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A Sobreexcelência de Bhakti-devi - Parte 1
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Giridhari Das  
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De: "Giridhari Das" <g...@pandavas.org.br>
Data: Sat, 30 Jan 2010 22:06:48 -0200
Local: Sab 30 jan 2010 22:06
Assunto: A Sobreexcelência de Bhakti-devi - Parte 1

A Sobreexcelência de Bhakti-devi

Do Madhurya Kadambini, de Srila Visvanatha Cakravarti Thakura

Parte 1 de 3

Após oferecer suas reverências ao Senhor Caitanya Mahaprabhu, o inaugurador
do movimento de Sankirtana, e a Srila Rupa Gosvami, Seu servo mais
confidencial, Visvanatha Cakravarti efetivamente inicia seu discurso em
glorificação a Bhakti-devi.

A Suprema Personalidade de Deus e o Brahman

O Sruti, ou Veda, oferece irrefutáveis evidências a estabelecerem a Verdade
Absoluta. O Taittiriya Upanisad (2.5.2) declara que o Brahman é o suporte e
o estai (brahma-puccham pratistha) daquele que é a corporificação de
ilimitada e absoluta bem-aventurança (param-anandamaya-purusa), a existência
deste sendo dependente do Brahman. A partir desta declaração, o Sruti
concede preeminência para o Brahman; em um verso posterior (2.7.2),
entretanto, o Taittiriya Upanisad declara que o Senhor Supremo é o
reservatório de rasa, ou amor extático (raso vai sah), e que, com o alcance
de tal reservatório de prazer extático, que é o Senhor Supremo, mesmo aquele
Brahman que corporifica brahmananda é submerso em sublime felicidade
(rasam-hy eva-ayam labdhanandi bhavati). Esta declaração afirma claramente
que a Suprema Personalidade de Deus é superior a tudo, inclusive ao Brahman.
Destarte, aquele que é definido como o reservatório de prazer extático,
rasa-svarupa, é descrito no Srimad-Bhagavatam – a melhor das escrituras e a
essência de todas elas – como Krsna, o filho de Maharaja Nanda, a
corporificação da rasa.

O Srimad-Bhagavatam 10.43.17 declara, mallanam asanir nrnam nara-varah
strinam smaro murtiman: “Os lutadores viram o Senhor Krsna como um trovão;
os homens de Mathura, como o melhor dos homens; as mulheres, como o Cupido
em pessoa”. Esta afirmação deixa claro que o desenvolvimento gradual da
felicidade espiritual depende inteiramente de rasa e do nível de sua
intimidade. O próprio Senhor Supremo declara no Bhagavad-gita (14.27),
brahmano hi pratisthaham: “Eu sou a base do Brahman impessoal”. O Senhor
Supremo descreve-Se desta maneira a fim de revelar Sua posição real. As
escrituras Védicas, portanto, tanto o Sruti quanto o Smrti, apontam que
Krsna, o filho de Maharaja Nanda, é o Senhor Supremo, situado eternamente em
bondade pura.

Bhakti-devi É tão Auto-Manifesta e Independente quanto o Senhor

Krsna é o primordial Senhor Supremo, que Se manifesta através de Seus nomes,
formas, qualidades e passatempos, independente de quaisquer causas ou
condições. Krsna revela-Se, por Sua própria vontade, de tal modo que as
almas espirituais, ou jivas, possam experienciá-lO com seus sentidos, mente
e inteligência.

Assim como é mediante Seu desejo independente que o Senhor Supremo aparece
como o Senhor Krsna na dinastia Yadu, ou como o Senhor Ramacandra na
dinastia Raghu; é também mediante Seu desejo pessoal que Ele Se revela às
jivas, as quais O percebem através de seus sentidos – em outras palavras, é
pelo desejo e pela graça do que Senhor Supremo que as jivas podem obtê-lO.
Dado não haver diferença entre a energia e o princípio energético – neste
caso, entre bhakti-devi e o Senhor –, bhakti-devi não precisa de nenhuma
causa ou condição para manifestar-se, senão que aparece em qualquer lugar de
sua escolha. No Srimad-Bhagavatam 1.2.6, portanto, a devoção amorosa é
descrita como sendo livre de qualquer causa ou motivação (ahaituki), o que
advoga em favor da tese de que bhakti não conhece impedimentos oriundos de
fonte alguma no que diz respeito à sua liberdade de aparecer para os
sentidos das jivas quando quer que queira. O uso do termo apratihata no
verso citado, cujo significado é “ininterrupta”, indica que nada é mais
prazeroso do que bhakti, outra razão a impossibilitar que seja estorvada.

O Outorgamento da Devoção Pura

No Srimad-Bhagavatam (11.20.8), declara-se, yadrcchaya mat-kathadau jata
sraddhas tu yah puman: “De uma maneira ou de outra, alguém, por boa fortuna,
desenvolve fé no ouvir sobre Mim”. Neste verso, bhakti é descrita pela
palavra yadrcchaya, ou “volição própria”. Novamente, no comentário de
Sridhara Svami a este verso, ele escreve que bhakti é livre para agir como
queira. O significado dicionarístico para a palavra yadrcchaya é “espontâneo
e independente”. Algumas pessoas interpretam o significado de yadrcchaya –
palavra esta que também aparece no Srimad-Bhagavatam 11.20.11, mad-bhaktim
va yadrcchaya – como “uma espécie de ventura ou boa fortuna”. Tal
explicação, entretanto, é defeituosa, e sua falácia é exposta com o
questionamento da origem dessa boa fortuna. Por exemplo, essa fortuna é
oriunda de atividades piedosas? Se aceitarmos que a ventura ou boa fortuna
resultante de atividades piedosas produz bhakti, isso torna bhakti
subserviente às atividades piedosas, o que é inaceitável, haja vista que
isso infringe o princípio já estabelecido da natureza de bhakti como
auto-manifesta e independente. Caso se aceite que essa ventura ou boa
fortuna não é produto de atividades piedosas, admite-se que a mesma é
caprichosa, imprevisível e, portanto, imperfeita. Como uma coisa imperfeita
pode produzir algo perfeito?

Se alguém propuser que a causa de bhakti é a misericórdia do Senhor, então
esse proponente terá que buscar uma razão para essa misericórdia. Essa
declaração, por conseguinte; suscitando a necessidade de outra explicação
que exigirá uma fastidiosa pesquisa, é inconclusiva em si mesma. Alguém
talvez qualificasse melhor essa afirmação dizendo que a causa de bhakti é a
misericórdia sem causa (nirupadhi) do Senhor. Se essa misericórdia é sem
causa, então é necessário que se observe que ela é igualmente outorgada em
todo lugar. Uma vez que não se observa que ela se recai sobre todos, isso
implicaria a existência do defeito da parcialidade no Senhor. A misericórdia
sem causa do Senhor, portanto, não pode ser aceita como a causa de bhakti.

Alguém talvez questione que o Senhor, de qualquer maneira, pune os demônios
e protege Seus devotos – isso não é parcialidade? Este tipo de parcialidade
que o Senhor demonstrar para com Seus devotos, porém, não implica um defeito
no Senhor, senão que é um embelezamento em Seu caráter. Esta obrigação
afetuosa do Senhor para com Seus devotos, que será detalhadamente discutida
no capítulo oito, chama-se bhakta-vatsalya, e é o rei todo-poderoso a
subjugar todas as demais qualidades do Senhor.

Com a proposição da misericórdia sem causa do devoto como a causa da devoção
em outra pessoa, alguém talvez objete que a misericórdia do devoto, assim
como a misericórdia do Senhor, pode ser parcial. Considerando o caso do
madhyama-bhakta, é sabido que ele exibe sim parcialidade ou discriminação em
seu ato de distribuir misericórdia. O Srimad-Bhagavatam (11.2.46) afirma:

isvare tad-adhinesu  balisesu dvisatsu ca

prema-maitri-krpopesa  yah karoti sa madhyamah

“O devoto intermediário ou de segunda classe, chamado madhyama-adhikari,
oferece seu amor à Suprema Personalidade de Deus, é um amigo sincero de
todos os devotos do Senhor, mostra misericórdia para com as pessoas
ignorantes que são inocentes, e negligencia aqueles que têm inveja da
Suprema Personalidade de Deus”.

Em outras palavras, essa parcialidade é aceita como a característica natural
do madhyama-bhakta. Visto que o Senhor é subserviente ao Seu devoto, Ele
deixa Sua misericórdia seguir a misericórdia de Seu devoto – e não há
irregularidade nisso. Não obstante, a causa dessa misericórdia a
manifestar-se no devoto é a próprio bhakti residindo no coração dele, haja
vista que a única causa que atrai a misericórdia do Senhor é a bhakti que
reside permanentemente no coração do devoto puro. Assim, sem o devoto ter
bhakti, não há possibilidade dele mostrar misericórdia para com outros ou
antes ter a misericórdia de Krsna para si mesmo. Bhakti causa a misericórdia
do devoto, que causa bhakti em outra pessoa. Bhakti causa bhakti. A natureza
sem causa, independente e automanifesta de bhakti está, portanto,
estabelecida.

O Senhor Supremo é Subserviente aos Seus Devotos Puros

A palavra ati-bhagya (extrema boa fortuna) no verso yah kenapyati-bhagyena
jatasraddho'sya sevane, “aquele que se ocupa em serviço devocional com firme
fé devido à boa fortuna extrema”, ganha um significado novo e mais profundo.
Não mais se entende essa boa fortuna extrema como resultante de atividades
piedosas pretéritas, mas como uma boa fortuna extrema decorrente da
compaixão dos devotos puros.

Aqui, alguém talvez apresente o contra-argumento de que os devotos estão
sempre sob o controle do Senhor, o que impossibilita que a misericórdia do
devoto apareça primeiro, de maneira independente, e não como seguinte à
compaixão sem causa do Senhor. Krsna pessoalmente soluciona este impasse
declarando de modo muito aberto que Ele é voluntariamente subserviente ao
Seu devoto puro, e concede preeminência à posição do devoto dando-lhe o
poder de outorgar a própria misericórdia do Senhor.

Continua...

Tradução de Bhagavan dasa (DvS) – Outras traduções disponíveis em
<http://www.devocionais.xpg.com.br/> www.devocionais.xpg.com.br


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