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EM BUSCA DE UM ARQUÉTIPO BRASILEIRO : Nem Zumbi, nem Pai João : Xica da Silva - por Raul Longo - Resistência dos povos dominados - Arquétipos da liberdade - Dia da Consciência Negra, Amarela e Branca - Reais ou mitológicos - A aceitação do cristianismo pelo império romano - Um caminho de perenidade além do declínio do império - Zumbi é o grande arquétipo da resistência popular brasileira - A dantesca epopéia dos afro-descendentes - Aversão à Chica da Silva pela provinciana sociedade da época - Correlaçao com atividades do MST - Os arquétipos e o carnaval - Zumbi sempre esteve entre nós em todas as lutas libertárias - Direitos inalienáveis como seres humanos.
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Luiz Antônio Vieira Spinola  
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 Mais opções 18 nov 2008, 17:16
De: Luiz Antônio Vieira Spinola <tuigobi...@yahoo.com.br>
Data: Tue, 18 Nov 2008 11:16:50 -0800 (PST)
Local: Ter 18 nov 2008 17:16
Assunto: EM BUSCA DE UM ARQUÉTIPO BRASILEIRO : Nem Zumbi, nem Pai João : Xica da Silva - por Raul Longo - Resistência dos povos dominados - Arquétipos da liberdade - Dia da Consciência Negra, Amarela e Branca - Reais ou mitológicos - A aceitação do cristianismo pelo império romano - Um caminho de perenidade além do declínio do império - Zumbi é o grande arquétipo da resistência popular brasileira - A dantesca epopéia dos afro-descendentes - Aversão à Chica da Silva pela provinciana sociedade da época - Correlaçao com atividades do MST - Os arquétipos e o carnaval - Zumbi sempre esteve entre nós em todas as lutas libertárias - Direitos inalienáveis como seres humanos.

 
 
EM BUSCA DE UM ARQUÉTIPO BRASILEIRO
Nem Zumbi, nem Pai João: Xica da Silva
 
                                                                                           Raul Longo
            É no histórico de resistência dos povos dominados que se encontram os principais arquétipos da humanidade.
            O que sobrevive e sobreviverá ao episódico, representando os atavismos e o caráter de um povo, nunca será a prepotência das classes dominantes, por mais que a história oficial lhes conceda deferências.
            Ainda que sejam os vitoriosos a escreverem a história, cedo ou tarde a versão oficial será olvidada ou ridicularizada pela memória popular. Heróis e mártires a serem perpetuados como modelo de conduta e comportamento, apenas os que de uma forma ou outra resistiram.
            Assim foi com os arquétipos de todas as civilizações, de real existência ou mitológicos, mesmo quando de produção literária como é o caso do gaúcho Martín Fierro. Ainda hoje nas planícies argentinas muitos refutam a informação de que Martín Fierro seja personagem fictício dos versos compostos por José Hernández, publicados em 1872. Rememoram velhos conhecidos que teriam confabulado com o herói através do qual Hernández relatou a opressão sobre o camponês do país e sua tenaz resistência à ganância dos “terratenientes”, os latifundiários daqueles pampas e pradarias.
            Nem sempre os arquétipos da resistência à opressão, são tipos aguerridos e valentes como Martin Fierro. Há também os mártires que se tornam exemplo de estoicismo perante a injustiça do dominador. Manipulados, tornam-se úteis aos que se beneficiam do pacifismo e conformismo à realidade terrena, em troca de hipotéticas recompensas nas dimensões celestiais.
            No entanto, ainda que conveniente ao dominador, nem sempre esse conformismo deve ser confundido como capitulação ou adesão do dominado, pois mesmo subjugando-se ao poder daquele, há nessa passividade uma reserva de última possibilidade de sobrevivência que muitas vezes impõem limites de aceitação, não apenas preservando suas particularidades e orgulhos como insistindo, a cada oportunidade, pela conversão do próprio dominador.
            Um exemplo é o cristianismo que, proscrito, três séculos após é universalizado pelos próprios perseguidores que encontraram na institucionalização da Igreja Católica por Constantino, um caminho de perenidade além do declínio do Império Romano.
            Apesar do martírio sofrido na antiguidade, a civilização cristã superou as crueldades que lhes foram impostas, infligindo aos escravos negros tormentos apenas comparáveis a dois outros momentos de sua própria história: o das arenas, quando eram entregues as feras, e os da Santa Inquisição.
            Se o milagre da fé permitiu a sobrevivência dos primeiros cristãos à desumanidade do Império Romano, e mais tarde ao despotismo de seus próprios prelados inquisitoriais, a sobrevivência da cultura e da humanidade afro-americana não se faz menos milagrosa. Milagrosamente, essa cultura sobrevivente a outros tantos três séculos de escravidão, e à marginalização, preconceitos e violências que ainda perduram, produz as mais significativas expressões do novo continente, criando novos rumos e perspectivas às manifestações humanas como o jazz, única proposta ocidental à milenar escala jônica desenvolvida nos primórdios da civilização grega.
            E desta nova harmonia se obteve a primeira identificação cultural entre todos os povos do mundo: o rock.
            Sem dúvida a hegemonia política do país onde se originou e o poder econômico da indústria de comunicação, contribuíram para a globalização deste ritmo, mas se muitas vezes ele foi e ainda é empregado como manifesto de contestação e reação a este mesmo poder, é por ser proveniente da cultura de resistência dos negros que exprimiam suas mágoas no blue, ou sua insistente alegria e desconcertante criatividade nas jazz band.
            Ainda menor dúvida é a de que as características culturais de um povo sejam os elementos formadores de seu caráter e de identificação coletiva. E, de que os verdadeiros arquétipos populares sejam expressões atemporais e naturais desse caráter, tornando compreensível a impossibilidade de gaúchos argentinos admitirem como ficção o que José Hernández logrou reproduzir com tamanha fidelidade à identidade de seu povo.
            Diferentemente dos verdadeiros arquétipos, os símbolos arquetípicos desenvolvidos ou manipulados pelos interesses dos dominadores, mesmo quando oriundos das camadas populares, perdem a capacidade de identificação comportamental e de caráter por mais catequeticamente condicionados e impostos. O que talvez explique a incapacidade do cristão em minimamente reproduzir os sentimentos por seus semelhantes, apregoado pelo principal símbolo da religião.
            O mesmo se deu com o Pai Tomás de Harriet Beecher Stowe (Uncle Tom’s Cabin), escrito na segunda metade do século XIX. Abraham Lincoln chegou a apontar a obra como responsável pela guerra entre os estados daquele país, ao deflagrar o abolicionismo indesejado pelos sulistas com o relato das infâmias ali praticadas contra os escravos. No entanto, Harriet idealiza no protagonista de sua história o que entendia por “negro bom”: o negro passivo, o negro conformado com sua condição social, ainda que nessa conformidade também se expresse uma resistência, visto a subserviência, da ausência de qualquer outra possibilidade, não deixar de ser uma forma de resistir pela própria sobrevivência.
            Tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil existem cidadãos que se aceitem como “pretos de alma branca”, mas o arquétipo do Pai Tomás, ou Pai João na versão no imaginário popular brasileiro, é ironizado pela grande maioria dos afro-descentes, como se denota no verso de Chico Buarque de Holanda em que o malandro adverte à companheira infiel: “Você só dança com ele e diz que é sem compromisso/é bom acabar com isso/não sou nenhum Pai João”.
            Mas qual seria o grande e verdadeiro arquétipo de identificação da população negra do Brasil, hoje maior do que a de qualquer país africano?
            Muita gente já se indispôs com a principal obra de análise antropológica e social das relações históricas entre nossas duas mais significativas etnias, por ali se considerar que o português tenha sido mais tolerante ou menos cruel no relacionamento com seus escravos do que seu correspondente colonizador da América do Norte. Chega-se a acusar Gilberto Freire de se posicionar mais à Casa Grande do que à Senzala, por ter tentado comprovar sua tese lembrando que nos Estados Unidos não se produziram tantos mulatos quanto entre nós, concluindo em nossa acentuada miscigenação um atestado de maior congraçamento entre dominados e dominadores.
            De fato, os horrores aqui praticados contra os escravos foram tamanhos que chega a ser uma temeridade científica mensurá-los comparativamente. Além do que, a interpretação do estupro como miscigenação congressual foge a uma conclusão plausível. Mas mesmo que o Mestre do Solar dos Apicucos apenas tenha pretendido amenizar a animalidade da porção européia de seus ancestrais, por um viés que não se confirma em outras colônias portuguesas de África onde a presença do mulato inexiste (apesar de lá a colonização se estender até há menos de três décadas), é preciso reconhecer que na América do Norte, tão rica de heróicos resistentes indígenas, afora o Pai Thomaz não se sobressaíram arquétipos da resistência dos escravos negros.
            Explicações podem se remontar ao monopólio britânico do tráfego negreiro que possibilitava a seleção de povos menos gregários, consequentemente com menor disposição para formação de grupos de resistência que no Brasil se denominaram quilombos, propiciando o desenvolvimento de lideranças como Ganga Zumba e Zumbi.
            Certamente houve movimentos de Spartacus afro-norte-americanos, mas significativos como Zumbi e Palmares só nas décadas de 50/60 do século passado, com Carmichael, Malcom X, Luther King e os Black Panthers.  
            Incontestavelmente Zumbi é o grande arquétipo da resistência popular brasileira, e será evocado em todos os movimentos libertários sejam de quais etnias forem: índios, negros, ou brancos. Operários ou camponeses. Até mesmo já se ouviu confundir Zumbi aos líderes e guerreiros do tráfico nos morros e nas periferias. Infeliz comparação, pois estes não lutam sequer pela própria liberdade nem apresentam a menor proposta às comunidades de sua gente, para as quais se tornam motivo de terror.
            Distantes de Zumbi, lutam apenas por uma sobrevivência mínima e individual, dentro das reduzidas condições que as sociedades urbanas lhes impõem.     
Em “Da Próxima Vez o Fogo” (The Fire Next Time- 1963), James Baldwin, considerado o primeiro escritor a dizer aos brancos o que os negros norte-americanos pensavam e sentiam, define: “A fome faz dos indivíduos, na melhor das hipóteses, perigosos; e na pior, indignos”.
Nem perigosos, nem indignos, os arquétipos populares se situam acima dos julgamentos morais, muito comuns às classes privilegiadas, sempre dependentes de padrões e normas pré-estabelecidas de conduta. Entre tão escassos e difíceis recursos de sobrevivência, os que resistem ao domínio das vontades e direitos de sua gente são os capazes de se conduzir dentro da realidade oferecida, sem qualquer outro parâmetro e etiqueta além da manutenção de sua dignidade e caráter étnico ou social.
Na dantesca epopéia dos afro-descendentes brasileiros, além de Zumbi dos Palmares há outro arquétipo que mais fielmente se reproduz entre o caráter de nosso povo: o da Rainha do Tijuco.
 A primeira documentação deste arquétipo veio a público em 1868, na obra “Memória do Distrito Diamantino” de Joaquim Felício dos Santos, constituído como advogado dos herdeiros de João Fernandes de Oliveira, contratador de diamantes da segunda metade do século XVIII, e de sua mulher, uma mulata escrava alforriada: Francisca da Silva de Oliveira, ou simplesmente Chica da Silva.
Joaquim Felício a descreve como “mulata alta, corpulenta, boçal e careca”, pintando-a com as cores ácidas com que as velhas avós de Diamantina, então Tijuco, descreveram a personagem às gerações seguintes: mulher cruel, alcunhada de Chica Mandona, ou a Chica que Manda, de insaciável apetite sexual e escandalosa.
Posteriormente, diversos autores e pesquisadores questionaram a credulidade de Joaquim Felício, imaginando que se Chica fosse realmente a megera e gárgula relatada ao historiador e advogado, dificilmente teria conquistado a desmesurada paixão de João Fernandes, homem considerado mais rico do que o próprio rei de Portugal e presumivelmente muito requestado por pais e filhas das melhores famílias lusitanas e brasileiras.
A fortuna e paixão de Fernandes o levaram a atender os mais tresloucados caprichos da ex-escrava: construção de palacete com 21 cômodos em meio a jardim de plantas exóticas, ornado por cascatas e lago artificial para superação da frustração tão típica aos de Minas Gerais que nunca viram o mar. Ali navegava um veleiro com capacidade para 10 pessoas entre os convidados da sociedade local para as constantes festas animadas por teatro e orquestra particular.
Se a moderna sociedade brasileira, que se pretende democrática, tem dificuldades em aceitar a presidência de um trabalhador, independente de quais sejam os resultados obtidos em seu governo, imagine-se a afronta naquele período colonial, de uma ex-escrava galgada à primeira dama!
Circula pela internet uma mensagem onde fotograficamente se documenta uma manifestação do MST – Movimento dos Sem Terras, através de textos indignados com a presença de uma ambulância do sistema público de segurança e saúde, considerando aviltante aberração a utilização pelos manifestantes de celulares, câmaras fotográficas e cinematográficas portáteis. O ódio ali expresso pode nos reportar à incomensurável aversão devotada à Chica da Silva pela provinciana sociedade da época, e que se reproduziu na descrição da personagem pelo historiador com a mesma intolerância preconceituosa do conteúdo do arquivo da web.
Coincidentemente foi um sobrinho de Joaquim Felício quem no século XX reinterpretou a personagem, assumindo-a no arquétipo do caráter popular desenvolvido pelos afro-descendentes como meio de sobrevivência e resistência entre nossa realidade. Em Xica da Silva, João Felício dos Santos resgata uma Diamantina repleta de personagens ladinos e ambiciosos em busca do ouro e dos diamantes de Minas Gerais, para ali refazer o ambiente perfeito para a personagem desenvolver e afiar uma das armas de resistência e resgate de direitos usurpados ao ser humano: a sedução e a ironia.
Entre o tio Joaquim e o sobrinho-neto João Felício dos Santos, muitas foram as interpretações do mito Chica ou Xica da Silva, inclusive posteriores e por diversas linguagens como na música de Jorge Bem, no cinema de Cacá Diegues, e em telenovela. O arquétipo ainda se reencarna anualmente nas coreografias e no figurino das escolas de samba não apenas como enredo, mas como precursora de mestres-salas e porta-bandeiras e suas louras perucas e figurinos debruados, tal qual o modelo em seus saraus quando ironizava o minueto e os salamaleques cortesãos.
Talvez realmente extrapolasse a ridicularização do despotismo de seus antigos senhores, justificando o epíteto de Chica Mandona, a Chica que Manda. Ou talvez aí, uma manifestação de vingança ao seu passado. Quem sabe, apenas demonstração da hipocrisia da sociedade branca que acorria aos convites para suas festas, e de quão estúpida e infame a permanente prepotência no trato com aqueles que lhes serviam.
Na reprodução popular e cotidiana do arquétipo, seja na interpretação dos caprichos de nossas cabrochas, nos pitis dos homossexuais, e mesmo na displicência dos malandros, há uma evidente intenção de humor nesse mandonismo. Humor e sedução.
Os jogos de sedução caracterizam muitos povos e se diferenciam de um a outro. O fascínio que no argentino se exerce pelo trágico e traumático, ou no francês pelo envolvente, no italiano pelo eloqüente; nos brasileiros se denota por uma mescla de humor e manifestações de dúbio poder. Chavões e expressões de lugar-comum atestam essa característica, tanto ao designar a companheira como “patroa” ou “dona da pensão”, quanto na jocosa garantia de que “Na minha casa eu é quem mando. A mulher pega o chinelo e diz para sair debaixo da cama, mas falo mais alto: Não saio! Aqui, quem manda é eu!”
É no mais bem definido arquétipo ficcional e literário brasileiro que se encontra um análogo de confirmação de Xica da Silva como arquétipo histórico de nossa gente. Assim como Macunaíma, Xica vomitou em ironia caricata todo o lixo cultural que se provou capaz de engolir por nossa ancestral antropofagia. Reafirmou-se como heroína sem nenhum caráter, satirizando a falta de caráter de seus contemporâneos, desprezando invejas, despeitos e preconceitos provincianos de uma tão anacrônica e decadente elite quanto a que Mário de Andrade ridicularizou em Venceslau Pietro Pietra; e ainda se manifesta nos reclamos contra impostos que acreditam desviados para os celulares e câmaras fotográficas dos Sem Terras, numa mesquinhez de raciocínio que apenas lhes permite a vergonhosa conclusão de que “Se não têm terras, estão fotografando às minhas custas”.
Essa pequenez das elites brasileiras e da classe média que a imita, explica a razão de em nossa literatura não se produzir personagens como Karamazov ou Madame Bovary, pois a decadência lhes é anterior a si mesmas e têm origem naqueles a quem a corte, como última e extrema cortesia, concedia alguma gleba nestas longínquas terras selváticas, pouco se importando com as alternativas entre o prosperar e o perecer.
Tal enfado provocado pelos então colonialistas luso-brasileiros se perpetua no estrangeiro que hoje nos visita e, quando não se encontra com nossas manifestações populares, não esconde levar de nós péssima impressão pela frivolidade e os preconceitos retrógradas de nossa classe média. Comentários recorrentes aos tantos que visitam as cidades turísticas do sul do Brasil, onde a ausência da gente típica do povo se faz mais sensível.
Comentários demonstrativos de que na alma do burguês brasileiro não se reflete o conteúdo humano que Dostoievski pôde captar na decadência da nobreza russa em finais do século XIX, e tampouco Flaubert encontraria entre nossas pequeno-burguesas sequer o sentimentalismo simplório com que compôs o arquétipo das donas de casa de seu tempo.   
O gênio de Machado de Assis ainda conseguiu produzir alguns tipos exemplares baseados na classe média carioca do século XIX. Mas o que há de representativo desta classe ou economicamente acima, entre os personagens das posteriores páginas da literatura brasileira? Depois de Capitu ou Quincas Borba, só restou Nelson Rodrigues para documentar e atestar o abjeto falso moralismo desses brasileiros sem qualquer representatividade como caráter humano.
Não fossem os sertanejos de um Guimarães Rosa, os lavradores de um José Lins do Rego, as prostitutas de Jorge Amado, ou os fantásticos personagens de Oswald e Mário de Andrade, nossa literatura se resumiria às inquirições poéticas de Carlos Drummond de Andrade à própria alma, e os melancólicos mergulhos na solidão urbana de Clarice Lispector.
Portanto, há pouco ou nada a se perscrutar neste segmento onde cada um faz de si mesmo o único acontecimento de vidas inócuas que se sucedem por gerações que amealham por usurpação e dissipam-se por má formação.
Até para definir o estereotipado relacionamento entre a maioria das senhoras de classe média e suas empregadas, ou muitos dos chefes de oficinas e escritórios e seus subordinados, haveremos de nos reportar aos maus bofes da Chica que Manda de Joaquim Felício. Mas é na sedutora e alegre alforriada Xica de João Felício que encontraremos a convergência dos requebros, da boa conversa, do deboche, do descompromisso, dos propositais e planejados exageros, do humor e do jogo de sedução que constantemente permeia as relações de nossa gente.    
Na índole pacífica e cordial que já nos notabilizou perante o mundo, podemos encontrar algo de Pai João em humilde busca de reconhecimento por sua humanidade.
Zumbi sempre esteve entre nós em todas as lutas libertárias ou de reivindicação ao respeito de nossos direitos inalienáveis como seres humanos. Desde a Confederação dos Tamoios em 1556 -- que resultou no primeiro tratado de paz de todas as Américas, posteriormente traído como os demais firmados pelos dominadores entre o Alaska e a Patagônia -- até às lideranças que fazem do MST um movimento social admirado e respeitado em todo o mundo, reconhecemos a nítida presença de nosso heróico arquétipo de Palmares.
Mas é como Xica da Silva que finalizamos o repasto dos ossos que nos dão a roer: um sorriso maroto de sedução, e um arroto de acinte e desafio do que sabe quem, na verdade, é que manda.
 
 
OBS :
Trabalho redigido por Raul Longo como subsídio a projeto cultural junto ao governo.
 
 
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