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Podemos conversar? A “indústria da paz” do Oriente Médio Por Faris Giacaman
(*) <http://www.consciencia.net/?author=65> em 27/08/2009
[image: boicote_israel]
Ao descobrirem que sou palestino, muitas pessoas que encontro na
universidade aqui nos Estados Unidos ficam ansiosas por informar-me de
várias atividades em que têm participado a fim de promover “coexistência” e
“diálogo” entre ambos os lados do “conflito”, sem dúvida à espera de um
aceno de aprovação da minha parte. Contudo, estes esforços são danosos e
minam o apelo da sociedade civil palestina em favor do boicote,
desinvestimento e sanções <http://www.bdsmovement.net/> a Israel – o único
meio de pressionar Israel a cessar as suas violações dos direitos dos
palestinos.
[image: By Latuff
2009]<http://fc04.deviantart.com/fs47/f/2009/211/7/f/Palestinian_state_prop...>
*Latuff 2009*
Quando eu frequentava o secundário, em Ramalá, uma das iniciativas
“pessoa-a-pessoa” mais conhecidas, a *Seeds of Peace*, muitas vezes visitava
a minha escola, pedindo aos estudantes para aderirem ao seu programa. Quase
todos os anos eles enviavam alguns dos meus colegas a um campo de Verão nos
EUA com um grupo de estudantes israelenses.
Segundo o sítio *web *de *Seeds of Peace*, ensinam-lhes no campo a
“desenvolver empatia, respeito e confiança bem como liderança, comunicação e
aptidões de negociação – componentes críticos que facilitarão a coexistência
pacífica da geração seguinte”. Eles pintam um quadro róseo e a maior parte
das pessoas na universidade fica muito surpreendida ao ouvir que penso serem
tais atividades equivocadas na melhor das hipóteses e imorais na pior. Por
que diabos eu era contra a “coexistência”, perguntavam-me sempre.
Durante os últimos anos tem havido apelos crescentes a por um fim à opressão
do povo palestino por Israel através de um movimento internacional de
boicote, desinvestimento e sanções (BDS). Uma das objeções comuns ao boicote
é que ele é contra-producente e que o “diálogo” e a “promoção da
coexistência” são muito mais construtivos do que boicotes.
A partir do início dos acordos de Oslo, em 1993, tem havido toda uma
indústria que opera no sentido de reunir israelenses e palestinos nestes
grupos de “diálogo”. A finalidade declarada de tais grupos é a criação de
entendimento entre “ambos os lados conflito”, a fim de “construir pontes” e
“ultrapassar barreiras”. Contudo, a suposição de que tais atividades
ajudarão a facilitar a paz não é não só incorrecta como realmente carente de
moral.
A presunção de que o diálogo é necessário a fim de alcançar a paz ignora
completamente o contexto histórico da situação na Palestina. Ela assume que
ambos os lados cometeram uma quantidade mais ou menos igual de atrocidades
um contra o outro e que são igualmente culpáveis pelos erros que foram
cometido. É assumido que nenhum lado está completamente certo ou
completamente errado, mas que ambos têm direitos legítimos que deveriam ser
tratados e certos pontos mortos que devem ser ultrapassados. Portanto, ambos
os lados devem ouvir o ponto de vista do “outro” a fim de promover o
entendimento e a comunicação, os quais presumivelmente levariam à
“coexistência” ou a “reconciliação”.
Tal abordagem é considerada “equilibrada” ou “moderada”, como se isto fosse
uma coisa boa. Contudo, a realidade no terreno é imensamente diferente do
que a visão “moderada” deste assim chamado “conflito”. Mesmo a palavra
“conflito” é enganosa, pois ela implica uma disputa entre duas partes
simétricas. A realidade não é assim; não se trata de um caso de simples
falta de entendimento ou de ódio mútuo que se atravessa no caminho da paz. O
contexto da situação em Israel/Palestina é de colonialismo, apartheid e
racismo, uma situação na qual há um opressor e um oprimido, um colonizador e
um colonizado.
[image: Attempts to establish "dialogue" while Israel continues to oppress
Palestinians only undermine the call for boycott. (ActiveStills)]
*Esforços para estabelecer "diálogo" enquanto Israel continua a oprimir os
palestinos apenas minam o chamado pelo boicote. (Attempts to establish
"dialogue" while Israel continues to oppress Palestinians only undermine the
call for boycott / ActiveStills/www.activestills.org)*
Em casos de colonialismo e apartheid, a história mostra que regimes
coloniais não abandonam o poder sem luta e resistência popular, ou pressão
internacional direta. É uma visão particularmente ingênua assumir que a
persuasão e a “conversação” convencerão um sistema opressor a renunciar ao
seu poder.
O regime do apartheid na África do Sul, por exemplo, foi finalizado após
anos de luta com a ajuda vital de uma campanha internacional de sanções,
desinvestimentos e boicotes. Se alguém houvesse sugerido aos oprimidos
sul-africanos que viviam nos bantustões a tentar e entender o ponto de vista
do outro (isto é, dos partidários da supremacia branca), as pessoas teria
rido de uma noção tão ridícula. Analogamente, durante a luta indiana pela
emancipação do domínio colonial britânico, Mahatma Gandhi não teria sido
venerado como um combatente pela justiça se houvesse renunciado à *
satyagraha* – “ater-se firmemente à verdade”, a sua expressão para o
movimento de resistência não violenta – e ao invés disso houvesse advogado
em favor do diálogo com os ocupantes colonialistas britânicos a fim de
entender o seu lado da história.
Entretanto, é verdade que alguns sul-africanos brancos tomaram posição de
solidariedade com os negros oprimidos e participaram na luta contra o
apartheid. E havia, certamente, alguns britânicos dissidentes das políticas
coloniais do seu governo. Mas aqueles apoiantes posicionaram-se
explicitamente ao lado dos oprimidos com o objetivo claro de acabar com a
opressão, de combater as injustiças perpetradas pelos seus governos e
representantes. Qualquer reunião conjunta de ambas as partes, portanto, só
pode ser moralmente sã quando os cidadãos do estado opressivo posicionam-se
em solidariedade aos membros do grupo oprimido, não sob a bandeira do
“diálogo” com o objetivo de “entender o outro lado da história”. O diálogo
só é aceitável quando efetuado a fim de entender o problema do oprimido, não
no contexto de “ouvir ambos os lados”.
Entretanto, tem sido argumentado pelos proponentes palestinos destes grupos
de diálogo que tais atividades podem ser utilizados como uma ferramenta –
não para promover o assim chamado “entendimento” – mas para realmente ganhar
israelenses para luta palestina pela justiça, persuadindo-os ou “tendo eles
de reconhecer a nossa humanidade”.
Contudo, esta concepção também é ingênua. Infelizmente, a maior parte dos
israelenses caiu vítima da propaganda com que o *establishment *sionista e
os seus muitos instrumentos os alimentam desde tenra idade. Além disso,
exigirá um esforço enorme e concertado contrariar esta propaganda através da
persuasão. A maior dos israelenses, por exemplo, não será convencida de que
o seu governo atingiu um nível de criminalidade que justifique um apelo ao
boicote. Mesmo que eles sejam convencidos logicamente das brutalidades da
opressão israelense, provavelmente não será o suficiente para levá-los a
qualquer forma de ação.
Isto tem-se provado reiteradamente verdadeiro, o que é evidente no fracasso
abjeto de tais grupos de diálogo para formarem qualquer movimento abrangente
anti-ocupação desde os seus primórdios com o processo de Oslo. Na realidade,
nada menos do que a pressão sustentada – não a persuasão – fará os
israelenses perceberem que os direitos dos palestinos têm de ser
retificados. Esta é a lógica do movimento BDS, o qual é inteiramente oposto
à falsa lógica do diálogo.
Com base num relatório não publicado de 2002 do *Israel/Palestine Center for
Research and Information*, o *San Francisco Chronicle* informou em outubro
último que “entre 1993 e 2000 [apenas], governos e fundações ocidentais
gastaram entre US$20 milhões e US$25 milhões nos grupos de diálogo”. Um
ulterior inquérito em grande escala a palestinos que participaram nos grupos
de diálogo revelou que esta grande despesa falhou em produzir “um único
ativista da paz em qualquer dos lados”. Isto confirma a crença entre
palestinos de que todo o empreendimento é um desperdício de tempo e de
dinheiro.
O inquérito também revelou que os participantes palestinos não eram
plenamente representativos da sua sociedade. Muitos participantes tendiam a
ser “filhos ou amigos de altos responsáveis palestinos ou das elites
econômicas. Apenas sete por cento dos participantes eram residentes em
campos de refugiados, muito embora eles constituam 16 por cento da população
palestina”. O inquérito também descobriu que 91 por cento dos participantes
palestinos já não mantinham laços com os israelenses com quem se
encontraram. Além disso, 93 por cento não foram abordados com atividade de
campo a seguir e apenas cinco por cento concordaram em que toda a
experiência ajudou a “promover paz, cultura e diálogo entre participantes”.
Apesar do inequívoco fracasso destes projetos de diálogo, continua a ser
investido dinheiro neles. Como explicou Omar Barghouti, um dos membros
fundados do movimento BDS na Palestina, em *The Electronic Intifada*, “houve
demasiadas tentativas de diálogo desde 1993 … tornou-se uma indústria –
chamamo-la a indústria da paz” (leia
aqui<http://electronicintifada.net/v2/article10562.shtml>
).
Isto pode ser atribuído parcialmente a dois fatores. O fator dominante é o
papel utilizável de tais projetos em relações públicas. O *Seeds of Peace*,
por exemplo, jacta-se da sua legitimidade apresentando um impressionante
conjunto de endossos por parte de políticos e autoridades tais como Hillary
Clinton, Bill Clinton, George Mitchell, Shimon Peres, George Bush, Colin
Powell e Tony Blair, dentre outros.
O segundo fator é a necessidade de certos “esquerdistas” e “liberais”
israelenses sentirem como se estivessem a fazer alguma coisa admirável ao
“questionarem-se”, quando na realidade eles não tomam nenhum posicionamento
significativo contra os crimes que o seu governo comete em seu nome. Os
políticos e os governos ocidentais continuam a financiar tais projetos,
promovendo dessa forma as suas imagens como apoiantes da “coexistência”, e
os “liberais” participantes israelenses podem isentar-se de qualquer culpa
pela participação no nobre ato de “promover a paz”. Um relacionamento
simbiótico, muito insatisfatório.
A falta de resultados de tais iniciativos não é surpreendente, pois os
objetivos declarados do diálogo e grupos de “coexistência” não incluem
convencer israelenses a ajudar palestinos a ganharem o respeito dos seus
direitos inalienáveis. A exigência mínima de reconhecer a natureza
inerentemente opressiva de Israel está ausente nestes grupos de diálogo. Ao
invés disso, estas organizações operam sob a dúbia suposição de que o
“conflito” é muito complexo e multifacetado, onde há “dois lados em toda
história” e que cada narrativa tem certas afirmações válidas assim como
dúbias.
Quando o apelo autorizado Campanha Palestina pelo Boicote Acadêmico e
Cultural de Israel faz o seu caminho, quaisquer atividades conjuntas
palestino-israelenses – quer sejam projeções de filmes ou campos de Verão –
pode ser aceitável só quando o seu objetivo declarado for finalizar,
protestar e/ou despertar a consciência quanto à opressão dos palestinos.
Qualquer israelense que procure interagir com palestinos, com o objetivo
claro de solidariedade e de ajudá-los a acabar com a opressão, será saudado
de braços abertos. Mas deve haver cautela, contudo, quando são feitos
convites para participar num diálogo entre “ambos os lados” do assim chamado
“conflito”. Qualquer apelo a um discursos “equilibrado” sobre esta questão –
onde o lema “há dois lados em toda história” é reverenciado quase
religiosamente – é intelectualmente e moralmente desonesto pois ignora o
fato de que, quando se trata de casos de colonialismo, apartheid e opressão
não tal coisa como “equilíbrio”. A sociedade opressora, de modo geral, não
renunciará aos seus privilégios sem pressão. É por isso que a campanha BDS é
um importante instrumento de mudança.
*(*) Faris Giacamané *estudante palestino da Cisjordânia, estudando no
segundo ano de uma universidade nos Estados Unidos. O original encontra-se
em http://electronicintifada.net/v2/article10722.shtml ; Este artigo também
foi publicado em 20/08/2009 em
http://resistir.info/<http://www.resistir.info/palestina/can_we_talk_p.html>;
Conheça o Global BDS Movement:
www.bdsmovement.net
Palavras-chave: boicote <http://www.consciencia.net/?tag=boicote>,
diálogo<http://www.consciencia.net/?tag=dialogo>,
guerra <http://www.consciencia.net/?tag=guerra>,
Israel<http://www.consciencia.net/?tag=israel>,
Oriente Médio <http://www.consciencia.net/?tag=oriente-medio>,
Palestina<http://www.consciencia.net/?tag=palestina>,
paz <http://www.consciencia.net/?tag=paz>
Texto publicado em 27/08/2009 às 16:46 na(s) seção(ões)
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