Na microbacia do córrego
Taquara Branca, à beira de um reservatório de abastecimento de água — a Represa
do Horto —, no Assentamento 1 de Sumaré, um projeto piloto une a capacitação de
jovens carentes com a recuperação da mata ciliar. Sob a coordenação da
organização não-governamental (ONG) Sociedade Humana Despertar e apoio do Grupo
Bayer, o projeto está no quarto ano de atuação e tem obtido
resultados.
Com o nome de “Os Pioneiros, Projeto de Biodiversidade”, o
trabalho já conseguiu recuperar 12 hectares dos 120 da área total da microbacia
e plantar mais de 24 mil mudas nativas regionais. E mais: desde 2005, a
iniciativa ganhou a parceria da multinacional Bayer CropScience (a divisão de
alimentação do grupo alemão, que atua mundialmente nos campos da saúde,
agricultura e polímeros). Ou seja, sendo ampliado na sua sua essência de
preservação.
O projeto nasceu da parceria entre o Laboratório de Ecologia
e Restauração Florestal da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”
(Esalq-USP) e a Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo. O objetivo
principal é a capacitação de jovens carentes para a recuperação de áreas
degradadas.
A iniciativa “junta os filhos de pequenos produtores com os
filhos da cidade para disseminar consciência”, define o coordenador de campo
Fábio Augusto Barbosa. Cada 5 hectares de plantio e manutenção envolvem recursos
da ordem de R$ 100 mil, diz Barbosa.
“Com a profissionalização desses
jovens haverá possibilidades de contratação em empresas com atuação em projetos
ambientais”, explica o professor titular do departamento de Ciências Biológicas
da Esalq-USP, Ricardo Ribeiro Rodrigues. O Assentamento 1 foi o escolhido, de
acordo com o professor, pela própria história da reforma agrária do local, por
ser uma área agrícola e pela proximidade com a área urbana. “Se der certo ali,
dará em outros lugares”, diz Rodrigues.
A ONG Sociedade Humana Despertar
existe há 11 anos, sendo que desde 1995 atua em Sumaré. É a responsável pela
indicação dos jovens, com idades entre 16 a 21 anos. e pela administração dos
recursos financeiros. Cada jovem, geralmente em situação de vulnerabilidade
social, recebe um salário mínimo. Um mesmo grupo tem condições de trabalhar em
mais de uma área verde, avalia o coordenador administrativo/financeiro da ONG,
César Lobato. Eles chegam às 8h e ficam até as 12h. O grupo é formado por dez
jovens: seis são do assentamento e quatro da cidade.
E o trabalho é
realizado num ambiente profícuo em descoberta ambiental. Um diagnóstico da
microbacia feito por três biólogas, contratadas pelo Grupo Bayer, durante seis
meses, registrou 110 espécies de aves, sendo 80% de pouso de árvores. Entre os
pássaros encontrados estão o pica-pau-branco, tiziu, alma-de-gato, asa-branca,
frango d’água azul, joão de barro.
Entre as árvores nativas plantadas
estão peroba, ipê, paineira, cedro, ingá, grumixama, uvaia, pitomba, pitanga e
araçá. Com o replantio, os corredores ecológicos serão espalhados, com
contribuição para a fauna em geral, ilustra o professor. “O plantio em uma área
degradada leva quase dois anos para que se perceba as diferenças. O resultado só
depois de uma década”, completa Barbosa. Mas, para a comunidade local e os
jovens envolvidos, a realidade não precisa de tanto tempo. Já é real.
| PARTICIPE |
| As
sugestões de pauta podem ser enviadas para luciene.dressano@rac.com.br,
encaminhadas à redação do Correio Popular, à Rua 7 de Setembro,189, Vila
Industrial, ou pelo telefone (19)
3772-8175. |
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Famílias têm uma
história de 14 anos de pioneirismo O Assentamento Rural 1, em Sumaré, é
pioneiro na região e foi implantado em 1983 pela Secretaria de Agricultura e
Abastecimento do Estado de São Paulo, numa área de 237 hectares do antigo Horto
Florestal da Boa Vista, pertencente na época à Ferrovias Paulista S.A. (Fepasa).
No início, 53 famílias das 620 acampadas que esperavam por um lote foram
assentadas. Depois, com a criação da segunda etapa, a área foi ampliada para 400
hectares e um total de 72 famílias fixou alicerces no campo. Cada uma com
direito a sete hectares de terra. Hoje há três áreas de assentamento, com 534
hectares no total. São 65 famílias com titularidade de posse e mais 135
compostas de agregados (filhos que foram se casando e ficando).
Os
moradores são membros de famílias que decidiram voltar para a terra quando as
fábricas e as cidades começaram a dispensar trabalhadores na crise dos anos 80.
Os grupos de famílias efetuam as compras e vendas coletivamente e o trabalho da
terra fica por conta do esforço de cada grupo. São lotes pequenos e a
localização privilegiada de acesso a mercados consumidores é outro fator de
sucesso para uma experiência de reforma agrária, considerada por ser estruturada
e organizada na agricultura familiar. Sumaré está inserida no cinturão
industrial de Campinas e foi uma das cidades que mais cresceram em todo o País,
no final da década de 90, em termos populacionais.
| SAIBA
MAIS |
| O Grupo
Bayer, fundado em 1863, atua no setor químico-farmacêutico, e oferece produtos e
serviços na área da saúde (humana e animal), agricultura, polímeros e químicos.
Possui atividades nos cinco continentes. No Brasil, iniciou suas operações em
1896, no Rio de Janeiro. E-mail: www.bayer.com.br ONG Sociedade Humana
Despertar – Rua Luiza Rodrigues da Silva, 15, Planalto do Sol, Sumaré. Os
telefones são: (19) 3873-9081/3873-9015. E-mail:
www.shd.org.br
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Produção
no assentamento é de limão, mandioca e banana No Assentamento 1 estão 26
famílias na produção de banana, mandioca e limão, basicamente. Segundo o
coordenador de campo Fábio Augusto Barbosa, metade dos produtores adotaram a
técnica orgânica e a outra metade segue a produção tradicional, com o uso de
adubos químicos. Para ele, nos últimos 5 anos uma consciência mais natural ganha
espaço: “Os gastos são menores na produção orgânica, a produção é a mesma e o
meio ambiente acaba preservado. São hábitos de vida e estamos todos aprendendo”,
explica.
Fábio Augusto Barbosa é um dos exemplos de produtor. É o mais
velho de três irmãos. Está no assentamento desde 1984. Trabalhou em cerâmica e
parou de estudar. Sua volta para o campo foi para “recuperar o tempo perdido”:
fez supletivo para concluir o Ensino Fundamental e conseguiu formação técnica
ambiental aos 25 anos. Hoje, aos 29 anos, coordena o grupo de jovens no projeto
“Os Pioneiros” e agora estimula os jovens a estudar.
Outras opiniões são
convergentes. Para Diego Barbosa, que nasceu no assentamento, em dois anos
participando do projeto se sente realizado: “Ver as árvores crescerem foi muito
bom, isso aqui era um descampado”.
Já Roberto Santos, morador do
Cruzeiro/Sumaré, “recuperar a mata atrai porque protege o rio e. logo, quem usa
da sua água. É bom participar disso.” Como o coordenador de campo, Roberto quer
ser técnico ambiental e, depois, cursar Engenharia Ambiental.
Outro
exemplo é Marcos Roberto, morador do bairro Rosa e Silva, na divisa com Nova
Odessa. Ele está no terceiro ano do ensino médio e quer ser biólogo. “No início,
confesso, a bolsa (o salário mínimo) foi o que me chamou. Não tinha contato com
a natureza. Mas aqui despertou a minha vontade e passei a observar os contrastes
de onde eu moro com uma mata. Lá é um deserto de árvores”, sentencia Marcos
Roberto.
Há necessidade de 2 bilhões de mudas para recompor SP
Em São Paulo restam cerca de 3,3 milhões de hectares cobertos por vegetação
nativa ou 13,4% do Estado. Muitos ecossistemas encontram-se extremamente
fragmentados e degradados e, dentre eles, uma das situações mais precárias é a
das matas ciliares, cujo déficit estimado supera um milhão de hectares. Recompor
este total significa plantar mais de 2 bilhões de mudas, segundo informações do
Instituto Brasileiro de Produção Sustentável e Direito Ambiental
(IBPS).
Matas ciliares ou ripárias (aquelas que crescem nas margens dos
cursos d’água) são extremamente importantes para conter a erosão (e assim manter
as águas livres de sedimentos); garantir alguma estabilidade da temperatura da
água (através do sombreamento); barrar pragas e doenças agrícolas; além de
também fornecer abrigo, alimento e, claro, água para as mais diversas espécies.
Matas ciliares também são corredores, fundamentais à conexão de
remanescentes de vegetação nativa, facilitando o trânsito de animais e a troca
de material genético, sem a qual não se garante a renovação natural e a
diversidade genética da flora ou fauna.
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