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Alemães e Ong brasileira    

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Matéria de quinta-feira, 24 de maio de 2007
Grupo alemão e ONG unidos pela vida  
Na microbacia do córrego Taquara Branca, à beira de um reservatório de abastecimento de água — a Represa do Horto —, no Assentamento 1 de Sumaré, um projeto piloto une a capacitação de jovens carentes com a recuperação da mata ciliar. Sob a coordenação da organização não-governamental (ONG) Sociedade Humana Despertar e apoio do Grupo Bayer, o projeto está no quarto ano de atuação e tem obtido resultados.

Com o nome de “Os Pioneiros, Projeto de Biodiversidade”, o trabalho já conseguiu recuperar 12 hectares dos 120 da área total da microbacia e plantar mais de 24 mil mudas nativas regionais. E mais: desde 2005, a iniciativa ganhou a parceria da multinacional Bayer CropScience (a divisão de alimentação do grupo alemão, que atua mundialmente nos campos da saúde, agricultura e polímeros). Ou seja, sendo ampliado na sua sua essência de preservação.

O projeto nasceu da parceria entre o Laboratório de Ecologia e Restauração Florestal da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” (Esalq-USP) e a Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo. O objetivo principal é a capacitação de jovens carentes para a recuperação de áreas degradadas.

A iniciativa “junta os filhos de pequenos produtores com os filhos da cidade para disseminar consciência”, define o coordenador de campo Fábio Augusto Barbosa. Cada 5 hectares de plantio e manutenção envolvem recursos da ordem de R$ 100 mil, diz Barbosa.

“Com a profissionalização desses jovens haverá possibilidades de contratação em empresas com atuação em projetos ambientais”, explica o professor titular do departamento de Ciências Biológicas da Esalq-USP, Ricardo Ribeiro Rodrigues. O Assentamento 1 foi o escolhido, de acordo com o professor, pela própria história da reforma agrária do local, por ser uma área agrícola e pela proximidade com a área urbana. “Se der certo ali, dará em outros lugares”, diz Rodrigues.

A ONG Sociedade Humana Despertar existe há 11 anos, sendo que desde 1995 atua em Sumaré. É a responsável pela indicação dos jovens, com idades entre 16 a 21 anos. e pela administração dos recursos financeiros. Cada jovem, geralmente em situação de vulnerabilidade social, recebe um salário mínimo. Um mesmo grupo tem condições de trabalhar em mais de uma área verde, avalia o coordenador administrativo/financeiro da ONG, César Lobato. Eles chegam às 8h e ficam até as 12h. O grupo é formado por dez jovens: seis são do assentamento e quatro da cidade.

E o trabalho é realizado num ambiente profícuo em descoberta ambiental. Um diagnóstico da microbacia feito por três biólogas, contratadas pelo Grupo Bayer, durante seis meses, registrou 110 espécies de aves, sendo 80% de pouso de árvores. Entre os pássaros encontrados estão o pica-pau-branco, tiziu, alma-de-gato, asa-branca, frango d’água azul, joão de barro.

Entre as árvores nativas plantadas estão peroba, ipê, paineira, cedro, ingá, grumixama, uvaia, pitomba, pitanga e araçá. Com o replantio, os corredores ecológicos serão espalhados, com contribuição para a fauna em geral, ilustra o professor. “O plantio em uma área degradada leva quase dois anos para que se perceba as diferenças. O resultado só depois de uma década”, completa Barbosa. Mas, para a comunidade local e os jovens envolvidos, a realidade não precisa de tanto tempo. Já é real.

PARTICIPE

As sugestões de pauta podem ser enviadas para luciene.dressano@rac.com.br, encaminhadas à redação do Correio Popular, à Rua 7 de Setembro,189, Vila Industrial, ou pelo telefone (19) 3772-8175.


Famílias têm uma história de 14 anos de pioneirismo
O Assentamento Rural 1, em Sumaré, é pioneiro na região e foi implantado em 1983 pela Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, numa área de 237 hectares do antigo Horto Florestal da Boa Vista, pertencente na época à Ferrovias Paulista S.A. (Fepasa). No início, 53 famílias das 620 acampadas que esperavam por um lote foram assentadas. Depois, com a criação da segunda etapa, a área foi ampliada para 400 hectares e um total de 72 famílias fixou alicerces no campo. Cada uma com direito a sete hectares de terra. Hoje há três áreas de assentamento, com 534 hectares no total. São 65 famílias com titularidade de posse e mais 135 compostas de agregados (filhos que foram se casando e ficando).

Os moradores são membros de famílias que decidiram voltar para a terra quando as fábricas e as cidades começaram a dispensar trabalhadores na crise dos anos 80. Os grupos de famílias efetuam as compras e vendas coletivamente e o trabalho da terra fica por conta do esforço de cada grupo. São lotes pequenos e a localização privilegiada de acesso a mercados consumidores é outro fator de sucesso para uma experiência de reforma agrária, considerada por ser estruturada e organizada na agricultura familiar. Sumaré está inserida no cinturão industrial de Campinas e foi uma das cidades que mais cresceram em todo o País, no final da década de 90, em termos populacionais.

SAIBA MAIS

 O Grupo Bayer, fundado em 1863, atua no setor químico-farmacêutico, e oferece produtos e serviços na área da saúde (humana e animal), agricultura, polímeros e químicos. Possui atividades nos cinco continentes. No Brasil, iniciou suas operações em 1896, no Rio de Janeiro.
E-mail: www.bayer.com.br
 ONG Sociedade Humana Despertar – Rua Luiza Rodrigues da Silva, 15, Planalto do Sol, Sumaré. Os telefones são: (19) 3873-9081/3873-9015.
E-mail: www.shd.org.br


Produção no assentamento é de limão, mandioca e banana
No Assentamento 1 estão 26 famílias na produção de banana, mandioca e limão, basicamente. Segundo o coordenador de campo Fábio Augusto Barbosa, metade dos produtores adotaram a técnica orgânica e a outra metade segue a produção tradicional, com o uso de adubos químicos. Para ele, nos últimos 5 anos uma consciência mais natural ganha espaço: “Os gastos são menores na produção orgânica, a produção é a mesma e o meio ambiente acaba preservado. São hábitos de vida e estamos todos aprendendo”, explica.

Fábio Augusto Barbosa é um dos exemplos de produtor. É o mais velho de três irmãos. Está no assentamento desde 1984. Trabalhou em cerâmica e parou de estudar. Sua volta para o campo foi para “recuperar o tempo perdido”: fez supletivo para concluir o Ensino Fundamental e conseguiu formação técnica ambiental aos 25 anos. Hoje, aos 29 anos, coordena o grupo de jovens no projeto “Os Pioneiros” e agora estimula os jovens a estudar.

Outras opiniões são convergentes. Para Diego Barbosa, que nasceu no assentamento, em dois anos participando do projeto se sente realizado: “Ver as árvores crescerem foi muito bom, isso aqui era um descampado”.

Já Roberto Santos, morador do Cruzeiro/Sumaré, “recuperar a mata atrai porque protege o rio e. logo, quem usa da sua água. É bom participar disso.” Como o coordenador de campo, Roberto quer ser técnico ambiental e, depois, cursar Engenharia Ambiental.

Outro exemplo é Marcos Roberto, morador do bairro Rosa e Silva, na divisa com Nova Odessa. Ele está no terceiro ano do ensino médio e quer ser biólogo. “No início, confesso, a bolsa (o salário mínimo) foi o que me chamou. Não tinha contato com a natureza. Mas aqui despertou a minha vontade e passei a observar os contrastes de onde eu moro com uma mata. Lá é um deserto de árvores”, sentencia Marcos Roberto.

Há necessidade de 2 bilhões de mudas para recompor SP
Em São Paulo restam cerca de 3,3 milhões de hectares cobertos por vegetação nativa ou 13,4% do Estado. Muitos ecossistemas encontram-se extremamente fragmentados e degradados e, dentre eles, uma das situações mais precárias é a das matas ciliares, cujo déficit estimado supera um milhão de hectares. Recompor este total significa plantar mais de 2 bilhões de mudas, segundo informações do Instituto Brasileiro de Produção Sustentável e Direito Ambiental (IBPS).

Matas ciliares ou ripárias (aquelas que crescem nas margens dos cursos d’água) são extremamente importantes para conter a erosão (e assim manter as águas livres de sedimentos); garantir alguma estabilidade da temperatura da água (através do sombreamento); barrar pragas e doenças agrícolas; além de também fornecer abrigo, alimento e, claro, água para as mais diversas espécies.

Matas ciliares também são corredores, fundamentais à conexão de remanescentes de vegetação nativa, facilitando o trânsito de animais e a troca de material genético, sem a qual não se garante a renovação natural e a diversidade genética da flora ou fauna.


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