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UMA ECOLÓGICA MANHÃ DE DOMINGO Palavras-chave relacionadas : Compra ecológica de terras. Ecovila. Produtos alternativos de florestas. Produção artesanal. Compra coletiva de terras. Conto literário ecológico. Próximo a Lagoa Real - BA. Município de Livramento de Nossa Senhora - BA. Economia. Interesse material. Idealismo. Descrição bucólica ecológica.
Neste domingo, mais uma vez, pela manhã, fui passear nas matas da Caroba. A Caroba já foi uma fazenda, e hoje é um lugarejo entre os milhares do interior da Bahia. Ainda era cedo, e o sol já apresentava sinais de que o dia iria ser muito quente. De fato, estamos em janeiro, transitando por um período propício a chuvas esparsas provocadas por convecção. O vento alísio do leste deixa de soprar, e suaves brisas, ora do norte, ora do oeste, trazem nuvens carregadas que se avolumariam mais se aqui houvesse mais vegetação para reter e evaporar lentamente mais água.
Tomei a mochila mais usada, duas sacolinhas plásticas, duas saborosas goiabas brancas do quintal e a máquina fotográfica. Desta vez, troquei o facão pelo canivete.
As cachorras---a Tirica e a Pitiula---, conhecendo meus movimentos incomuns, animaram-se em brincadeiras, pois sabiam que íamos passear. E lá fomos nós....!!
Passando ao lado de cercas de roças com plantas que ávidas aguardavam a chuva, rompemos(1) mata adentro, sentindo retornar o frescor da madrugada, debaixo das árvores que ladeavam o caminho. São muitos os caminhos, as trilhas, os carreiros. Escolhemos---sim, porque as cachorras, indo à frente, também escolhem---a estradinha principal que dá acesso a algumas propriedades sem casas, mas recém beneficiadas, ou melhor, recém desmatadas para o plantio---em sua maioria---de capim. Os espaços de matas revegetadas naturalmente, de uns 80 anos para cá, alternavam-se com estes pastos, muitos dos quais abandonados pela dificuldade de formação do capim neste semi-árido do Brasil.
A jornada seria de uns 4 Km de ida e uns 4 de volta. O sol ia subindo, e com ele a disposição do meu corpo para andar. Nesta época, a vegetação é bem verde e viçosa. Onde há três meses só se viam galhos retorcidos e aparente secura, deslumbra-se agora um rico verde de várias tonalidades, tanto no manto do chão, como nas copas das árvores avistadas ao longe.
A brisa amena, o canto e o vôo dos pássaros e o cheiro das plantas aromáticas do sertão revigoravam meu corpo pela inalação prazerosa e pelo brilhar dos meus olhos encantados. Aqui e acolá rasgava uma pequena folha de “catinga de porco” ou de “alecrim do nordeste”, esfregando-a levemente entre meus dedos e absorvendo seu delicioso e rude aroma, enquanto inspirava profundamente.
Momentos assim, acoroçoam qualquer ser humano a fazer de tudo a seu alcance para preservar os recursos e as belezas da natureza. Então, minha engenhosa mente principiou a suscitar-me idéias de como garantir que estas restantes matas continuem assim, exuberantes e constantemente crescendo em sua prolongada regeneração. Nosso bisavô e seus descendentes devem ter usado estes espaços para suas roças entre os anos de 1830 a 1930. Pelo fato de restarem algumas “nesgas”(2) de matas nativas, a maioria das espécies permaneceu, e experimenta agora uma fase mediana, creio, de sua auto-recuperação. Antigamente faziam-se roças mais distantes das casas, a fim de se evitar o ataque dos animais de criação miúda (porcos, cabras e ovelhas). As roças distantes eram protegidas do gado através de cercas de quiabento, um singelo arbusto pontilhado de longos espinhos.
Íamos nós, continuando a romper paisagens afora, enquanto minha mente inspirava-me com pensamentos, agora de natureza prática. ---“Ah, se eu pudesse comprar estas terras....E se eu estimulasse amigos e contatos na Internet para criarmos uma ONG com o intuito principal de comprarmos, coletivamente, terras com matas e florestas que estão seriamente ameaçadas pelas necessidades ou interesses econômicos dos agricultores ? Se, por necessidade, quais as opções que poderíamos oferecer à famílias que residem na área rural, e só encontram solução econômica na expansão se suas criações ?”
Nesta região da Bahia, a terra é vendida em Hectares. O preço do hectare varia entre 300 a 1000,00 reais, porém terras com “muito mato” estão próximas a 400,00 o hectare. Mais custos de operações, mais cercas e outras necessidades organizacionais, talvez pudéssemos,---cada família que vivesse afortunadamente nas cidades---(em relação às famílias daqui) tornarmo-nos os “guardiões” de pequenas, médias ou grandes áreas, cada participante comprando, quem sabe, uma cota por 1000,00 reais. Isto seria necessário para realmente preservar as florestas, pois observam-se que os esforços das ONGs e dos órgãos públicos em criarem áreas de preservação permanente são insuficientes diante das grandes necessidades do planeta e da gana desmedida das ocupações humanas....E haveria um esforço para conscientizar outros grupos a fazerem o mesmo pelo mundo afora....
Enquanto cismava nestas elucubrações idealísticas, adentramos na baixada das duas lagoas (ainda secas) que propiciavam ecossistemas ideais, ao seu redor, para a propagação de coaçus e cagaitas. Há quarenta dias, antes de minhas férias, eu fui lá, e haviam flores. Por isso, hoje, coloquei duas sacolinhas na mochila, na esperança de encontrar pelo menos sementes das duas frutas silvestres. A cagaita é muito azeda, porém seu apreciado sabor indica-a para sucos, geléias, compotas, sorvetes e “saquês”. O coaçu---nome popular---é uma árvore pequena, que produz uns cachinhos de uva deliciosas, mas “apertuchentas”. O coaçu promete ser “a uva do sertão”, pois possibilita a fermentação de um excelente vinho.
Aprendi com os baianos a não desanimar diante das dificuldades trazidas pelo tempo. As flores, que em dezembro eu havia presenciado e admirado, devem ter se transformado em pequenos frutos que, certamente pecaram, todos, devido às poucas chuvas entre meados de dezembro e meados de janeiro.
E então, para compensar a passageira frustração por não ter encontrado nem sementes, comecei a imaginar que extrair produtos das florestas de forma sustentável requer muitas opções. No ano que não desse cagaita ou coaçu, a família dos sonhos ecológicos iria produzir artesanalmente derivados do umbu---esta fruta, sim, devido a seus grandes tubérculos de água e nutrientes---“botam”(3) até mesmo em anos secos. Ou então iriam colher coquinhos licuri e com eles fazer paçocas e deliciosos doces, além de utensílios domésticos com suas palhas. Acresci também, em minhas conjecturas para solucionar o problema, o otimismo provindo da possível extração de muitos outros “artigos” da mata : “desde a macia e durável madeira da imburana plantada---que muito se presta à escultura---, até aos destiladores para a retirada de óleos essenciais e aromáticos das plantas que existem por aqui : a catinga de porco (só no nome), o cravo da mata, a alfavaca silvestre e muitas outras”.
Artesanatos e utilitários produzidos com Licuri, no mercado de Jeremoabo/BA. Foto: Gisele Sessegolo Então, ao subir uma ladeira através do carreiro formado pela passagem de antigos carros de boi, infundiu-se em meu centro de decisões uma óbvia preocupação :
Por estes motivos,---prosseguia a enriquecer imaginativamente a minha idealização de uma ação coletiva ambiental e ecológica---poderíamos conseguir cem participantes iniciais, comprarmos 100 hectares e preservá-los com a contínua vigilância de uma associação a ser criada. Poderíamos, nós mesmos, visitarmos estas terras e, se dispostos, resolveríamos morar por uns tempos em meio a suas belezas e agruras ? Ou então poderíamos criar um clube de eventos e vivências ecológicas ? Poderíamos, ainda, entrar em parceria com famílias interessadas em concretizarem projetos de extração sustentável ou de produção e manejo de agro florestas permanentes. Muitas formas, muitas idéias....Ou mesmo poderíamos vender, futuramente, estes cem hectares, a grupos ou a indivíduos que, oferecendo garantias, fossem explorá-los de forma racional. Com o dinheiro,---e certamente com o lucro---compraríamos uma outra gleba, maior, em região onde estivesse ocorrendo pressão econômica de caráter predatório....E voltaríamos a controlar tudo, novamente, de forma a atender nossos objetivos---a preservação da biodiversidade e da estrutura ambiental física necessária ao equilíbrio normal do planeta. Muito bom !!. Animei-me. Muito bonito !! Superando resistências e dificuldades, vamos dar os primeiros passos ?
Não é o dinheiro que tudo resolve ? Não vivemos em uma civilização dominada pelas leis da economia ? Livre ou planejada, quem dá a última palavra ? Quem decide ? Quem faz acontecer ?!!....O dinheiro, o “money”, a “grana”....Certamente estou a extremar-me. É apenas um exercício imaginativo. Com certeza, as soluções, nos dias de hoje, devem provir dos dois lados: do interesse material e do interesse espiritual; do lucro imediato e do lucro remoto; do benefício individual e do benefício coletivo; do que se conhece (a ciência) e do que se desconhece (a metafísica); do dinheiro e da consciência !!
Finalmente, chegamos ao pé de umbus grandes. Este, também estava com um dos seus troncos quebrados, recostando-se ao chão como um enorme ser estático cansado pelos anos de áridas lidas. Só encontrei uma semente do seu precioso fruto. Mais adiante, no meio da “manga”(4) formada, os pés de coquinhos licuris !!....Ah !! Esperanças renovadas. Estes, sim !! Estavam carregados com atraentes cachos. Enchi uma das sacolinhas com coquinhos catados pacientemente ao chão. E pensei, animado “Logo ao chegar em casa, vou quebrá-los, tirar-lhes as castanhas e pilar no pilão com rapadura e canela. Uma delícia de paçoca !!
Na volta, recolhi alguns umbus dos poucos pés que tardiamente ainda nos prendam com seus saborosos frutos. O calor escaldante dilatou a presilha de um dos chinelos. Não houve como resolver: retornei, pressuroso, sentindo a quentura do caminho queimar a palma do meu pé direito. Ávido, procurava pisar em uma sombra de árvore ou nos matinhos verdes refrescantes. Então ocorreu-me uma outra idéia : “será que o planeta está esquentando tanto só por causa do efeito estufa ?....” Mas este é um outro assunto. Por ora vamos escrever (sim, “vamos”, porque a Tirica está, neste momento, a meu lado a inspirar-me) sobre tudo isso, e ver se, na prática, as pessoas compreenderão que é a somatória de cada esforço a solução para os problemas dos homens e para os problemas que eles provocaram em sua mãe natureza.
Você quer comprar e preservar pelo menos um hectare de terra de matas, na remota Bahia, e quem sabe depois, em Santa Catarina ou na Amazônia ?....
Se desejar que o seu nome seja anotado como interessado, envie um email para : gruposambiente@gmail.com
Luiz Antonio V. Spinola, 18 – jan – 2008 reeditado em 29 de julho de 2008
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( 1 ) - ROMPER : Nesta região da Bahia, (Caetité, Brumado e Livramento de Nossa Senhora) o verbo romper é utilizado no sentido de "prosseguir, andar, ir adiante"..., separando visualmente o caminho em duas partes : Este é o significado usual de romper : Separar, quebrar, dividir em dois. ( 2 ) - NESGA : Resquício, pequeníssima parte. "um pouquinho". ( 3 ) - BOTAR : Em algumas regiões do nordeste, como no Piauí, botar é sinônimo de "frutificar", ou dar frutos. ( 4 ) - MANGA : Pasto, geralmente com muitas árvores e arbustos nativos em fase de regeneração.
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