foi assim que me senti
ao ter O Livro de Urântia nas mãos pela primeira vez. Por mais cético que um
homem seja -- e Borges, apesar de seu gosto literário, era um cético -- nada
poderá satisfazê-lo mais do que a revelação de que a Terra não está só no
cosmos. A não ser, é claro, a comunhão plena com outro indivíduo. Porque há
de fato gente que passa pela vida sem jamais ter seu coração minimamente
tocado por outra pessoa. Há gente que vive como um planeta sem sistema a
flutuar solitário, carente de sol, no negro infinito. Ninguém a comove,
ninguém a aquece. Ser amado é mais fácil que ser compreendido; mas
certamente não há compreensão real sem amor. Henry Miller foi apaixonado por
June e pela vida desde o início, mas talvez só as tenha compreendido de
verdade ao encerrar sua *Crucificação Encarnada*, a trilogia formada pelos
romances *Sexus*, *Plexus *e *Nexus*, na qual exercita sua capacidade de
amar a... a criação literária. Foi nesta trilogia que li, pela primeira vez,
uma apologia a Oswald Spengler (1880-1836), polêmico filósofo e historiador
alemão, que se autodenominava "o primeiro Filósofo do Destino". Isto porque
o quebra-cabeça predileto de Spengler -- a sua, digamos, "mulher abstrata"
-- era a história e o *destino *das civilizações. Partindo dos estudos
botânicos de Goethe -- que tornou notória a teoria segundo a qual toda e
qualquer planta é formada por metamorfoses parciais ou completas do simples
modelo raíz-caule-folhas (o princípio da *planta primordial*)--, o
historiador chegou à conclusão de que não há uma linha temporal constante
através da qual uma suposta evolução leva os homens de uma cultura primitiva
até uma civilização cada vez mais avançada. Não. Na verdade, cada
civilização seria um organismo único e original que, como qualquer outro ser
vivo, nasce, cresce, amadurece, decai e morre, segundo uma ordem constante e
claramente discernível. (Ele diferencia o termo Cultura do termo
Civilização, sendo o primeiro a fase criativa e o segundo a fase
degenerativa do organismo.) Tal teoria foi exposta num livro com o
significativo título de *A Decadência do Ocidente*. Nele, ele demonstra como
é absurdo imaginar uma Cultura superior sem religião. E vai além: a essência
de toda Cultura superior ou Civilização é *sempre *religiosa e, conforme
essa essência vai se tornando desacreditada, perde-se a necessária coesão
vital e inicia-se o declínio do organismo. Afirma ainda que toda Cultura se
inicia quando um indíviduo -- ou pequeno grupo de indivíduos -- é arrebatado
por um novo e fecundo *páthos*, por uma profunda reação interior a um
acontecimento e/ou situação concretos completamente inéditos e fundamentais,
que, como nas ondas concêntricas causadas por uma pedra na superfície de um
lago, vai se ampliando e literalmente *animando *todo um povo. O mito
fundante seria, portanto, algo que *de fato* aconteceu, algo sobrenatural.
Partindo deste *insight*, o historiador chega a defender que mesmo os
princípios científicos de uma Civilização em estudo não são senão elementos
da sua doutrina religiosa trasladados para o pensamento racional. E então
discorre, não apenas sobre a física, mas também sobre a matemática, a arte,
a filosofia, a política e a religião Antigas (greco-romana), Ocidentais (ou
Fáusticas), Chinesas, Árabes, etc., apontando as características únicas de
cada uma delas. Spengler assevera categoricamente que o Ocidente não se
encontra senão em sua fase final, tendo também ocorrido, em outras
civilizações já mortas, como agora ocorre, o mesmo ceticismo e descaso da
elite pensante para com a sua própria essência mítico-religiosa. O dito
ateísmo, aliás, seria tão diverso quanto as diferentes religiões, tendo cada
Civilização seu próprio e exclusivo exemplar de ateu. Em outras palavras: um
ateu é como um "radical livre" especialmente preparado para atacar as bases
daquela, e apenas daquela, Cultura superior, tal como um determinado
reagente químico só entra em ação ao encontrar determinada molécula afim.
Todo esse processo se passa simplesmente por ser algo natural, isto é,
porque a Cultura já atualizou todo o seu potencial criativo, já expressou e
gerou toda a beleza, sabedoria e conhecimento de que era capaz. Extenuados e
oprimidos pelas obras de seus antecessores, os homens de uma época tardia
não têm outra opção senão apegar-se à sua herança cultural ou, ora por
tédio, ora por desespero, liquidar com o mundo em que vive, preparando, de
forma inconsciente, o terreno das consciências para uma futura Civilização.
Além disso, segundo o historiador, todo aquele interesse de sua época pelas
filosofias e tradições orientais -- seu livro foi publicado em 1917, quando
o orientalismo já estava em moda -- não impediria, como sempre costuma
ocorrer numa etapa final, uma revitalização tardia e burlesca da religião
original. O cristianismo, escreveu ele, se reergueria de forma canhestra e
paródica, sendo esse fenômeno nada mais que a manifestação dos últimos
estertores de uma Civilização agonizante. Escreveu Platão: "Quando os
sacerdotes vendem seus ritos e os soldados têm medo da morte, a sociedade
está decadente". Sim, porque um mundo pelo qual não vale a pena lutar e um
significado religioso sem outro valor que o financeiro nada podem sustentar.
Os protestos pacifistas contra determinadas guerras e a proliferação de
igrejas pentecostais interessadas nos bolsos dos fiéis não comprovam outra
coisa.

Na verdade, a idéia de uma manifestação cíclica na cultura e na sociedade
data de Platão, idéia essa exposta pelo personagem Sócrates na *República. *De
acordo com Sócrates, a aristocracia, ordem social superior (governo dos
melhores), degeneraria em timocracia (governo dos ricos) e esta,
sucessivamente, em oligarquia (governo de alguma facção), democracia
(governo da maioria, seja ela educada ou burra) e, por fim, em tirania
(governo da violência). O aristocrata autêntico, fixado num extremo da
escala, seria o homem bom e justo; o tirano, situado no extremo oposto, o
mau e injusto. O ciclo, portanto, caminharia de uma época de luz para uma de
trevas cada vez mais acentuadas. (Platão nos ensina que a tirania sempre
nasce da democracia.) Giambattista Vico (1668-1744), que estudou Platão,
propôs uma teoria semelhante. Contudo, em sua visão -- definida por três
fases consecutivas(Idade Divina ou Teocrática, Heróica ou Aristocrática e
Humana ou Democrática) --, a manifestação cíclica seria permanente, sem uma
clara expressão de decadência. A Providência se encarregaria de levar a
humanidade adiante, através dessas tonalidades anímicas, evitando um fim sem
esperanças. Mesmo Harold Bloom, partindo de Vico, subdividiu seu estudo
sobre *O Cânone Ocidental* nas literaturas das Eras Aristocrática,
Democrática, do Caos e, arrisca-se ele a prever cheio de receio, eis que
desponta no horizonte uma nova Era Teocrática, tal como aquela que nos legou
o Antigo Testamento... (Marx e Hegel também desenvolveram suas próprias
teorias históricas, sendo que, para o primeiro, a história culminaria
necessariamente no comunismo e, para o segundo, culminaria no estado
prussiano ou, pode-se também dizer, no próprio umbigo de Hegel, mais
conhecido como *Idéia*. Para Nietzsche, esse ciclo (o Eterno Retorno)
ultrapassou a história e tornou-se uma verdadeira prisão ontológica que só
poderia ser vencida pelo "Übermensch" ou "Sobrehomem".)

Esta digressão pode parecer sem propósito, mas ela vem justamente para
tornar, ao menos para mim mesmo, ainda mais aterrador o, por assim
dizer, *advento
*do Livro de Urântia. Ao ler a *República, *de Platão*, *é impossível evitar
o susto de nos depararmos com a descrição extremamente atual do estado de
coisas que nos levou a ver, nesses últimos 100 anos, pessoas como Churchill,
Vargas, Mussolini, Hitler, Stálin, Mao, Castro, Kennedy, Kubitschek,
Goulart, Castelo Branco, Sarney, Collor, Chávez, Lula, Clinton, Bush e
muitos outros chegarem a postos de elevado poder. Todos os tipos já estavam
ali delineados. Tão admiráveis são também as observações de Vico e Spengler,
além do próprio Harold Bloom, sobre a sucessão das fases culturais, que
torna-se irreprimível não inferir certas possibilidades futuras. O filósofo
Mário Ferreira dos Santos, apesar de acusar Nietzsche(cujas intuições ele
admira) e quase toda a filosofia posterior de incorrer em erros refutados
com séculos de antecedência pelos escolásticos, adapta à sua própria visão a
escala nietzscheana para discorrer sobre nossa época. Segundo esta escala,
viveriam mesclados, hoje, os Homens da Tarde, os da Noite e os da Madrugada,
prenunciando estes últimos a chegada do Homem do Meio-dia. Os Homens da
Tarde seriam aqueles cuja negatividade não faz senão corroer ainda mais
todos os valores e princípios caros à nossa civilização. Eles aceleram o pôr
do sol, o ocaso da civilização. Os Homens da Noite seriam aqueles que, em
meio à escuridão de um céu sem lua ou estrelas, buscam ainda um fio de
Ariadne que lhes permita atravessar um mundo absurdo e carente de sentido.
Eles não têm a certeza, mas sim a esperança. Os Homens da Madrugada são
aqueles que já encontraram esse mesmo fio e que, em seus corações, já
imaginam como será o Homem que viverá na claridade plena de um Meio-dia
cheio de sentido, valores e luz. E Mário Ferreira dá um nome ao causador
desse *páthos *definido por Spengler, esse capaz de *animar *todo um povo e
de iniciar um novo Meio-dia: *Revelação*, isto é, a comunicação ao homem da
vontade divina. Mas... como então saber se uma revelação é de fato
autêntica? Simples: se sua manifestação der origem, no correr dos séculos, a
uma nova Cultura superior, a uma nova Civilização, então ela é. E o filósofo
brasileiro faz ainda uma distinção clara entre as religiões tradicionais e
as seitas: as primeiras teriam necessariamente origem numa revelação
legítima; já as seitas, em idéias, *insights *e idiossincrasias de
indivíduos, as quais, no fundo, não teriam valor real senão para esses
mesmos indivíduos. E isto significa: seu impacto social seria equivalente,
na história das Culturas, a um punzinho.

Sim, eu sei que falar sobre o conceito de revelação divina, nesta época em
que os "radicais livres" praticamente dominam os meios de cultura, soa tão
sem propósito quanto discursar sobre carne de soja numa churrascaria. Hoje
em dia, se você for um escritor, mais atenção conseguirá se emitir, em meio
a uma narrativa, ou proposições místico-nebulosas embebidas de "pensamento
positivo"; ou acusações em grande parte justificadas contra a hipocrisia e a
perversidade de certos religiosos; ou, o que é ainda mais comum e mais
egoicamente lucrativo junto à crítica dita séria, observações cínicas e
arrasadoras sobre tudo o que se refere à humanidade, enquanto, entre um dito
sarcástico e outro, o personagem central discorre sobre como friccionar, da
maneira mais eficiente, um clitóris com os dedos da mão esquerda ao mesmo
tempo em que penetra uma buceta com seu pau duro e um cuzinho com os dois
dedos da mão direita. Enfim, ou o escritor se debruça em meditações
fleumáticas sobre o absurdo da existência, ou se desespera, ou sai por aí
abraçando o capeta, afinal, se já está no inferno, pensa, vamos ao menos nos
divertir. No fundo, o máximo a ser tolerado, se o cara quiser tratar de
"espiritualidade", é adotar uma postura panteísta com pitadas de budismo
chique e satisfeito, de preferência com explicações baseadas na física
quântica. E ninguém nota, como notou Leo Gilson Ribeiro em relação ao
angustiado Kafka, e Lou Andreas-Salomé em relação ao atormentado Nietzsche,
que eram ambos "almas profundamente religiosas". Quem não se cansa de
indagar "por quê" (*por causa de quê*), quem não se cansa de buscar as
causas primeiras, as origens, não pode evitar, por mais que se perca, de
adotar uma postura religiosa, que, claro, não se confunde com carolice e
pode manifestar-se tanto de forma positiva quanto negativa. A palavra
religião é de etimologia incerta, pode tanto vir do latim *religare* (ligar
de novo), quanto do latim *relegere *(ler ou colher de novo) ou do verbo
grego *alegeyn *(venerar). Mas todas as alternativas apresentam a idéia de
dois termos que se ligam, um termo final que volta a se nutrir de um
inicial. Em *"Tlön, Uqbar, Orbis Tertius", *conforme descrevi, Borges relata
seu espanto ao ver a Terra tornar-se *Tlön*. Ao homem comum não interessam
as refutações lógicas: se algo dá um sentido mais abrangente à sua vida,
este algo será adotado. Há porém um problema: num epílogo ao conto, Borges
confessa ter descoberto, anos depois do seu primeiro encontro com a
enciclopédia sobre *Tlön*, a origem desta. *Tlön *nunca existiu. A Noite das
Noites foi uma ilusão e a revelação dos autores uma grande broxada. A
verdade era que uma sociedade secreta havia decidido criar um país. Assim,
seus membros buscaram patrocínio e o milionário norte-americano que aceitou
bancá-los fez duas exigências: 1) se era para gastar seu dinheiro, que
pensassem grande e criassem todo um planeta, pois um país era muito pouco;
2) que a obra "não compactuasse com o impostor Jesus Cristo". Semelhante
dado é de causar espécie, principalmente quando, ao se comparar o Livro de
Urântia com o "livro de *Tlön*", percebemos que o primeiro não apenas
compactua com Jesus Cristo, mas o enaltece e o ilumina de forma nunca antes
vista desde os evangelhos. Sim, essa estranha "contracoincidência" dá o que
pensar. Teria Borges tomado conhecimento desse livro escrito entre os anos
1920 e 1930? Creio que nunca o saberemos. Ao contrário de J.J.Benítez, cuja
série *Operação Cavalo de Tróia *teve como fonte básica de pesquisa o Livro
de Urântia, Borges jamais fez qualquer menção direta a ele. Benítez, que
também o utilizou para escrever *A Rebelião de Lúcifer, *no qual o planeta
Terra é chamado de *Iurancha *-- daí meus amigos me sacanearem citando o
"Livro de Yurântia" --, chegou a ser alertado para jamais publicar nos
Estados Unidos, pois a Fundação Urântia poderia processá-lo por plágio. Mas,
tendo Benítez assumido sua crença de que o livro é de fato uma revelação,
por que então alguém o impediria de usá-lo como inspiração? Quando Thomas
Mann escreveu *José e Seus Irmãos, *estaria ele plagiando o Antigo
Testamento?

Seria o Livro de Urântia, tal como previu Spengler, apenas um último
estertor da nossa religião original? Não creio. Quase todas as manifestações
"paródicas" do cristianismo costumam dar-se como anticlímax, impondo
conceitos e valores completamente aquém dos ensinados por Jesus. A
irmandade, antes aplicada por Cristo a todos os humanos do planeta, recai
hoje apenas nos membros desta ou daquela igreja; estimula-se as orações para
solicitar não bens espirituais, mas materiais; nos cultos, fala-se mais de
demônios, diabos e "encostos" do que de Deus; a expressão estética da
experiência religiosa jamais é estimulada, os cultos ocorrem em templos
feios e ordinários; sublinha-se a importância deste ou daquele grupo
enquanto intermediário quando, na verdade, Jesus ensinou que religião é o
nome da relação pessoal que cada indivíduo mantém com Deus; e assim por
diante. Embora Spengler ainda esteja correto no tocante às civilizações
regionais, isoladas tanto no tempo quanto no espaço, o Livro de Urântia
parece apoiar a tese de Vico, segundo a qual, ao menos no concernente ao
planeta com um todo, haveria uma influência externa interessada em guiar a
humanidade para fases cada vez mais avançadas. Deste modo, a Revelação se
daria em etapas, sendo as comunicações divinas proporcionais à capacidade de
compreensão média dos seres humanos de uma determinada época. O Livro de
Urântia seria a quinta revelação de época à coletividade planetária, o
quinto *upgrade* -- porque existem revelações pessoais de valor meramente
individual -- sendo estas as revelações anteriores: 1) a chegada do Príncipe
Planetário (não físico) e de seu séquito de cem instrutores (físicos, porém
imortais); 2) a chegada de Adão e Eva (os humanos, evoluídos de animais, já
existiam nessa época); 3) a encarnação de Melquisedec; 4) a encarnação de
Jesus Cristo, soberano do Universo Local; 5) a transmissão do Livro de
Urântia, de autoria de diversas personalidades espirituais e moronciais.
Claro, diversas vezes o planeta teria andado para trás, confirmando
novamente Spengler. Mas tal fato não poderia ser explicado senão pela
expressão *shit happens* e pelo fato de que há o livre arbítrio. Lúcifer
explica. Sem esquecer a epígrafe deste ensaio -- "não rir, não lamentar, não
detestar, mas compreender" -- vamos, pois, a um resumo da cosmogonia
urantiana, que, no mínimo, é algo que ou dará um bom RPG, ou humilhará os
ETs da Cientologia.

Segundo o Livro, no centro do Grande Universo -- o cosmos como um todo -- há
uma singularidade conhecida como "Ilha Estacionária Paradisíaca", centro da
gravidade material e fonte de toda energia radiante (servidor dos circuitos
de energia do espaço), incluindo a luz visível. Este "local", onde ocorre
tanto a "repiração do espaço" quanto o retorno da energia radiante à fonte
-- tal como nosso sangue retorna ao coração -- é o ponto de contato da
finitude com a infinitude. É a manifestação mais fantástica do cosmos e Deus
Pai está pessoalmente manifestado ali. Aí também se manifesta pessoalmente o
Espírito Infinito, terceira pessoa da trindade e centro gravitacional mental
do cosmos. O Espírito é o doador de mente (servidor do circuito de mente) --
nossos cérebros são alguns dos receptores existentes -- e o Pai é o doador
de personalidade (servidor do circuito de personalidade), que é aquilo que
há de constante e único em nós, passível de sobreviver à morte física e que
reage à presença do Pai, sendo atraída por Ele, por sua força de gravidade.
Do Pai também recebem os mortais uma Centelha Divina ou Monitor Residente ou
Ajustador de Pensamentos, que é um fragmento Dele residente em nossa mente,
o qual reage aos influxos da divindade. Todos os astros do espaço giram ao
redor da Ilha Estacionária Paradisíaca, tal como a Terra em torno do Sol. Em
torno da Ilha encontra-se o Universo Central de Havona, universo modelo, sem
história, eterno e perfeito, no qual os Filhos Criadores iniciam suas
carreiras e no qual se inspiram para criar seus próprios Universos Locais. O
Filho Eterno, segunda pessoa da trindade, pode ser encontrado aí. Não é
Jesus. Jesus (Micael ou Miguel) é um Filho Criador, soberano do Universo
Local de Nebadon, que ele criou em associação amorosa com o Espírito Materno
do Universo, uma filha direta do Espírito Infinito. Em torno do Universo
Central de Havona, giram Sete Superuniversos evolucionários do espaço-tempo,
cada qual formado por cerca de 100.000 Universos Locais e governados pelos
Anciãos dos Dias. Existem, pois, além de Jesus, outros 699.999 Filhos
Criadores, cada qual o Caminho, a Verdade e a Vida de suas próprias
criações. O número de seres de diferentes classes, funções e natureza
existentes tanto na Ilha, quanto em Havona e nos sete Superuniversos tende
ao infinito. Existem seres pessoais, pré-pessoais e apessoais, ascendentes
(como nós) e descendentes (como Jesus), materiais, moronciais, espirituais,
e assim por diante. Cada Superuniverso é constituído de 10 Setores Maiores;
cada Setor Maior, de 100 Setores Menores; Cada Setor Menor, de 100 Universos
Locais; cada Universo, de 100 Constelações; cada Constelação, de 100
Sistemas de Mundos (que não é o mesmo que um sistema solar); e cada Sistema,
de 1000 mundos habitáveis. Essas subdivisões não são exatamente
astronômicas, mas administrativas. Cada Superuniverso possui, pois, cerca de
um trilhão de mundos habitados.

O papel do ser humano, na Criação, ainda segundo o Livro, é sobreviver à
morte física, ascender de mundo em mundo, de esfera em esfera, até atingir a
presença pessoal do Pai Celestial, tornando-se então um Finalista, um ser de
função ainda não revelada. A vida em Urântia (o planeta Terra, o "planeta da
cruz") surgiu como em qualquer outro planeta habitado, ou seja, sob a
direção do Filho Criador, um grande número de seres espirituais -- incluindo
aí os Arquitetos Mestres do universo e os Portadores de Vida -- iniciam a
criação de formas primitivas de vida que, animadas pelo Espírito Materno,
passam então a evoluir sozinhas. O objetivo da vida animal num planeta é, um
dia, chegar a produzir um ser com cérebro capaz de abarcar a mente volitiva
autoconsciente. Existem planetas nos quais, por uma razão qualquer, os
humanos evoluíram de animais completamente diferentes dos da Terra. O mortal
filho de Deus não depende da evolução de uma espécie específica, mas apenas
da capacidade mental do cérebro. Os mortais ascendentes, portanto, são
classificados segundo o número de cérebros: humanos com um cérebro, com dois
e com três. Nós, terrestres, temos dois cérebros, o esquerdo e o direito. A
partir do momento em que uma espécie animal, por mutação repentina e
espontânea, dá à luz seres volitivos, o planeta recebe o status de planeta
habitado, sendo designado, para ele, um Príncipe Planetário, um ser
descendente invisível aos seres materiais. Acompanham-no um séquito de cem
voluntários que são materializados no planeta e que constroem a primeira
cidade universitária, para a qual convidam os membros proeminentes das mais
diversas tribos então existentes. Esse séquito consegue ver e se reunir com,
no caso de Urântia, Caligástia, o Príncipe Planetário. Sendo belos, gigantes
e -- graças a uma conexão especial com os circuitos do Espírito -- imortais,
passam a educar, sem envelhecer, gerações e mais gerações das mais diversas
raças locais. Apesar de desestimular tal comportamento entre os humanos, são
vistos como deuses, o que, na Terra, deu origem às mais diversas tradições e
mitos. Em Urântia, tudo corria bem, até que o soberano do Sistema de Mundos
Habitados, Lúcifer, emitiu uma Declaração de Liberdade. Acusou ele aos
Anciãos dos Dias de estrangeiros invasores e declarou que não acreditava que
seu Senhor, o Cristo, se reunia pessoalmente com a personalidade de Deus.
Caligástia, o Príncipe de Urântia, aderiu à rebelião, levando o séquito a
uma dissensão, o que, por sua vez, botou as tribos humanas em pé de guerra
umas contra as outras, segundo suas afinidades com os mestres. Como efeito
dessa rebelião, o Sistema foi isolado em quarentena, a qual permanece até
hoje. Encerraram-se as comunicações e os intercâmbios mais ostensivos em
quase 1000 planetas. Com isso, o séquito do Príncipe perdeu seu status de
imortalidade. Quando Adão e Eva chegaram -- eram Filhos Materiais da raça
violeta -- encontraram um planeta em estado de caos. Despreparados,
sucumbiram às suas próprias idéias, atentando contra o mandato da
Constelação, o que os fez perder também a imortalidade. Desde então, *shit
happens* atrás de *shit happens*. Nesse entretempo, Melquisedec -- cujo
estandarte contém os três círculos concêntricos azuis -- veio então ao
planeta e, após instruir um grande grupo, enviou-os em pequenos grupos aos
quatro cantos do mundo, fato esse que deu origem às mais diversas religiões.
No entanto, a rebelião só foi finalizada quando da vinda de Jesus, que
experimentava a forma de vida material, etapa necessária para assumir sua
soberania plena. A narrativa completa de sua vida na Terra é um dos textos
mais tocantes que já li. Hoje, Lúcifer está preso e o sistema está sendo
pouco a pouco reconectado. O Livro de Urântia supostamente faz parte desse
processo.

Sim, eu sei que tudo parece uma imensa loucura. Mas não creio que o universo
seja bobo e sem Graça como querem os céticos sistemáticos. ("Ah, o cosmos
surgiu com o Big Bang." Ok, e de onde veio o Big Bang?) Algumas pessoas me
dizem que toda essa cosmologia e hierarquia celeste é muito humana para ser
real. Mas e se o que chamamos de humano for apenas uma cópia imperfeita
dessa organização divina? Sim, isso nos leva a uma antinomia sem solução
satisfatória. É preciso aqui dar aquele salto chamado "fé". A Hilda Hilst, o
Bruno Tolentino, o Bruno Galas e o Olavo de Carvalho me ensinaram
pessoalmente que a fé não apenas não atrapalha a inteligência e a
criatividade como, muito pelo contrário, as estimula e fortalece. Eu sei que
não necessito d'O Livro de Urântia <http://www.urantia.org/> para chegar a
tal conclusão e para finalmente aceitar o convite divino. Eles não
precisaram dele e, quando lhes falei sobre esse livro, encararam-no com
grande reserva. Mas, sinceramente, desconfio que *ao menos* o planeta Terra
necessita desse impacto "tlöniano".

Chegamos a um ponto da História humana em que uma grande mudança se faz não
apenas necessária, mas inevitável. A Era do Caos preconizada por Harold
Bloom através de Vico, vai dando seus últimos frutos. Essa era do Caos seria
o que, na Teoria Geral de Sistemas, se chama "constelação": um momento em
que os elementos de um sistema dado se encontram dispersos por não haver
mais um "princípio dominante" que dê conta de influenciar e guiar o todo. É
uma fase de transição, porque, sem o advento de um novo princípio dominante,
ocorrerá a morte dos elementos remanescentes. Nos sistemas conhecidos como
"Cultura" ou "Civilização", tal princípio dominante seria, como já disse,
uma intuição espiritual original. E, se toda Cultura nasce duma intuição
nova e mais abrangente, duma visão cósmica mais universal, fecunda e cheia
de sentido, creio que jamais se viu outra visão mais estimulante que a
apresentada nesse Livro. Jesus cumpriu sua missão no tocante ao indivíduo,
que é o principal, mas a narrativa completa de sua vida e de sua obra --
assim como a descrição dos seres, da estrutura e das regras que regem as
demais "moradas"-- poderia, digamos assim, por "ressonância" e influxo
idealista, orientar a organização desse nosso variegado e caótico mundo.
Pela primeira vez na história, nosso "mundo conhecido" se confunde com todo
o planeta. "Deus quer, o homem sonha, a obra nasce. Deus quis que a Terra
fosse toda uma. Que o mar unisse, já não separasse." (*Mensagem*, Fernando
Pessoa.) Os remanescentes das Culturas outrora pujantes -- Ocidente Cristão,
Islã, Oriente hinduísta, budista, etc. -- não se sentem à vontade uns com os
outros e temem ser sobrepujados e engolidos pelos demais. Não há como
imaginar que, agora que esses sistemas distintos se tocam, que o princípio
dominante de um deles sobrepujará aos demais sem derramamento de sangue. Na
Europa, o avanço do islamismo é patente, pois uma civilização irreligiosa,
como a do ocidente tardio, é sempre mais fraca que uma religiosa. (Sem falar
que, enquanto um casal europeu dá à luz dois filhos -- um ateu e outro
agnóstico -- os muçulmanos dos subúrbios dão à luz nove ou doze islâmicos,
metade radical, metade *meramente *crente.) E apesar de o Livro de
Urântia<http://www.urantia.org/>estar mais próximo daquilo que
entendemos por cristianismo, ele talvez tenha
vindo não apenas confirmar tudo o que este tem de positivo e verdadeiro, mas
também purificá-lo de seus erros e malentendidos, o que, por isso mesmo,
poderia levá-lo ainda mais longe e torná-lo mais palatável aos demais povos.
Ele não revoga a Bíblia, os Evangelhos e demais livros sagrados. Não. Ele os
alarga, esclarece e amplia. Também apresenta muitas questões polêmicas
passíveis de gerar conflitos, isto é, se lidas isoladamente do restante da
obra. Mas creio que, dum modo geral, os efeitos do livro poderiam ser
positivos e duradouros a longo prazo. *Tlön *era uma obra falsa, conforme
diz Borges, um mero trabalho de "enxadristas", mas, no conto, dominou todo o
mundo. Ocorrerá o mesmo com o Livro de Urântia? É bem provável que, da mesma
forma que o Império Romano não conseguiu se livrar do "imperativo cristão"
-- e que o Oriente Próximo não conseguiu evitar o Islã -- tampouco o planeta
Terra conseguirá evitar tornar-se... Urântia. Eu estou cagando e andando
para o que meus amigos, familiares e desconhecidos possam achar dessa minha
posição. Eu apenas não consigo deixar de imaginar um outro futuro menos ruim
do que esse e, como dizia a Clarice Lispector, "imaginar é adivinhar a
realidade". Que culpa eu tenho se algumas coisas nascem mesmo póstumas e
impossíveis de serem provadas agora? Uma revelação só se prova como
revelação no correr dos séculos, quando então funda uma nova Cultura. Quem
escreveu esse livro sabia disso e nem se deu ao trabalho de assiná-lo. Foi
apenas um transmissor? Criou todos aqueles "heterônimos" fantásticos que
assinam os capítulos? Eu não sei. Tal imprecisão autoral não impediu que o
Pentateuco fundasse uma nação (Cultura) avançadíssima ou que o tribal Islã
alimentasse e ressuscitasse a então complexa e decadente Pérsia. Meu maior
temor em relação ao Livro era que ele fosse mais um gnosticismo. Mas quanto
mais o estudo, mais me convenço de que não é. Mas, bem, essa é uma outra
história.

Enfim, a revelação é uma forma de conhecimento possível e legítima da qual o
homem é digno. (Vide "O Homem Perante o Infinito", de Mário Ferreira dos
Santos.) As pessoas se acham vermes rastejantes abandonadas pelos Céus? Já
não me sinto assim. Deixei isso para trás. Agora sou, após muitos percalços,
capaz da fé. Vale lembrar que, quando algo ocorre na Europa, não há como
nós, aqui na América do Sul, termos acesso a tais fatos senão através do que
nos é revelado pelos meios de comunicação. Eles nos transmitem as notícias
ou novas. Vivemos mergulhados em informações. Como confiamos nelas? São
verdadeiras? São falsas? Em que medida? Um cético sistemático absoluto
certamente não acreditaria sequer que o Saddan Hussein foi derrotado,
afinal, são tomé que é, não o tocou com os dedos através das grades duma
prisão iraquiana. Muita gente mais paranóica que eu acha que o próprio Bush
atacou o WTC. É preciso confiar nas fontes, não é? E as novas nem sempre são
"boas novas", que é, aliás, a exata tradução de evangelho: a "boa notícia".
Depois de mil e um livros sagrados escritos por inspiração, algum maioral lá
de cima teria decidido usar um repórter anônimo, afinal, parece que só Maomé
é profeta. Os islâmicos não precisam se chatear com o Livro de
Urântia<http://www.urantia.org/>.
Nenhum profeta reivindicou sua autoria. São talvez apenas notícias que nos
alcançam dos confins do Cosmos. Eu não tenho mais medo de apostar nisso.
Você tem?... O quê? E se Lúcifer estiver certo e os Anciãos dos Dias forem
imperialistas cósmicos opressores?! E se a difusão desse livro fizer parte
de uma conspiração universal?!!... Entonces, amigo mío, estamos todos *
jodidos*!

*Yuri Vieira, 36 anos, paulistano, é escritor e cineasta.

**
Die Freude (Ode to Joy - Ode à Alegria)*

Ode à Alegria de Friedrich von Schiller, tradução do original, tal como se
canta na Nona Sinfonia de Ludwig Van Beethoven.

http://www.youtube.com/watch?v=dpv12HCBiaw

(Barítono)

Oh amigos, mudemos de tom!
Entoemos algo mais prazeroso
E mais alegre!

(Barítonos, quarteto e coro)

Alegre, formosa centelha divina,
Filha do Elíseo,
Ébrios de fogo entramos
Em teu santuário celeste!
Tua magia volta a unir
O que o costume rigorosamente dividiu.
Todos os homens se irmanam
Ali onde teu doce vôo se detém.
Quem já conseguiu o maior tesouro
De ser o amigo de um amigo,
Quem já conquistou uma mulher amável
Rejubile-se conosco!
Sim, mesmo se alguém conquistar apenas uma alma,
Uma única em todo o mundo.
Mas aquele que falhou nisso
Que fique chorando sozinho!
Alegria bebem todos os seres
No seio da Natureza:
Todos os bons, todos os maus,
Seguem seu rastro de rosas.
Ela nos deu beijos e vinho e
Um amigo leal até a morte;
Deu força para a vida aos mais humildes
E ao querubim que se ergue diante de Deus!

(Tenor solo e coro)

Alegremente, como seus sóis corram
Através do esplêndido espaço celeste
Se expressem, irmãos, em seus caminhos,
Alegremente como o herói diante da vitória.

(Coro)

Alegre, formosa centelha divina,
Filha do Elíseo,
Ébrios de fogo entramos
Em teu santuário celeste!
Abracem-se milhões!
Enviem este beijo para todo o mundo!
Irmãos, além do céu estrelado
Mora um Pai Amado.
Milhões se deprimem diante Dele?
Mundo, você percebe seu Criador?
Procure-o mais acima do céu estrelado!
Sobre as estrelas onde Ele mora.

--
____
http://karaloka.net
http://yurivieira.com
http://ogargantadefogo.org
http://youtube.com/karaloka


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