São Paulo, quarta-feira, 10 de outubro de 2007
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*Argentina condena padre por crimes na ditadura*
*Ex-capelão cumprirá prisão perpétua por participar de tortura e
assassinatos*
* A condenação de Von Wernich é a primeira de um membro da Igreja Católica
envolvido com violações do regime militar argentino*
Nacho Dillon/France Presse
*Von Wernich na sessão em que foi condenado, em La Plata*
*RODRIGO RÖTZSCH*
DE BUENOS AIRES
Vestindo uma batina e um colete à prova de balas, o padre Christian Federico
von Wernich, 69, tornou-se ontem o primeiro membro da Igreja Católica a ser
condenado por crimes cometidos durante a última ditadura militar na
Argentina (1976-1983).
O Tribunal Oral de La Plata considerou Von Wernich culpado, no papel de
co-autor, de 42 seqüestros, 32 casos de tortura e sete homicídios -crimes
contra a humanidade e genocídio- e o condenou à prisão perpétua. O
julgamento foi o terceiro realizado após a reabertura, em 2005, dos
processos contra membros do regime militar na Argentina. Todos acabaram em
condenação dos réus.
O veredicto foi atrasado em cerca de uma hora por uma ameaça de bomba que
chegou a forçar a desocupação do prédio mas depois se revelou falsa.
Centenas de pessoas se juntaram, sob chuva, às portas do tribunal com
cartazes pedindo justiça. O público comemorou, inclusive com fogos de
artifício, quando o juiz Carlos Rosansky anunciou que os crimes cometidos
por Von Wernich configuravam genocídio.
Durante a ditadura, Von Wernich atuou como capelão da Polícia de Buenos
Aires. Seu julgamento foi motivado por investigações da Comissão Nacional de
Pessoas Desaparecidas, que indicou que o padre fazia uso do seu papel de
confessor para extrair segredos dos torturados nas instalações de detenção
ilegal da ditadura.
O pior crime imputado a Von Wernich foi a participação no assassinato de
sete militantes peronistas, todos com menos de 28 anos de idade. Eles foram
convencidos pelo padre a colaborar com seus captores em troca da liberdade,
mas acabaram assassinados quando deixaram o centro de detenção -testemunhas
afirmaram ao tribunal que Von Wernich estava no veículo que os levou ao
local onde foram mortos.
A defesa do padre havia pedido a absolvição de seu cliente, afirmando que
ele freqüentava os centros de detenção clandestina só para exercer suas
funções de sacerdote.
Na sua exposição final, Von Wernich fez uma defesa não só sua, mas de toda a
igreja. "Nunca nenhum sacerdote da Igreja Católica Apostólica Romana violou
esse sacramento [da confissão] ou o usou para fins que não o de devolver aos
homens a paz".
*Papel da igreja*
Mas sua condenação volta a pôr em foco a atuação da igreja no último regime
militar. O ex-capelão da polícia não foi o único membro da instituição a
apoiar a ditadura -a alta cúpula eclesiástica era próxima ao regime e há
relatos de participação de religiosos nos chamados "vôos da morte", em que
os presos eram atirados de aviões.
Organizações de direitos humanos cobram que a igreja reconheça enfaticamente
sua responsabilidade por crimes cometidos sob a ditadura.
A Igreja Católica, que se manteve silenciosa durante os mais de três meses
de julgamento, deve divulgar um comunicado sobre a condenação. O texto,
porém, deve fazer referência apenas a responsabilidades individuais do
padre.
É também provável que a arquidiocese de Nove de Julho decida tirar de Von
Wernich o direito de exercer o sacerdócio, ainda em vigor apesar das
acusações contra ele serem conhecidas desde 1984.
Durante o julgamento, o bispo Marcelo Melani, uma das cerca de cem
testemunhas de acusação, fez uma espécie de mea-culpa. "Não se trata de
julgarmos Von Wernich e sim de pensarmos que atitude tivemos cada um de nós,
nossas comunidades e toda a igreja ante o avassalamento da vida e dos
direitos mais elementares", disse.
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Thiago Maciel Oliveira
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