Originalmente publicado em Back to Godhead [Volta ao Supremo], revista
fundada por Sua Divina Graça Srila Prabhupada no ano de 1944
Artigo referente à edição do bimestre de julho/agosto de 2008
Retiro de Japa: A Cura Perfeita para o Auto-Negligenciamento
Japa Retreat: The Perfect Cure for Self-Neglect
por Karuna Dharini Devi Dasi
Devotos dedicam algum tempo longe de suas rotinas habituais e se focam na
prática essencial do canto individual dos santos nomes.
Imagine-se de férias, longe das distrações de casa e do trabalho. Ar fresco,
densas florestas e montanhas altas e azuis ao seu redor, e você tem a chance
de estar com professores experientes para explorar o grandioso benefício
espiritual do cantar do maha-mantra Hare Krsna.
Quando o despertador toca, você não é obrigado a se levantar para outro dia
de trabalho; ao invés disso, você se levanta para ouvir um corrente rio de
néctar partindo das bocas dos devotos que dedicam suas vidas ao doce cantar
de Hare Krsna, Hare Krsna, Krsna Krsna, Hare Hare/ Hare Rama, Hare Rama,
Rama Rama, Hare Hare. Por meio do cantar, de discussões, exercícios
interativos, agradáveis práticas em grupo e muitas trocas afetuosas entre os
devotos, você é gentilmente conduzido em direção à perfeição do cantar.
Permitir-se deste modo é autocomplacência? Não. Nossas autoridades
espirituais recomendam o ouvir e o cantar dos nomes de Krsna como o serviço
mais importante que um devoto pode fazer. Cantar é a melhor maneira de
meditar no Senhor e de sentir Sua presença. O maha-mantra é uma oração:
“Senhor Krsna, por favor, ocupai-me em Vosso serviço devocional”. Contudo,
nossas atarefadas vidas frequentemente negam-nos o tempo e a atmosfera
apropriada de que precisamos para diminuirmos o ritmo e prestarmos atenção.
Todos precisam parar um pouco, ou tirar férias, de vez em quando, mas os
devotos tendem a exigir mais do que a locação de um carro e a estadia em
hotéis. Até mesmo uma viagem a lugares sagrados da Índia pode ser repleta de
distrações. O Retiro de Japa, agora sendo conduzido por devotos da ISKCON em
várias partes do mundo, oferece a oportunidade de se descansar e de se
desenvolver a prática espiritual em uma localização bela e rodeada por
montanhas, ou uma localização próxima ao mar, ou ainda em um local sagrado
da Índia.
Retirando-se do Auto-Negligenciamento
Para aqueles que, como eu, cantam há anos e, ao mesmo tempo, mantêm hábitos
lamentáveis, o Retiro de Japa é um modo de se presentear com um generoso
gole do néctar dos santos nomes. Eu me peguei pensando: “Ah! Agora me lembro
por que me tornei Hare Krsna!”.
O Retiro de Japa de que participei foi organizado pela agência da Bhagavat
Life, uma organização prestadora de serviço criada por Purusa Sukta Dasa e
Divyamabara Devi Dasi. (Adi Purusa Dasa, do VIHE, em Vrndavanda, também
conduz retiros de japa). O desejo deles de organizar Retiros de Japa (este
descrito neste artigo é o quinto nos Estados Unidos) vem da inspiração de
Sua Santidade Sacinandana Svami. Tendo experienciado muitos insights acerca
do cantar, Sacinandana Svami sugeriu a realização de retiros para o canto a
fim revitalizar os devotos que gostariam de “retomar nossa verdadeira
ocupação”.
No retiro que participei, Sacinandana Svami disse: “Nosso problema é que não
desejamos entrar na luta da vida interna da boa japa [o cantar individual].
Mas, sem nos ocuparmos nesse empenho, sem considerarmos a japa como
essencial para o nosso serviço a Krsna, outros serviços tendem a fracassar.
À medida que avaliarem este retiro ao longo das semanas que o seguirão,
vocês irão entender que vocês receberam muito mais do que esperavam para
auxiliá-los rumo à meta do cantar efetivo”.
Recursos para um Melhor Cantar
Um de nossos professores no retiro foi Mahatma Dasa, de quem me lembro de
San Diego como um treinador de novos devotos altamente qualificado. Ele
pediu que déssemos uma nota de um a dez para a nossa japa, de horrenda a
perfeita. Muitos de nós tivemos de nos pontuar como quatro ou cinco, níveis
estes que ele disse significarem atentos o suficiente para permanecer
boiando no néctar dos santos nomes. Estávamos cantando bem o bastante para
permanecermos devotos do Senhor. Se a japa nota cinco podia nos dar isso
tudo; como seria, então, se aumentássemos para um seis, ou, quem sabe, até
mesmo um oito? Estaríamos prontos para a liberdade de toda a ansiedade
material e para o serviço devocional puro resultante do doce e intenso
cantar da japa?
Mahatma falou sobre vários recursos para a obtenção de um melhor
relacionamento com os santos nomes, incluindo estar em um espaço sagrado e
escrever textos de reflexões introspectivos.
O Espaço Sagrado e a Redação Devocional
Ele primeiramente descreveu como todo exitoso recitador do santo nome
precisa de “um espaço sagrado”. Para onde você vai quando começa a cantar?
Devemos estar onde possamos dar as boas-vindas ao maha-mantra assim como
daríamos a um convidado muitíssimo importante, com toda a atenção e
respeito.
Alguns locais nos ajudam a ouvir o nome de Krsna, e outros não. Um templo,
por exemplo, ou uma sala de templo na própria casa ou um jardim silencioso
podem ser livres de distração. A sala de TV provavelmente não será.
Espaço sagrado tem muito a ver com programação. É difícil cantar em meio às
atividades domésticas; programe sua japa, portanto, para um momento com o
mínimo de distrações. As escrituras recomendam as primeiras horas da manhã,
antes do sol nascer, como um momento especialmente tranqüilo. Se você puder
cantar sob essa recomendação, isso também será de grande utilidade.
Talvez mais intrínseco é o espaço sagrado entre a própria boca e os próprios
ouvidos, o caminho que o santo nome percorre. Menor do que um jardim ou uma
sala, trata-se de uma rota direta para a própria alma. Nesse espaço sagrado,
pode acontecer o derretimento do coração quando tentarmos ouvir o som de
modo sério e humilde.
Outro recurso útil é escrever respostas a questões relevantes: Como o santo
nome influenciou a minha vida? Como sou grato ao santo nome? Em que aspecto
preciso aprimorar minha relação com o nome?
Um Mantra de Cada Vez
Narayani Devi Dasi, uma discípula de Prabhupada que serve nos templos de Sua
Divina Graça na Índia já há muitos anos, apresentou-nos muitas reflexões
úteis sobre o cantar do santo nome. Seu lema é “um mantra de cada vez”.
Após tentar repetidamente cantar com sinceridade um mantra de cada vez, eu
me perguntei: será possível que eu canto voltas completas com 108 mantras
sem ouvir sequer um deles? Será que regularmente permito que minha mente
sabote a minha prática? Ela nos instou a apenas tentarmos ouvir atentamente
um mantra de cada vez e tentarmos estar no presente. Cantamos juntos em
uníssono. Como uma criança aprendendo a ler, senti-me recompensado pelo
esforço.
Narayani conduziu-nos em uma análise da oração Siksastaka de Sri Caitanya
Mahaprabhu. Cada um dos oito versos representa uma qualidade essencial do
praticante do cantar: gratidão, lamentação, humildade, gosto, dependência,
ânsia pela perfeição devocional, sentimento de separação e rendição
completa. Fomos solicitados, então, a pensarmos em exemplos escriturais de
grandes devotos que demonstraram essas várias qualidades.
Narayani orientou-nos em um exercício no qual ela pediu que visualizássemos
nossa Deidade ou ilustração favorita de Krsna, e, juntos, cantássemos uma
volta dedicada a Ele. Cantamos Seus nomes para Ele, cantando tão atentamente
quanto possível. A meditação foi venturosa, visto que o foco era oferecer o
som dos nomes para o prazer do santo nome – o Senhor supremamente belo de
nossos corações.
Hatha Yoga?
Devotos adeptos à hatha-yoga explicaram como nosso aspecto fisiológico afeta
o psicológico. Nossos movimentos e nossa conduta durante o dia tendem a
dispersar a nossa energia; podemos, no entanto, canalizar essa energia para
uma japa atenta. A fim de fazer isso, uma mente alerta e consciente deve
preceder o cantar. Praticamos alguns exercícios e técnicas respiratórias
antes do cantar. Os exercícios enfatizavam sentarmos com a coluna ereta, e a
cabeça e o pescoço em uma boa posição para se cantar.
Uma respiração inapropriada durante o cantar da japa faz com que percamos o
ritmo e bocejemos ou fiquemos com falta de ar. A prática de técnicas de
pranayamas pode ser de boa valia.
Você Está Pronto para o Grande Choque de Sua Vida?
Yajna Purusa Dasa, um dos instrutores, disse-nos que ele canta sessenta e
quatro voltas dos santos nomes de Krsna em suas contas toda segunda-feira
para ajudá-lo a lidar com as demandas exigidas dele como presidente de
templo. Uma das características do retiro era nós mesmos cantarmos sessenta
e quatro voltas; ouvimos, então, o que ele tinha a dizer, sabendo que o
nosso sucesso dependia disso. Ele descreveu como a mente está sempre ocupada
em duas atividades: aceitar e rejeitar.
“Esse aceitar e rejeitar segue a fim de aplacar o ego. Em um humor de
entrega do falso ego aos pés de lótus do Senhor, devemos dar à mente tola e
patifa uma simples instrução: ‘Apenas tente ouvir um mantra’. E se você
realmente conseguir ouvir um mantra, então se glorifique. E, não se esqueça,
você está um passo mais próximo de se encontrar com Krsna, a Suprema
Personalidade de Deus”.
“Você está pronto para se encontrar com Krsna? Você está pronto para o
grande choque de sua vida? Quão doce e maravilhoso será! Se você realmente
ouvir um mantra, isso será tão prazeroso que você não será capaz de esperar
para ouvir e cantar o próximo!”.
“Se você der à patifa da mente a chance de ouvir os nomes de Krsna, ela
dirá: ‘Nossa! O que foi isso?’. Por fim, chegaremos ao ponto em que o santo
nome irá nos abraçar. Krsna irá nos agarrar e assumirá a direção. Tendo
compreendido isso, talvez tenhamos que admitir que a japa talvez seja o
aspecto mais negligenciado de nossa relação com Krsna”.
Mauna-vrata e o Cantar de Sessenta e Quatro Voltas
Com a chegada do terceiro dia de retiro, já havíamos ouvido os nossos
professores e trabalhado bem um com os outros, compartilhando nossos
pensamentos e desafios ao longo de vários exercícios. Havíamos desfrutado de
muitos rios sagrados de aprazíveis bhajanas realizados por Bada Haridasa e
pela banda Retiro de Japa. Havíamos nos entregado a uma apresentação de
slides – um verdadeiro banquete de Krsna para os olhos – organizada por
Dravida Dasa, apresentação esta que incluía a recitação de orações
escriturais muitíssimo doces, as quais ele traduzira de forma poética.
Havíamos desfrutado de conhecer muitos novos amigos devotos e havíamos
comido até a nossa plena satisfação a krsna-prasadam de primeira classe
amorosamente cozinhada por Apurva Dasa e por sua esposa, Kamalini.
Sentíamo-nos bem por estarmos juntos como um grupo de esperançosos
recitadores do santo nome. Estávamos tão prontos quanto poderíamos estar
para o próximo seguimento do programa.
Juntos, todos os vinte e cinco que éramos, aceitamos um voto de completo
silêncio (mauna-vrata) e começamos a cantar Hare Krsna, Hare Krsna, Krsna
Krsna, Hare Hare/ Hare Rama, Hare Rama, Rama Rama, Hare Hare. Sentamo-nos em
um círculo ao redor de uma bela plantinha de Tulasi em um vaso ornamental
dourado. Cantamos lentamente em uníssono boa parte das primeiras voltas: uma
sílaba de cada vez, um santo nome de cada vez, um mantra de cada vez. Não
queríamos perder nada.
Repetidamente, fracassei em ouvir. Senti vontade de chorar. Por que tanto
páthos se o nome é tão sublime? Por que a presença de fracasso após tantas
instruções positivas?
Bem, a mente gosta de um drama, e a repetição aparentemente interminável de
dezesseis palavras não parece algo muito dramático. Contudo, rejeitando
decididamente as distrativas temáticas que a mente velha, patifa e tola
gosta de oferecer, devemos continuar trazendo a nossa atenção de volta ao
som, chamando pelo nome muito humilde e submissamente.
Srila Prabhupada escreve: “O santo nome do Senhor possui tal poderosa
potência. Mas há uma qualidade para sua recitação também. Ela depende da
qualidade do sentimento. Um homem desamparado pode proferir o santo nome do
Senhor com grande sentimento, enquanto que um homem que profere o santo nome
do Senhor em grande satisfação material não pode ser muito sincero”.
(Srimad-Bhagavatam 1.8.26, Significado)
Rechacei minha mente com toda a força proveniente daquilo que eu havia
aprendido durante o retiro, embora esse esforço tenha me levado a chorar.
Entretanto, eu finalmente me lembrei de algo de que há muito me esquecera: O
nome de Krsna é muitíssimo querido a mim. Quando cheguei a trigésima segunda
volta próximo do meio-dia, sentia-me tão conectada e feliz que não me
distraí com o almoço. Compreendi que eu não cantava apropriadamente há muito
tempo, mas, agora, tornei-me fascinada pelo santo nome.
Reflexões
O dia seguinte ao dia do cantar de sessenta e quatro voltas foi dedicado a
identificarmos o que havíamos acabado de aprender com aquilo. Os devotos se
revezaram descrevendo os “picos e vales” de sua experiência extrema de um
dia inteiro com o santo nome.
Um jovem Vaisnava, Anapayini, disse: “Quando eu estava cantando e tinha
algum sentimento da presença de Krsna, eu entendia que Krsna sempre esteve
ali. Ele nunca me deixa. Sou eu quem O deixa”.
“Para mim”, disse a discípula de Prabhupada, Mahamaya Dasi, “o resultado
dessa concentração no santo nome é que, finalmente, após trinta e seis anos
de japa mecânica, eu tenho algum desejo e alguma habilidade de me focar na
audição de minha japa. Que grande diferença faz uma japa atenta! Isso era
exatamente o que eu precisava para realmente fazer a diferença em meu cantar
e ouvir”.
Cerimônia Sankalpa
Outro excelente recurso que nos foi dado foi criarmos uma “intenção interna”
para o nosso cantar. Sem uma intenção desenvolvida em nossos corações, é
menos provável o acontecimento de japa-yoga. Como uma última cerimônia do
retiro, escrevemos nossa intenção interna a Sri Sri Gaura-Nitai. Foi uma
carta fácil de se escrever, porque era baseada em todas as notas e
exercícios e realizações dos quatro dias. Não seria possível que nos
faltassem inspirações para escrevermos.
Tradução de Bhagavan dasa (DvS) – Outros artigos disponíveis em
www.devocionais.xpg.com.br