A POESIA E O POETA
Jorge Linhaça
Poeta é todo aquele que escreve poemas, sim poemas, pois a poesia não escreve, a poesia é o sentimento que brota na alma do poeta e que, quando traduzida em palavras, em versos rimados ou não, recebe o nome de poema.
Percebam , no entanto que poema é um nome genérico usado para definir toda e qualquer manifestação poética.
Nenhum poeta, purista ou não, precisa rotular os seus poemas, apenas escrever e atingir ( ou não) o coração das pessoas através dos seus escritos.
Os versos livres e brancos podem ter tanto valor quanto um soneto ou rondel, isso vai muito da emoção real (ou não) transmitida pelo poeta.
No entanto, quando se opta por dar nomes aos bois, ou seja, atribuir a um poema o nome de uma forma poética, há de se ter muito cuidado.
Quem de nós não ficaria decepcionado ao ir ver um carro anunciado como uma Ferrari e descobrir que se trata apenas de um fusquinha pintado com as cores da famosa marca italiana?
Quando se insiste nos erros e busca-se justificativas sem pé nem cabeça para tentar iludir ao leitor e angariar a sua simpatia, comete-se um crime de "lesa poesia" , procura-se de todas as maneiras vender gato por lebre apenas para justificar a sua própria falta de interesse em aprender.
Querer justificar a falta de interesse em aprender com coisas do tipo, "a gente se aperfeiçoa enquanto escreve" ou dizer que a "licença poética" permite nomear textos de forma enganosa ,é uma pífia tentativa de ocultar a sua própria incopetência.
Aliás, apenas para esclarecer:
"A poesia pode fazer uso da chamada licença poética, que é a permissão para extrapolar o uso da norma culta da língua, tomando a liberdade necessária para utilizar recursos como o uso de palavras de baixo-calão, desvios da norma ortográfica que se aproximam mais da linguagem falada ou a utilização de figuras de estilo como a hipérbole ou outras que assumem o carácter "fingidor" da poesia, de acordo com a conhecida fórmula de Fernando Pessoa ("O poeta é um fingidor").
A matéria-prima do poeta é a palavra e, assim como o escultor extrai a forma de um bloco, o escritor tem toda a liberdade para manipular as palavras, mesmo que isso implique em romper com as normas tradicionais da gramática. Limitar a poética às tradições de uma língua é não reconhecer, também, a volatilidade da fala."
Wikipédia
Como podemos ver, licença poética nada tem a ver com atribuição de rótulos aos poemas.
Não existe licença poética que transforme um poema qualquer em um soneto.
Como eu já disse, ninguém é obrigado a nomear os seus poemas como sonetos, rondéis, triolés, poetrix, indrisos ou o que quer que seja, no entanto, quando se opta por assim proceder, é esperado que ao menos a pessoa se atenha às regas mais básicas.
Quando isso não ocorre, e sabendo-se que está errado, persiste-se o erro de nomear indevidamente um poema, caracteriza-se a má fé do escritor.
Claro que há os que tentam escrever determinada forma poética e acabam errando aqui e acolá, isso é algo bastante comum e não quer dizer que a pessoa esteja tentando nos empurrar gato por lebre.
Apenas faz parte de um aperfeiçoamento que vem com o tempo.
Ninguém há de criar um soneto perfeito da noite para o dia, os tropeços irão ocorrer mais do que os acertos, cada qual tem o seu grau de dificuldade em chegar a um resultado mais apropriado.
O que não se pode ver e calar, são poetas que, para não se darem ao trabalho de estudar e se acharem senhores da razão, tentarem carregar atrás de si uma fila de incautos por meio de suas considerações desprovidas de senso.
Já disse aqui, mas nunca é demais repetir:
Cada um é livre para poetar de sua própria maneira, mas querer deturpar formas poéticas seculares ao seu bel prazer, e procurar revestir-se de razão para assim proceder é um desserviço à poesia.
Fica aqui o meu questionamento:
O que há por trás dessas atitudes ?
O que leva uma pessoa a persistir no erro?
Necessidade de se auto-afirmar ?
Querer parecer moderno e condescendente aos olhos dos leitores?
Se fazer de coitadinho para meia dúzia de amigos?
A questão é tão fácil de ser resolvida...
Não creio que ninguém exija dos poetas que escrevam determinadas formas poéticas, ao menos nunca vi isso acontecer.
Portanto, se incomodam-se com os puristas, continuem escrevendo como melhor lhes apetecer, no entanto, não façam propaganda enganosa nos seus cabeçários.
O que esperam ganhar com isso? Meia dúzia de aplausos?
Seus textos serão aplaudidos pelo conteúdo e não pelo nome que lhes atribuírem.
Para que querer enganar?
Para que confundir quem está aprendendo?
Dito isto, caros amigos leitores, vamos nos ocupar do que interessa, a arte bela de poetar, independente do estilo de cada um.
Só peço que sejamos responsáveis e compreendamos que, os que aqui estão há mais tempo, servem de espelho para os que estão chegando.
Vamos pois refletir as coisas de maneira clara, sem querer levar os outros a incorrerem em nossos erros conscientes por causa de nossas justificações sofistas.