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MEMÓRIA: RODRIGO DE CEPEDA Y AHUMADA    

RODRIGO DE CEPEDA Y AHUMADA

 

 

RODRIGO DE CEPEDA Y AHUMADA é um personagem obscuro dos primórdios da exploração da região do Brasil Central. Sua história pessoal, porém, embora não explique totalmente as razões pelas quais muitos jovens aventuravam-se no novo mundo nas primeiras décadas do século XVI, é útil na busca dessa compreensão pela alta carga simbólica que contém.

 

 

 

Rodrigo era irmão de Santa Teresa de Ávila, também conhecida como Santa Tereza de Jesus, cuja história pessoal começa com um episódio emblemático e bem conhecido por seus devotos, o qual foi narrado por ela própria, em seu Libro de la Vida, da seguinte maneira:

 

«Eramos tres hermanas y nueve hermanos. Todos parecieron a sus padres –por la bondade de Dios- em ser virtuosos, si no fui yo, aunque era la más querida de mi padre. Y antes que comenzase a ofender a Dios, parece tenia alguna razón; porque yo he lastima cuando me acuerdo las buenas inclinaciones que el Señor me había dado y cuán mal me supe aprovechar de ellas.

 

Pues mis hermanos ninguna cosa me desayudaban a servir a Dios. Tenia uno casi de mi edad (juntábamonos entrambos a leer vidas de santos)¸ que era el que yo más queria, aunque a todos tenía gran amor y ellos a mi. Como veía los martírios que por Dios las santas pasaban, parecíame compraban muy barato el ir a gozar de Dios, y deseaba yo mucho morir así; no por amor que yo entendiese tenerle, sino por gozar tan em breve de los grandes bienes que leia haber em el cielo; y juntábame com este mi hermano a tratar qué médio habría para esto. Concertábamos irnos a tierra de moros, pidiendo por amor de Dios, para que allá nos descabezasen. Y paréceme que nos daba el Señor ánimo em tan tierna edad, si viéramos algún médio, sino que el tener padres nos parecia el mayor embarazo.» [1]

 

Santa Tereza e o irmão ao qual ela se refere em seu livro, cujo nome era RODRIGO, nascido em 1511, realmente tentaram ir para as terras dos mouros para serem descabeçados. Não tiveram sucesso porque, quando seguiam pela estrada em direção a Salamanca, a pouca distância da cidade de Ávila, um tio de ambos, de nome Francisco, surpreendeu-os e levou-os de volta aos pais.

 

Em setembro de 1535, quando contava com aproximadamente vinte e quatro anos de idade, RODRIGO partiu para a América do Sul em uma das muitas expedições que então se faziam para exploração do novo mundo. A morte almejada na infância, RODRIGO encontrou-a em uma batalha contra os índios PAIAGUÁS na região do Pantanal Mato-Grossense, proximidades de onde hoje se situa a cidade de Corumbá.

 

A data da partida de RODRIGO da Espanha em direção à América e as circunstâncias de sua morte dizem que ele fez parte da expedição de Juan de Ayolas, a qual, em 1536, entrou pelo Rio da Prata e seguiu pelo Rio Paraguai. O objetivo da expedição era encontrar “EL DORADO”, terra lendária de muitas riquezas, sendo que JUAN DE AYOLAS e seus homens teriam alcançado o Alto Peru [2]. Além disso, entre 1537 e 1538, Juan de Ayolas erigiu uma fortificação e instalou um porto ao qual deu o nome de LA CANDELÁRIA, cuja localização é normalmente situada na latitude 19ºS [3], o que parece bem razoável por ser o terreno propício, por possuir um porto natural e ser coincidente com a atual localização de CORUMBÁ.

 

Ocorre que os ÍNDIOS PAIAGUÁS, exímios canoeiros e senhores do Rio Paraguai, deram intenso combate à expedição de Juan de Ayolas. Foi em uma das batalhas então ocorridas entre os homens da expedição espanhola e os paiaguás que RODRIGO DE CEPEDA Y AHUMADA morreu [4]. Na verdade, concluídos os vários embates, todos os membros da expedição de Ayolas foram mortos.

 

Dizem que as caveiras dos espanhóis, inclusive a do chefe da expedição, foram espetadas em paus e findadas pelos índios em local visível para que outros brancos não tentassem invadir suas terras. Não é possível saber se o mesmo se deu com a caveira de RODRIGO, mas, se esse foi seu destino, ele o procurava desde a infância.

 

Será que RODRIGO para cá veio imbuído do “espírito de cavalaria” que, naquele tempo, dominava muitos corações e mentes? Terá ele atravessado o oceano para “submeter infiéis” à Lei de Deus, ainda que pela força da espada, movido pela fé religiosa cultivada na infância?

 

Os motivos de RODRIGO, porém, foram bem mais complexos.

 

A sociedade espanhola atravessava momentos difíceis e a maioria das pessoas, inclusive os fidalgos, não enxergava outro futuro que não fosse ligado à emigração ou às armas.  

 

Oscar Tobar Gómez, em seu Entre la Cruz y la Espada, lança mão desse quadro para explicar os motivos que levaram Rodrigo a atravessar o oceano.

 

«Los hermanos de Teresa, en efecto no tenían un porvenir muy lisonjero dentro de la nación. Los negocios de su padre antes prósperos, iban de mal en peor, ellos por su parte no mostraban aptitudes para restablecerlos y cada día la merma de la economía nacional hacia más difícil la vida de los hidalgos. El mismo Emperador había desdeñado varias veces sus privilegios y extendía sobre ellos las cargas del estado.

 

Por otra parte la política europea estaba cada día más enredada. Carlos V se había enzarzado con las guerras de Italia primero, después con los interminables conflictos que le creaban los protestantes, luego los turcos y finalmente los franceses.

 

Los sectarios se infiltraban por todas partes, en Francia provocaban disturbios, en Italia sembraban insidias, en España se esparcían entre las sombras como la cizaña. Esto ponía nerviosos a los buenos españoles, que veían cernerse el peligro sobre sus cabezas como un fantasma pavoroso.

 

Las costas africanas eran una inmensa guarida de piratas que acosaban incesantemente a la cristiandad. En 1.534 Jairedino Barbarroja se apoderaba de Túnez. El mismo Carlos V se puso al mando de la expedición para esa guerra santa, el 14 de julio de ese año vencida una feroz resistencia las tropas cristianas derrocaban el fuerte de La Goleta y el 21 entraban en Túnez, pasaban a cuchillo a sus defensores y libraban a 20.000 esclavos cristianos.

 

En Ávila se leían con delirante jubilo las cédulas reales en que la reina anunciaba los triunfos del emperador. Pero el peligro no había sido del todo eliminado, Barbarroja volvería a rehacerse y seguiría acosando a la cristiandad.

 

Los soldados españoles codo a codo con los herejes, llevaban una vida tan azarosa como ellos y en materia de fe danzaban al borde del precipicio. El cuerpo de los tercios españoles ya por estos años glorioso, era el terror de los pueblos y aun en España sus atrocidades fueron tales, que las voces se alzaron en las cortes pidiendo remedio.

 

La fama de los soldados españoles iba envuelta en lodos de bajeza. No tenían ideales caballerescos y se sublevaban con facilidad si no recibían a tiempo la soldada, con sus rapiñas y libertinaje hacían odioso el nombre de España en todas partes.

 

Los hidalgos castellanos que antaño cifraran su gloria en blandir la espada acaudillando los ejércitos del rey, desdeñaban ahora esta chusma entre la cual sus privilegios se ajaban sin remedio. Sus ojos volvianse con preferencia hacia otros horizontes allende los mares. Las nuevas que llegaban de los conquistadores de Indias corrían por castilla como una leyenda. Los caballeros se sentían dominados por la fiebre de partir, luchar, vencer y dilatar los dominios de la cruz.»

 

A interpretação é razoável e é ordinariamente se apresentada para explicar o engajamento de jovens como Rodrigo nessas empreitadas. A outra explicação, também razoável, encontra-se na necessidade de fugir às perseguições da Santa Inquisição aos cristãos novos [5] e, ao mesmo tempo em que se buscava fazer fortuna, comprovar ser um cristão sincero e devotado à expansão da fé católica [6].   

 

 

OS PAIAGUÁS

 

«Podem montanhas de água vir abaixo, tempestades cair até cansar, que o payaguá, de pé na extremidade de sua embarcação, continuará a remar completamente impávido».
                                             Martin Dobrizhoffer

Padre Jesuíta

 

 

 

Os paiaguás viviam no Pantanal quando portugueses e espanhóis lá chegaram. Índios canoeiros, os paiaguás dominavam os rios da região e eram grandes guerreiros. Travaram muitas e ferrenhas batalhas contra os invasores de suas terras. Lutaram contra o domínio europeu até a completa extinção de sua nação. Resistiram por dois séculos, acossados por guerras e epidemias [7].

  


[1] LIBRO DE LA VIDA, de Santa Tereza de Jesus – Ed. Espiritualidad, 4ª ed, pgs.5/6.

[2] É provável que tenham chegado no território que hoje pertence à Bolívia.

[3] Alguns a situam na latitude 21ºS.

[4] Alguns historiadores dizem que Rodrigo morreu combatendo os Índios Araucanos, de modo que não teria conseguido voltar à La Candelária, atual Corumbá. Não há, nas fontes que consultei, consenso a esse respeito.

[5] Santa Tereza e Rodrigo descendiam de judeus convertidos. .

[6] Que se confundia com a expansão do próprio Império.

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1 mensagem sobre esta página
4 dez 2009 por Vilela
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