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O biólogo Fernando Fernandez
escreveu o Poema Imperfeito. O título do livro é uma metáfora sobre o quanto da natureza o homem já destruiu. Fernandez fez mestrado na Universidade de Campinas (Unicamp) e é PhD pela Durham University, da Inglaterra. Atualmente é professor de Ecologia e Biologia da Conservação na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Se fosse para falar da natureza, nua e crua, vulnerável às intempéries, às tempestades, tornados e furacões, ao imprevisível e inevitável, mas natural, Fernandez poderia ter escrito um poema perfeito. Mas não é o caso de quem quis explicar por que tantos animais se extinguiram no planeta. Em 257 folhas de papel reciclado, numa linguagem para leigos, fácil de compreender e direta, o livro traz reflexões sobre a intervenção humana sobre o meio ambiente. Nesta entrevista ao Ambiente Hoje, o professor explica que o homem só pode conservar a natureza se o fizer para o bem da própria natureza. O livro fala da dificuldade do homem em viver em harmonia com a natureza. Como aconteceu a interferência do ser humano na história biológica do planeta? A espécie humana tem se expandido muito, ocupa quase o planeta inteiro. Isso causa um efeito devastador sobre a biodiversidade. Desde sua chegada à Austrália, há 40-50 mil anos, o homem começou a extinguir espécies de grande porte, a chamada megafauna. Eram bichos com mais 50 quilos, de baixo potencial reprodutivo e com populações pequenas, por isso mais fáceis de extinguir. Essa onda de extinções continuou com a chegada do homem nas Américas, há uns 15 mil anos. Para se ter uma idéia, há 50 mil anos, a Terra era coberta de florestas e, aos poucos, grande parte foi destruída com o processo de devastação para uso da agricultura e pecuária. Essas atividades do homem também serviram para garantir a sobrevivência de animais como cavalos, bois, gatos e moscas domésticas. Mais recentemente, o homem tem gerado outras formas de interferência ecológica, como a poluição e o esgotamento de estoques pesqueiros. Essas ações aumentam as chances de extinção de espécies também de pequeno porte, antes mais difíceis de extinguir. Hoje, o maior risco para o planeta é o crescimento da população. A superpopulação mundial tem impulsionado a devastação das poucas áreas florestais que ainda nos restam, como é o caso da Amazônia. E, finalmente, nas últimas décadas o homem se tornou também responsável pelas mudanças climáticas. Para você, a natureza tem valor em si mesma ou apenas enquanto utilidade reconhecida pelo ser humano? A importância da natureza está além do valor dos serviços prestados por ela. Para mim, a natureza tem valor em si mesma e por si mesma. Qualquer ser vivo tem o mesmo direito de existir que nós. Nunca consegui uma demonstração ética que me convencesse que outras espécies têm menos direito à vida que nós. Por que o ser humano não valoriza a natureza? Isso acontece por vários motivos. O principal deles está em algumas visões de mundo, em certos dogmas religiosos, cosmologias perniciosas que enfatizam as diferenças – e não as semelhanças – entre nós e as demais espécies, e dizem que o mundo pertence ao homem, foi feito por causa dele. De acordo com as religiões, o homem é diferente de outros seres; para algumas, só ele tem alma, e por isso é merecedor de direitos que os outros animais não possuem. Essas cosmologias estabelecem a distância entre homens e animais e servem para nos dessensibilizar, para desligar nosso sentimento de culpa diante do que fazemos aos outros seres vivos. Quando não nos percebermos, como animais que somos, afastamos a possibilidade de sentirmos o sofrimento causado aos restantes dos animais. Além do mais, a superpopulação do planeta é outro fator que tem gerado extrema competição e demanda pelos recursos naturais. Você já dedicou vários artigos aos pequenos mamíferos. Qual a origem da sua paixão pelos roedores? Foi num episódio que por muitos anos fiquei sem recordar, um acontecimento traumático da minha infância. Mas, anos depois, o fato me veio à mente de forma súbita, como se tivesse acontecido no dia anterior. O dia era chuvoso e eu esperava um ônibus com minha mãe. No meio-fio vi um camundongo doméstico tremendo de frio. Um homem resolveu chutar o ratinho para debaixo das rodas de um ônibus. Eu quis evitar que o bicho fosse atropelado e minha mãe, claro, me impediu de colocar as mãos na frente das rodas do ônibus para salvá-lo. Tive que assistir o ônibus sair e esmagar o ratinho. Na época eu não liguei essa escolha a esse episódio de infância, mas acredito que meus destinos profissionais tenham sido, em parte, motivados por esse episódio. De qualquer forma, os roedores são vistos pela maioria das pessoas como bichos nocivos à saúde humana. Quando se fala em roedores, as pessoas pensam imediatamente em ratos urbanos, bichos ruins que propagam doenças. Essas pessoas ignoram que existem mais de mil espécies de roedores silvestres, vivendo na natureza como qualquer outra espécie. De todas elas, apenas umas cinco espécies in- Morte na fl oresta: um poema imperfeito Zoólogo Fernando Fernandez escreve crônicas de biologia e conservação da natureza teragem com o homem, mas todas as
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