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A Arte da Devoção
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Giridhari Das  
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 Mais opções 15 jun, 09:31
De: "Giridhari Das" <g...@pandavas.org.br>
Data: Mon, 15 Jun 2009 09:31:44 -0300
Local: Seg 15 jun 2009 09:31
Assunto: A Arte da Devoção

Originalmente publicado em Back to Godhead [Volta ao Supremo], revista
fundada por Sua Divina Graça Srila Prabhupada no ano de 1944

Artigo referente à edição do bimestre de novembro/dezembro de 2008

A Arte da Devoção

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The Art of Devotion

por Indulekha Devi Dasi

Na tradição artística da Índia, tradição esta baseada na herança espiritual
do país, uma devota de Krsna encontra inspiração para suas práticas
espirituais.

“Eu adoro aquela morada transcendental conhecida como Svetadvipa . . . onde
toda palavra é uma canção, todo passo é uma dança, e a flauta é a
companheira favorita”. (Sri Brahma-samhita 5.56)

Qual é o propósito da arte? Na faculdade de Artes, aprendi que se trata de
um modo de expressar algo sobre si mesmo, algo original. Válido, mas qual é
o ponto de tudo isso? Qual deveria ser a razão de uma obra de arte, de uma
dança, de uma música? Para muitos, é a criação em si, ou mesmo o desejo pela
fama decorrente de se fazer algo jamais criado antes.

Tendo sido apresentada à Consciência de Krsna por uma amiga na escola,
deixei a faculdade com essa questão queimando em meu coração. Eu li os
livros de Prabhupada, mas passei mais tempo me absorvendo na beleza das
obras de arte a retratarem os passatempos de Deus em toda a sua variedade.
Quase que imediatamente, comecei a trabalhar na produção de detalhadas
ilustrações do Senhor Krsna e de Seus passatempos em Vrndavana. Descartei
muitas de tais ao longo dos anos, mas elas serviram como base para idéias
posteriores.

Permaneci no asrama por algum tempo e então parti para a Índia, onde a
beleza da dança e da música clássicas tomou os meus sentidos. Às vezes, eu
ouvia fios melódicos das mais doces músicas vindo da casa ou do jardim de
alguém, e eu frequentemente permanecia em um lugar até memorizar a melodia.
Outras vezes, eu via dançarinos com seus longos olhos negros, rostos ricos
em expressões, pés poderosos e elegantes e sonorizados por dúzias de
sininhos. Decidi que me tornaria uma artista de Deus, de Krsna, e esta seria
a minha causa, a razão para ser artista.

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Pouco eu compreendia até então sobre quão profundamente os antigos sábios da
Índia haviam pesquisado sobre música, dança e arte. A Índia tradicional tem
uma forma maravilhosa de descobrir a essência espiritual de qualquer aspecto
de nossa experiência humana e de criar poderosas manifestações artísticas
como conseqüência. Uma história antiga conta-nos sobre o sábio Bharata,
autor do Natya Sastra, o mais antigo tratado indiano referente a artes
performáticas. Brahma, o engenheiro do universo, deu o Natya Sastra a
Bharata, que, juntamente com grupos de Gandharvas e Apsaras – musicistas e
dançarinas celestiais – realizou uma apresentação diante do Senhor Siva. Ao
ver a estonteante apresentação, o Senhor Siva lembrou-se de sua própria
dança majestosa, a tandava-nritya, e ele e sua consorte, Parvati, ensinaram
Bharata a arte da dança, a qual foi posteriormente trazida à Terra.

Dança

Pessoas espiritualistas às vezes vêem a dança como narcisista. É possível
dançar para o Senhor sem deslizar para o desejo de obter fama e adulação? Eu
acredito que sim, mas isso deve ser feito na forma de sadhana, ou prática
espiritual.

Em 1933, comecei o treinamento na dança Bharata Natyam com Guru Prakash
Yadagudde, professor residente da Bharatiya Vidya Bhavan, uma organização
com centros na Índia e no Reino Unido com o fim de promover as artes
culturais indianas. Juntamente com esse treinamento, estudei música
karnática (sul-indiana) para melhor compreender como a dança e a música são
tecidas juntas. Descobri que eu tinha aptidão para o canto, algo do que eu
era apenas um pouco ciente antes. Pouco tempo depois, eu havia me diplomado
em canto e estava até mesmo lecionando.

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O treino para Bharata Natyam é árduo e requer compromisso para que seja
exitoso, mas me cativei por sua profundidade espiritual e pela beleza
requintada dos movimentos. Em seu livro Bharata Natyam, Sunil Kothari
descreve a dança belamente: “Trata-se de um dos estilos de dança artística
mais sutil, sofisticado e gracioso do mundo. Flores se abrem nas mãos da
dançarina, e passarinhos voam a partir das pontas dos dedos; o corpo se
move, agora orgulhoso, agora devocional... Tal dança dramática, realizada
por meio do veículo do corpo de acordo com as mais delicadas nuanças
musicais ou poéticas, é certamente uma arte irrivalizável”.

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Como uma devota de Krsna, aprendi que bhakti é a yoga da ação, um modo de se
canalizar a própria ocupação no serviço ao Senhor Krsna simplesmente
ocupando-se em um humor devocional. Como dançarina, descobri que isso é
verdade. Passada a austeridade inicial do aprendizado de uma forma de
auto-expressão alheia à minha cultura nativa, aprendi a retratar os
passatempos de Sri Krsna com Suas características travessuras, disposição
brincalhona e sofisticada inteligência. Passei horas em frente ao espelho
tentando emular Krsna e Seus devotos tão naturalmente quanto possível.

A famosa dançarina Rukmini Devi Arundale disse: “Um artista verdadeiramente
espiritual é aquele que esquece de si e que, nesse auto-esquecimento, atinge
a bem-aventurança chamada ananda”. Deve-se adicionar aqui que
auto-esquecimento indica que o dançarino ou a dançarina se permite tornar-se
um recipiente através do qual uma deidade é canalizada. Qualquer um que
tenha visto grandes dançarinos compreenderão que a fama deles não é produto
de sua técnica física, visto que existem muitos dançarinos tecnicamente
perfeitos, mas que é produto da maneira com que sua retratação da divindade
pode fazer com que uma apresentação de duas horas pareça durar dois minutos.
Há algo estonteante acerca de um dançarino que aparece no palco vestido de
vermelho e assumindo a personalidade de um violento semideus, e então entra
novamente em cena como a afável mãe do Senhor Rama, Kaushalya. Nossas
emoções acompanham as transformações, e nos absorvemos nos pensamentos e nas
emoções relacionadas ao Senhor e a Seus servos.

Música

Minha jornada pela música vem-se revelando a experiência mais
espiritualmente transformadora de minha vida. Três anos atrás, comecei a me
graduar em um bacharelado em música norte-indiana/sikh com o professor
Surinder Singh, o diretor de uma organização chamada Raj Academy, um grupo
sediado em Londres com foco nos aspectos curativos da música indiana. A
música tradicional indiana é baseada em algo chamado raga, um conceito com
muitas camadas de significado. No nível mais básico, raga é uma escala
musical de cinco a sete svaras, ou notas, ascendentes e descendentes. Há
milhares de ragas, muitas delas possuidoras dos mesmos svaras. O que faz a
diferença é que, a cada escala, é dada personalidade e rasa, ou humor,
colocando-se diferentes ênfases em certas notas e relacionando-as umas com
as outras de vários modos. Uma raga, portanto, é uma expressão de profunda
emoção em toda a sua complexidade. Ragas podem ser espirituais ou mundanas,
dependendo de sua musicologia ou da maneira com que foram arranjadas.

Certa vez vi alguém que exemplificou o que significa devotar a própria vida
ao sadhana da arte como devoção. Pandit Ram Narayan é conhecido por muitos
como o maestro de sarangi da Índia. Sarangi é um instrumento que se acredita
ter sido criado por Ravana, o demônio de dez cabeças do Ramayana e um hábil
musicista. A palavra sarangi significa “todas as cores”, indicando que o
instrumento é capaz de capturar todas as emoções, tanto mundanas como
espirituais. Panditji explicou à audiência que a deidade está
verdadeiramente presente na raga. Ele então tocou a raga Sri, a
personificação de Parvati, a consorte do Senhor Siva. Ao término da
apresentação de Panditji, o silêncio tomou a sala, uma vez que a audiência,
em primeira instância, estava estupefata demais para aplaudir. A presença da
deusa era inegável.

A ciência indiana da música está quase perdida nos dias atuais, até mesmo
para os musicistas indianos; dentre os quais, a maior parte considera o que
é dito nos textos antigos como mitologia. Um dos mais famosos musicólogos do
período Védico foi Narada, que muitos acreditam ser o Narada Muni dos
passatempos de Krsna. Em seu Naradiya Siksa, o sábio delineia ragas e suas
relações com humores, cores, planetas, cakras e outros fatores esotéricos
fundamentalmente conectados ao som e à manifestação do mesmo no mundo. Seu
texto é particularmente o primeiro a escrever sobre o que é conhecido como
srutis, ou os sons que existem entre as doze notas comumente usadas. Ragas
são tocadas ou cantadas com ênfase alta ou baixa dos srutis. Embora, para a
pessoa comum, essas minúsculas mudanças de som sejam imperceptíveis, elas
são percebidas sutilmente e podem mudar nossa disposição e nossos
sentimentos. O uso consciente dos srutis e as características notas em
glissando das ragas é o que tornar a música indiana obviamente diferente da
música ocidental.

Muitos de nossos Vaisnavas Gaudiyas predecessores eram musicistas peritos e
com extenso conhecimento de raga, métrica poética e taal, ou ritmos
específicos. Jayadeva Gosvami, em seu Gita Govinda, nomeia as ragas que
acompanham cada poema e explica seu aparecimento e sua personalidade.
Candidasa, um poeta adorado por Sri Caitanya Mahaprabhu, escreveu seu Sri
Krsna Kirtana em diferentes ragas, assim como o fizeram Govinda Dasa e
Vidyapati em seus tratados. Embora nosso foco deva sempre ser no santo nome
e não em nossa competência musical, acredito que só temos a ganhar com a
compreensão do efeito das ragas musicais e com a aplicação deste
conhecimento em nossos bhajanas e kirtanas.

Arte

Alguém que dança ocupa o corpo a serviço do senhor; alguém que canta, os
ouvidos e a voz. Para o pintor, os olhos estão absortos na beleza da forma
de Deus, que Se manifesta do coração para a tela. Horas se transformam em
instantes à medida que a forma de Sri Krsna aparece: Seus olhos inquietos,
Sua pele azul como uma nuvem de chuva, Seus encaracolados cabelos negros.
Uma canção de Bhaktivinoda Thakura diz: “Ó filho de Nanda, permita-me
adorá-lO com a lamparina de meus olhos”.

Como uma artista espiritual, criei o Nataki [www.nataki.co.uk], um website
dedicado à propagação da dança, da música e da obra de arte espiritual. A
palavra nataki significa artista mulher, uma dançarina geralmente. Na Índia
antiga, isto quase sempre implicaria uma carreira devocional como uma
artista de templo. Criei o Nataki em razão da minha profunda crença de que
toda cura, toda devoção e todo avanço espiritual pode ser obtido por meio da
posição de artista. Embora eu ainda seja estudante, espero que o meu website
encoraje outros a compreenderem, como eu compreendi, a profundidade, a
beleza e a devoção inerentemente presentes nas formas artísticas
tradicionais da Índia. A antiga Índia transformou toda possível faceta da
vida em arte. De fato, esta talvez seja a contribuição mais marcante da
literatura Védica. Todos nós buscamos uma maneira de ocupar nossos sentidos
em algo que tenha significado absoluto para a nossa alma.

Tradução de Bhagavan dasa (DvS) – Outros artigos da revista Volta ao Supremo
disponíveis em www.devocionais.xpg.com.br

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