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As laranjas e o show
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De: Consciência.Net <pa...@consciencia.net>
Data: Thu, 8 Oct 2009 12:47:18 -0300
Local: Qui 8 out 2009 12:47
Assunto: As laranjas e o show

 As laranjas e o show

*Por Gilmar Mauro*

*
*

Na região de Capivari, interior de São Paulo, quando alguém exagera, tem uma
expressão que diz: "Pare de Show!"

É patético ver alguns senadores(as), deputados(as) e outros tantos
"ilustres" se revezarem nos microfones em defesa das laranjas da Cutrale.
Muitos destes, possivelmente, já foram beneficiados com os "sucos" da
empresa para suas campanhas, ou estão de olho para obter "vitaminas" no
próximo pleito. Mas nenhum deles levantou uma folha para denunciar o grande
grilo do complexo Monções. As laranjas, e não poderia ser planta melhor, são
a tentativa de justificar o grilo da Cutrale e de outras empresas daquela
região. Passar por cima das laranjas é passar por cima do grilo e da
corrupção que mantém esta situação há tanto tempo.

Não é a primeira vez que ocupamos este latifúndio. Eu mesmo ajudei a fazer a
primeira ocupação na região, em 1995, para denunciar o grilo e pedir ao
Estado providências na arrecadação das terras para a Reforma Agrária.
Passados quase 10 anos, algumas áreas foram arrecadadas e hoje são
assentamentos, mas a maioria das terras continua sob o domínio de grandes
grupos econômicos. E mais, a Cutrale instalou-se lá há 4 ou 5 anos, sabendo
que as terras eram griladas e, portanto, com claro interesse na
regularização das terras a seu favor. Para tanto, plantou laranjas! Aliás,
parece ter plantado um laranjal em parte do Congresso Nacional e nos meios
de comunicação. O que não é nenhuma novidade!

Durante a nossa marcha Campinas-São Paulo, realizada em agosto, um acidente
provocou a morte da companheira Maria Cícera, uma senhora que estava
acampada há 9 anos lutando para ter o seu pedaço de terra e morreu sem
tê-lo. Esta senhora estava acampada na região do grilo, mas nenhum dos
ilustres defensores das laranjas pediu a palavra para denunciar a situação.
Nenhum dos ilustres fez críticas para denunciar a inoperância do Executivo
ou Judiciário, em arrecadar as terras que são da União para resolver o
problema da Dona Cícera e das centenas de famílias que lutam por um pedaço
de terra naquela região, e das outras milhares de pessoas no país.

Poucos no Congresso Nacional levantam a voz para garantir que sejam
aplicadas as leis da Constituição que falam da Função Social da Terra:

a) Produzir na terra;
b) Respeitar a legislação ambiental e
c) Respeitar a legislação trabalhista.

Não preciso delongas para dizer que a Constituição de 1988 não foi cumprida.
E muitos falam de Estado Democrático de Direito! Para quem? Com certeza
estes vêem o artigo que defende a propriedade a qualquer custo. Este Estado
Democrático de Direito para alguns poucos é o Estado mantenedor da
propriedade, da concentração de terras e riquezas, de repressão e
criminalização para os movimentos sociais e para a maioria do povo.

Para aqueles que se sustentam na/da "pequena política", com microfones
disponíveis em rede nacional, e acreditam que a história terminou, de fato,
encontram nestes episódios a matéria prima para o gozo pessoal e, com isso,
só explicitam a sua pobreza subjetiva. E para eles, é certo, a história
terminou. Mas para a grande maioria, que acredita que a história continua,
que o melhor da história sequer começou, fazem da sua luta cotidiana espaço
de debate e construção de uma sociedade mais justa. Acreditam ser possível
dar função social à terra e a todos os recursos produzidos pela sociedade.
Lutam para termos uma agricultura que produza alimentos saudáveis em
benefício dos seres humanos sem devastação ambiental. Querem e, com certeza
terão, um mundo que planeje, sob outros paradigmas que não os do lucro e da
mercadoria, a utilização das terras e dos recursos naturais para que as
futuras gerações possam, melhor do que hoje, viver em harmonia com o meio
ambiente e sem os graves problemas socias.

A grande política exige grandes homens e mulheres, não os diminutos
políticos - não no sentido do porte físico - da atualidade; a grande
política exige grandes projetos e uma subjetividade rica - não no sentido
material - que permita planejar o futuro plantando as sementes aqui e agora.
Por mais otimista que sejamos, é pouco provável visualizar que "laranjas"
possam fazer isso. Aliás, é nas crises, é nos conflitos que se diferencia
homens de ratos, ou, laranjas de homens.

*
*

*Gilmar Mauro é integrante da coordenação nacional do MST. Texto em 7 de
outubro de 2009. [http://www.mst.org.br/node/8289]
*

--
g...@ufrj.br
@gb_ufrj


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