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Um príncipe na Parada Gay de São Paulo    

Coluna de Irineu Ramos - http://www.mercosol.com.br/m_exibe.php?uid=5208&seccao

 

Um príncipe na Parada Gay de São Paulo
 O indiano Mavendra Singh Gohil tornou-se celebridade mundial após assumir sua sexualidade
 
Ele é um nobre pertencente à dinastia Gohil, que tem cerca de 600 anos. Vive em Rajpipla, distrito de Gujarat, um dos mais ricos estados da Índia, num palácio vitoriano cor-de-rosa. Seu nome é Manvendra Singh Raghubir Singh Sahib Gohil, ou apenas Pink Prince, como gosta de ser chamado. Tornou-se celebridade mundial depois de aparecer no programa Oprah Winfrey Show, em outubro de 2007, ocasião que assumiu a homossexualidade.
 
Gohil chegou ao Brasil na quinta-feira, 11 de junho, para uma série de homenagens, entre as quais a inauguração da sede do Casarão Brasil, uma organização social sem fins lucrativos fundada em 2008 com o intuito de inovar a atuação social em favor da cidadania de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais. A entidade, presidida pelo empresário Douglas Dumont, começa com o apoio de 263 instituições (ONGs) que atuam com o público LGBTTT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais, Travestis e Trangêneros), 80 empresários do setor e 1500 pessoas físicas cadastradas pela Internet.
 
O príncipe (vuvaraj) nasceu em 23 de Setembro de 1965 e é herdeiro do marajá (grande rei) Shri Raghubir Rajendrasinghji Sahib e da maharani (grande rainha) Rukmani Devi Sahiba. Semelhante a outras famílias reais que governavam os seus domínios durante o Império Britânico, a Gohil aceitou integrar-se na União Indiana, após a independência em 1947. Em 1968, a República da Índia invalidou os títulos de nobreza. Esta medida, porém, não eliminou os poderes e privilégios dos nobres indianos.
 
Manvendra é membro da ONG Lakshya Trust, de defesa da população homossexual portadora do vírus HIV na cidade de Gujarat. Pretende proteger a comunidade gay abrindo o primeiro asilo para idosos homossexuais da Índia.
 
Ao chegar ao Brasil, em meio a uma agenda apertada de solenidades e entrevistas para jornais e programas como Fantástico, Jô, Serginho Groisman, Luciana Gimenez, entre outros, o príncipe concedeu uma entrevista exclusiva para este jornalista. Confira: 

Irineu: O senhor passou a ser reconhecido mundialmente depois da entrevista no programa Oprah Winfrey Show em outubro de 2007. O que mudou na sua vida a partir de então?

 

Gohil: Ir ao Oprah Winfrey Show foi, decididamente, uma das coisas mais interessantes que eu já fiz na vida. Como diz sua pergunta, as pessoas passaram a me reconhecer no mundo todo. É bom saber que a honestidade ainda é valorizada no mundo. 

Irineu: O que é mais difícil numa sociedade conservadora como a indiana: ser gay ou ser príncipe?

 

Gohil: Eu acho que o difícil é ser um príncipe gay. Ninguém pode opinar sobre o que nunca experimentou ou vivenciou. Além do mais, mesmo sendo um príncipe não é um trabalho fácil para quem anseia pela independência da mente e do corpo. 

Irineu: Como é sua relação com seus pais depois da visibilidade que o programa da Ophah proporcionou e, conseqüentemente, para sua família?

 

Gohil: Não mudou muito no que diz respeito ao relacionamento com minha família, exceto pela negação e oposição inicial - o que eu já havia previsto. Eu espero que nosso relacionamento melhore com o tempo. 

Irineu: A visibilidade conquistada pelo seu posicionamento sexual contribui de alguma forma para reduzir o preconceito na Índia?

 

Gohil: Com certeza. O status de celebridade vem com muita responsabilidade. Estou contente porque até agora eu fiz o melhor que pude para destruir qualquer tipo de preconceito e discriminação à comunidade queer, ou seja, àqueles que permitem viver sua sexualidade com consciência e liberdade. 

Irineu: Entre seus projetos está o de criar uma rede de asilos para gays idosos na Índia. É verdadeira essa informação? Como surgiu essa idéia e como pretende viabilizar isso?

 

Gohil: Sim, a informação está correta. Eu vou construir um asilo para a comunidade de gays idosos. Estará aberta para pessoas do mundo todo. Eu tenho visto muita repressão e opressão a gays da minha idade ou mais velhos. Eu achei uma boa idéia ter um lugar para que eles pudessem viver os últimos anos de suas vidas com liberdade para expressar suas emoções, sem ter que se preocupar sobre como seriam vistos pela sociedade. 

Irineu: No ano passado o senhor abriu a Euro Pride Gay Festival, em Estocolmo (Suécia). O senhor acha que convites como este têm a função de “tirar do armário” muitos personagens da nobreza mundial?

 

Gohil: Com certeza, eu acho que isso deveria ser um exemplo para outros gays, distintos na sociedade, sair do armário por respeito à verdade em suas vidas. Afinal, todos temos que reverenciar a verdade em nós mesmos. 

Irineu: No Brasil, apesar de toda visibilidade que manifestações como a Parada Gay de São Paulo tem, com cerca de 3 milhões de participantes, ainda há muito preconceito e discriminação. Pessoas homofóbicas matam gays. O senhor tem conhecimento dessas ocorrências? Como vê o mundo gay brasileiro?

 

Gohil: Eu acabei de ler na Internet que, em 2008, 190 homossexuais foram mortos no Brasil. Um a cada dois dias, representando 55% de aumento em relação ao ano anterior e isto foi chamado de “homocausto” pelos ativistas dos direitos dos gays. O Relatório Anual de Assassinatos a Homossexuais, produzido pelo Grupo Gay da Bahia (GGB), diz que 64% das vítimas eram homens gays, 32% eram travestis e 4% eram lésbicas. Eu acho essa imagem medonha. Tenho certeza de que o governo está fazendo o que pode, mas parece (se os números estão corretos) que nós precisamos fazer muito. O mundo dos gays brasileiros parece ter, como qualquer outro, seus próprios problemas e se alegrar pelas próprias vitórias, mas o que eu acho único nisso é a aparente força dos ativistas gays por todo o país. Meus parabéns a eles. 

Irineu: Em qual país o senhor vive atualmente? Como se mantém?

 

Gohil: Estou vivendo na Índia. Eu me sustento com minha vermicultura (tratamento biológico e orgânico do lixo). Eu também dirijo uma ONG chamada Lakshaya Trust. Ela trabalha para a saúde sexual dos homens.   

Irineu: O senhor já esteve na América do Sul?

 

Gohil: Não, é a primeira vez que eu visito a América do Sul. 

Irineu: Qual o melhor caminho para combater o preconceito e a homofobia no mundo?

 

Gohil: Eu gostaria de dar uma solução de uma linha para isso: remover a ignorância e trazer consciência. Custe o que custar... veja o meu caso. 

Irineu: O senhor teria alguma mensagem especial aos gays brasileiros?

 

Gohil: Em primeiro lugar, eu gostaria de agradecê-los, do fundo do meu coração, por terem me convidado. Eu sou grato pelo respeito dedicado a mim. Eu também gostaria de parabenizar todos esses brasileiros que lutaram não só pelos seus direitos, mas pelos direitos de outros também. Eu gostaria que cada brasileiro soubesse o quanto eu respeito o seu zelo pelos Direitos Humanos. Eu tenho certeza de que se eles continuarem sua revolução com o mesmo espírito positivo vão alcançar o que almejam o que eu acredito não ser muito diferente dos nossos sonhos na Índia: Liberdade, Respeito e Amor. 

Irineu: Qual o país mais receptivo aos gays, segundo sua opinião?

 

Gohil: Eu estou muito feliz com o Canadá, Bélgica, Espanha, Alemanha e muitos outros países europeus, além de alguns estados dos Estados Unidos. Mas, vou dizer novamente, eu vou ser realmente feliz quando meu próprio país reconhecer nossa distinta existência. 

Irineu: Bem-vindo a São Paulo!

 

Gohil: Muito obrigado!

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1 mensagem sobre esta página
18 jun 2009 por Paulo Tessarioli
Prezad@, confiram a coluna do Irineu Ramos.

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