--- Em dom, 16/11/08, Raul Longo escreveu:
ORELHAS ARDENTES
Raul Longo
(Considerações sobre as Considerações do Eduardo Magalhães)
Por causa do Eduardo Guimarães tomei uns puxões de orelha!
Vamos falar sério! Essa história de transferir aos outros as culpas por nossos erros, é coisa de menino!
Tomei puxão de orelha de umas amigas foi por minha culpa mesmo. Afinal, fui eu que me entusiasmei com o sentido de alguns parágrafos do Edú, e não atentei para a falta de sentido de outros.
Para fazer uma concessão atendo a clássica propensão de se procurar desculpas e discorro primeiro sobre o que me chamou a atenção no comentário do Edú, copiando aqui:
“No Brasil, à diferença de Argentina, Bolívia, Chile, Equador, Paraguai e Venezuela, os militares continuam aliados à elite branca de direita e vivem fazendo ameaças a Lula. Nos outros países mencionados, foram para o lado da democracia. Apóiam governos eleitos legitimamente, como é obrigação das forças armadas nas democracias...”
Sem dúvida, não há mais razão alguma para os militares brasileiros jogarem pra cima do comunismo a desculpa de seus erros do passado. Aí faz lembrar a personagem de um desses enlatados de TV, responsabilizando o fim da União Soviética pela separação do marido que, paranóico, não consegue viver sem a ameaça de uma guerra (como se os E.U.A. dependessem de alguma coisa para inventar guerras!)
De toda forma, o parágrafo do Eduardo Guimarães me pegou porque sempre muito me preocupa a falta de um conceito claro, preciso e correto do que realmente seja democracia, entre alguns altos escalões de nossas Forças Armadas.
A comparação do Edú é justa, mas é preciso analisar a razão das diferenças já que quase todas as nações do continente passaram por recentes ditaduras militares de lamentável memória. Se não foi só no Brasil que generais patrocinados pelos interesses multinacionais estabeleceram governos tirânicos e truculentos, porque Chile e Argentina julgam os crimes e abusos autoritários, enquanto aqui tanto se esforça por prescrevê-los?
Os argumentos de um Jobim, Passarinho ou Gilmar Mendes, na tentativa de confundir a anistia àqueles que lutaram com os meios possíveis pela liberdade de expressão, contra a opressão dos trabalhadores e a supressão de direitos de seus compatriotas, ao perdão de torturas, estupros, seqüestros, assassinatos e outras covardias, perenizam uma sintomática incapacidade de confiança e relacionamento entre as Forças Armadas e a população brasileira.
O general francês Pierre Labatut, promovido a Marechal de Campo quando comandou as únicas batalhas que tivemos contra os colonizadores, na Bahia, e que antes participara das lutas pela independência dos Estados Unidos e ao lado de Simon Bolívar pela da Colômbia, reprovou severamente o mau tratamento dispensado pelos oficiais brasileiros ao povo, apesar da lendária participação popular onde se destacaram vultos como Maria Quitéria.
Afora a resistência colonialista da Bahia, nossa independência foi praticamente uma sucessão hereditária entre pais portugueses e filhos no Brasil nascidos, mas pouco identificados com nossa gente a quem viam como seres inferiores. Inferiorizados permanecemos como negros escravos ou índios marginalizados.
O célebre grito do Ipiranga não ecoou tão alto por nossa independência quanto a morte de uma polpuda remuneração a Portugal, pelo direito de não sermos mais extorquidos pela coroa do João VI, para sermos pela do Pedro I que, como Fujimori ao abandonar o Peru nas mãos da filha pouco mais que adolescente, deixou-nos às mãos do filho de 5 anos de idade.
Tivemos sorte, pois de melhor índole e grande apreço pelo Brasil, Pedro II reconstituiu as Forças Militares brasileiras imprimindo a melhor fase de sua história, de onde saíram os patronos das três armas.
Apontado pelos historiadores como o inspirador do movimento abolicionista, manteve sincera amizade com populares de todas as origens: negros, judeus, muçulmanos. Além de promover a economia brasileira nos tornando credores de grandes potências da época, introduziu no Brasil as últimas evoluções tecnológicas como o cabo submarino e o telefone. Investiu na educação pública, criou universidades, institutos de ciências e liceus de artes. De cultura erudita, também foi grande apreciador e incentivador da cultura popular.
Seus apontamentos revelam só ter suportado a escravidão por tantos anos, com receio de que se repetisse no Brasil a sangrenta Guerra da Secessão que dividira os Estados Unidos.
Mesmo, em suas medidas paulatinas como a Lei dos Sexagenários e a do Ventre Livre, se fomentou a insidiosa oposição das elites fundiárias, sempre baseadas na espoliação da mão de obra.
Após a abolição da escravatura, aproveitando-se da falta de malícia dos educados nas honras militares, então ainda ingênuos à desonra dos espúrios interesses dos alcoviteiros de todas as épocas, não faltou lá um Roberto Jefferson para convencer Deodoro de uma ordem de prisão contra sua pessoa, emitida pelo Visconde de Ouro Preto, Presidente do Conselho de Ministros do Império, hoje equivalente ao cargo de Ministro da Casa Civil.
Mais uma acusação infundada cuja falsidade ficou para comprovação da história. No entanto, por estas e outras intrigas da subversiva elite econômica, na tarde do mesmo dia XV de Novembro em que pela manhã gritara à tropa vivas à “Sua Majestade, o Imperador”, o Marechal proclamou a República e destituiu o amigo.
Não foi uma traição. Foi um engodo. Talvez o primeiro com os quais os especuladores ainda ludibriam o exército brasileiro. Especuladores tão subservientes aos interesses estrangeiros quanto seus descendentes que ainda ocupam nosso cenário político, pois até na proposta de uma nova bandeira apresentada à Deodoro, reproduzem cópia grotesca da bandeira norte-americana, trocando as cores das listas brancas e vermelhas, por verdes e amarelas. Irritado com tanta estultice, o Marechal dá um soco na mesa advertindo: “Senhores! Mudamos o regime, não a Pátria!”
Não poderia imaginar que décadas mais tarde seus companheiros de farda se deixaram convencer a uma não menos grosseira versão do “América love or leave!” Mas daquele soco na mesa, coincidentemente seguido pelo carrilhão da Igreja de São Jorge anunciando o meio-dia de 19 de novembro, manteve o exército a tradição do hasteamento do pavilhão a esta data e hora, mas com o mesmo losango amarelo e retângulo verde, substituindo-se apenas as armas do império pela circunferência azul com a constelação de nossos estados e a frase positivista, tão em desacordo com os ideais arraigadamente exclusivistas e espoliadores de nossas elites econômicas.
Mas se Deodoro foi enganado e induzido a depor Pedro II em 1889, dois anos depois seu vice, Marechal Floriano Peixoto, o depôs sob ameaça de bombardear o Rio Janeiro na Revolta da Armada. Este golpe financiado pelas oligarquias cafeicultoras paulistas garantiu a Prudente de Morais a sucessão de Floriano, dando inicio à política do feudalismo coronelista que, através do chamado “voto de cabresto”, manteve a alternância dos cargos políticos federais e regionais usurpando patentes militares. Em verdade os coronéis eram tão pouco coronéis de fato, quanto tantos doutores de hoje pouco doutos são.
O primeiro presidente militar eleito foi o Marechal Hermes da Fonseca, em 1910. Traidor, depois de acordar com o fim das chibatadas aplicadas como castigo pela Marinha prometendo anistia aos revoltosos, mandou prender a todos dando origem ao motim dos fuzileiros navais. Além da expulsão de mais de mil marinheiros e centenas de prisões e assassinatos, portos foram bombardeados e o país entrou em estado de sítio.
Além do Hermes da Fonseca, o único militar eleito democraticamente à presidência do país foi o General Eurico Gaspar Dutra, Ministro da Guerra de Getúlio Vargas que o apoiou como sucessor ao seu período ditatorial. Empossado em janeiro de 1946, Dutra aproxima-se das oligarquias fundiárias da UDN rompendo com Getúlio. Seguindo o modelo liberal udenista, promove severo arrocho salarial e rápido esgotamento das reservas cambiais. Dá início a influência econômica dos Estados Unidos sobre o Brasil e assume empréstimos para um plano desenvolvimentista que nunca saiu do papel.
Dutra tentará se aproximar do governo imposto pelo golpe militar de 1964, mas é rechaçado pelo próprio General Castelo Branco, o primeiro da sucessão de ditadores (5 ao total) que promoveram a supressão dos direitos políticos e civis, a mais violenta repressão social da história da república, a degradação do sistema educacional, o desenvolvimentismo a custas de empréstimos externos, da expansão da miserabilidade social e da maior depredação ambiental já ocorrida no país. Também foram os idealizadores do primeiro de uma série de falsos milagres econômicos que aprofundaram a dívida externa e a dependência econômica aos interesses estrangeiros, no que foram seguidos por seus sucessores civis: José Sarney, Fernando Collor de Mello e Fernando Henrique Cardoso.
Foi ainda com o apoio do regime militar que se desenvolveu uma nova oligarquia e um novo feudo no país: o das comunicações, com a transformação de algumas editoras jornalísticas em grandes parques gráficos, e uma emissora de TV restrita ao Rio de Janeiro em uma das maiores grupos de telecomunicações do planeta. No entanto, a impopularidade do regime ditatorial obrigou as famílias Civita, Marinho, Mesquita e Frias a renegarem o apadrinhamento, bem como hoje o fazem certas personalidades das elites políticas e econômicas, inclusive aquelas que tanto se indispõem com a abertura dos arquivos sobre os crimes e excessos cometidos durante a ditadura.
No entanto, com todo esse histórico, só quando as Forças Armadas Brasileiras assumir os erros daquele período, eu, o Eduardo Guimarães, e toda a população brasileira, recuperaremos a necessária confiança nestas instituições que, como instituições, serão tão fortalecidas perante a nação e o povo quanto vêm se refortificando suas correlatas dos países vizinhos com a condenação de Videla e Pinochet que, sabidamente, superaram em muito os abusos dos nossos militares.
De estranhar é que os dirigentes daquele período, em maioria, já são falecidos. Que tanto ardem essas orelhas a cada vez que se toca no assunto? Irritadas, contrapõem com acusações de revanchismo. Ora! Então Nuremberg, tribunal de Haia, e outros históricos julgamentos de crimes políticos e contra a humanidade foram revanchismos?
Trata-se é de fazer prosseguir a história, inclusive histórias existenciais e pessoais, como a de alguns amigos que ainda hoje não sei se vivos em alguma parte do mundo. Preciso, precisamos todos, curar nossas mágoas sempre assombradas por dezenas, centenas e desaparecidos, mutilados, inutilizados. Alguém tem de nos ajudar a matar nossos mortos!
De diferente constituição, as forças militares dos demais países de nosso continente, incluindo as demais Américas, se originaram nas lutas de independência, nos embates de seus povos contra os colonizadores. Ao aconselhar o filho que pusesse a coroa antes que outro aventureiro o fizesse, João VI nos desventurou com uma elite que ainda hoje se comporta como escória inapta e incapaz de assumir seus erros e deficiências, sempre pronta a esconder as próprias mazelas sob algum tapete. São esses que ainda hoje, com toda empáfia e entojo afetam falsos estrangeirismos para afirmar que “brasileiro é assim mesmo”.
Por aí se explique a falta de identificação de nossos oficiais com o popular, com o povo, percebida por Pierre Labatut que soube reconhecer e condecorou a bravura da lavradora Maria Quitéria, a primeira cadete feminina da história de nosso exército.
Além de Quitéria, a memória de muitos outros valorosos militares brasileiros precisa ser resgatada. Não só os companheiros de João Candido, o líder da Revolta da Chibata, foram vítimas dessa elite inescrupulosa. Também na ditadura recente, muitos oficiais militares pagaram com a vida e foram igualmente torturados por lutar contra o despotismo dos financiados pelos agenciadores dos potenciais pátrios à espoliação estrangeira.
Essa história precisa ser resgatada para que não precisemos mais nos confundir com a frase do Eduardo Guimarães: “A democracia brasileira ainda é uma concessão das elites. Não tenho a menor dúvida... de que os militares derrubariam Lula se ele enveredasse pela radicalização da democracia, contrariando interesses poderosos com maior decisão.”
Por essa frase, minhas amigas, com toda razão, me puxaram as orelhas. E eu, tonto, ainda quis convencê-las de que o Edú estava com a razão. Logo eu que tanto ironizei a estupidez do General Figueiredo quando nos ameaçou de prender e arrebentar se não aceitássemos a democracia que acreditava que nos concederia! Logo eu que fui a multidão que marchou pela Candelária, o Vale do Anhangabaú, e por todo o país no Movimento das Diretas Já! Logo eu que fui traído por Tancredo! Fui ludibriado pelo Collor da Globo e o FHC do plano real!
Mas hoje não somos mais aquele Brasil de chapéu na mão, correndo ao FMI por cada crise econômica de algum quadrante do planeta. Hoje, meia década depois de nos envergonharmos como uma das maiores insolvências mundiais, as grandes nações nos procuram como parceiro imprescindível na projeção de soluções da grande crise econômica internacional que eles criaram.
Hoje não nos desculpamos em inglês, francês, alemão ou qualquer outro idioma. Hoje propomos e sugerimos em português mesmo. E a imprensa internacional nos traduz e enaltece nossas falas sobre quais sejam os problemas: conjeturais, sociais, estruturais, ou econômicos. Inclusive quando aplicamos merecidos puxões de orelha.
Hoje sim, dá gosto ser patriota. Qualquer general se comoveria pelo real e maior patrimônio nacional, olhando em meus olhos de multidão. Dessa vez não seria grosseira subserviência ou falta de escrúpulos se, imitando o presidente eleito dos Estados Unidos, concluísse que, enfim, somos o Brasil da América do Sul. E se suas orelhas ardessem, não seria porque alguém teve de puxá-las para compreender direito alguma coisa. Tampouco de vergonha.
Suas orelhas arderiam pelo mesmo orgulho que hoje experimentam os oficiais bolivianos, equatorianos e venezuelanos. Um orgulho que, se avaliar melhor, o Eduardo Guimarães também sentirá por ser brasileiro. Enfim, hoje nós também podemos, e sem receio de cometer alguma ridícula imitação.
Raul Longo
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