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DE NOVO, NA IDADE MÉDIA
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Sat, 11 Nov 2006 00:51:04 -0800 (PST)
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Date: Sat, 11 Nov 2006 00:51:02 -0800
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DE NOVO, NA IDADE M=C9DIA
Wanderlino Arruda
Voltando de Salvador, Wlad=EAnia traz-me, como presente do meu amigo
=C2ngelo Soares Neto, um bom volume de jornais da velha Bahia, com o que
eu posso passar a limpo um mund=E3o de assuntos que andavam em =F3rbita
no meu desejo de saber. Conhecendo-me muito, o =C2ngelo soube pin=E7ar na
imprensa baiana e nordestina muita coisa do nosso comum interesse, o
que muito me agradou e preencheu apertados minutos das poucas horas de
estudos di=E1rios nunca relegados na longa vida. Lembrei-me at=E9 dos
interessantes dias da d=E9cada de cinq=FCenta, quando o Haroldo L=EDvio e
eu nos encontr=E1vamos, todas as tardes, na Biblioteca P=FAblica, a ler
s=F4fregos minutos da hora do caf=E9 e, quando, embora ligeiros,
aprend=EDamos muito, principalmente literatura.
Pois bem, leitor, n=E3o posso desviar-me do tema proposto. O =C2ngelo e o
Haroldo L=EDvio teriam alguma coisa com a Idade M=E9dia, assunto que
escolhi para hoje? Falei neles s=F3 para puxar conversa e at=E9 que deu
certo, pois, pensando bem, eles t=EAm algo de medieval no jeit=E3o de ser
e at=E9 no de agir... E por que Idade M=E9dia? Somos ou n=E3o somos
cidad=E3os do quase s=E9culo vinte e um? Vivemos ou n=E3o vivemos o limiar
da nova era, quando o moderninho entra na ordem-do-dia, quando a
mocidade est=E1 querendo a qualquer custo sacudir a poeira de tudo que
aconteceu? =C9 o ser e o n=E3o ser. Eis a quest=E3o que acabo encontrando
nos jornais do =C2ngelo: o mundo est=E1 voltando para a Idade M=E9dia.
Est=E1!
Quem afirma que o mundo est=E1 assim, voltando como carangueijo, =E9 o
professor Cid Teixeira, em entrevista ao Jornal da Bahia.
O estado j=E1 n=E3o protege o homem e, por isso, estamos vivendo uma
=E9poca semifeudal, quando desaparece praticamente toda prote=E7=E3o ao
indiv=EDduo. O indiv=EDduo =E9 que protege a si pr=F3prio, girando
modernamente, em torno de si, substitutos do castelo, da armadura, do
escudo, do fosso... Muita lei, muito artefato legal, muita
estat=EDstica, um universo de siglas, um planejamento que planeja =E0s
avessas, uma seguran=E7a que em certos casos produz inseguran=E7a... O
indiv=EDduo ent=E3o passa a construir o muro alto, o condom=EDnio fechado,
distribui em torno de si o caco de vidro, esconde-se atr=E1s da
fechadura eletr=F4nica, contrata vigil=E2ncia particular, arma circuitos
de televis=E3o, p=F5e trancas e mais trancas em portas e janelas, pouco
sai de casa =E0 noite, nunca mais anda despreocupado. Rico ou pobre,
miser=E1vel total ou classe m=E9dia, o indiv=EDduo n=E3o mais confia na
prote=E7=E3o oficial, que parece se demitiu dessa tarefa.
Ao contr=E1rio do que sempre sonhamos com a moderniza=E7=E3o do mundo, da
lei de prote=E7=E3o aos direitos de cada um, do respeito =E0 privacidade,
da liberdade de a=E7=E3o e de pensamento, do imp=E9rio do bem e da
seguran=E7a, o Estado cria uma casta de tecnocratas insens=EDveis, cujo
desejo maior =E9 o de igualarem-se aos fara=F3s do Egito. No fundo, diz o
professor, todo tecnocrata gostaria de ser um sacerdote de Amom, um
detentor da ci=EAncia herm=E9tica, ter a decis=E3o do poder divino. Tendo
as chaves dos computadores, falando a linguagem cifrada do econom=EAs
s=F3 ao alcance deles mesmos, refrigerados e acarpetados nos gabinetes,
nas cadeiras de avi=F5es ou nas su=EDtes de hot=E9is de luxo, os
tecnocratas t=EAm conseguido dissolver at=E9 a identidade das pessoas,
criando uma multid=E3o de vassalos, amorfa e impotente.
Se continuarmos voltando, regredindo para tempos medievais, perdendo a
cada dia o poder de decis=E3o, breve seremos escravos e n=E3o apenas
meeiros de quem governa o que temos e o que fazemos. A tecnocracia
transforma-se nos muros de pedra dos castelos dos s=E9culos sem luz...
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