Para muitas pessoas, reconstruir a árvore genealógica da própria família é um trabalho árduo, quase impossível. A genética, porém, resolveu facilitar este caminho. Por um exame de DNA é possível descobrir a origem de qualquer pessoa, num trabalho de genealogia molecular que remete a um tempo anterior ao descobrimento do Brasil.
O exame vem sendo realizado pelo geneticista mineiro Sérgio Danilo Pena, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e do Gene - Núcleo de Genética Médica. Pioneiro no País no teste de paternidade por DNA, Pena foi responsável pela pesquisa que traçou o retrato dos 500 anos de transformações que resultaram no brasileiro atual, divulgada no ínicio do ano.
Com o teste de genealogia por DNA, é possível descobrir as ancestralidades paterna e materna do paciente e ainda o peso de cada uma delas na formação genética da pessoa. "No meu caso, por exemplo, descobri que pertenço, por parte de mãe, ao haplogrupo A, característico de populações ameríndias, que se extinguiram após a chegada dos europeus, em 1500. Por parte de pai, sou descendente do haplogrupo 1, um dos mais antigos da Europa, que veio da Ásia e povoou a Península Ibérica", explica Pena. "Em outras palavras: sou o brasileiro típico, filho de mãe índia com pai português."
O teste é feito com uma simples coleta de células da bochecha e pode ser encomendado pela internet (www.genealogiapordna.com.br). Segundo o geneticista, cerca de 30 pessoas já fizeram o novo exame. Entre os que se submetaram à investigação genética, estão os netos do sociológo pernambucano Gilberto Freyre, autor do clássico "Casa Grande e Senzala". O resultado genético mostrou que Freyre, que morreu em 1987, teve como ancestrais judeus sefarditas, que saíram de Portugal no século XV.
O estudo da ancestralidade só é possível com a análise das mutações do DNA (abreviatura de ácido desoxirribonucleico), que guarda informações sobre as origens genéticas herdadas de ancestrais do homem que viveram há cerca de 40 mil anos na África, Ásia e Europa. Segundo Pena, o exame constitui-se na investigação do DNA mitocondrial, de origem exclusivamente materna, e do cromossomo Y, que está presente apenas nas células sexuais masculinas.
"Ao contrário de outros cromossomos que estão presentes em duplicata, temos uma única cópia genética do cromossomo Y e do DNA mitocondrial, que impede o embaralhamento dos genes a cada nova reprodução. As características genéticas, desta forma, são passadas em bloco de geração a geração, mantendo a sua essência", afirma Pena.
O teste completo é dividido em três partes. A primeira traça a ancestralidade materna do paciente, a partir da análise do DNA mitocondrial. As pesquisas de Pena já revelaram que a mulher indígena está na origem materna do homem brasileiro. O segundo exame estuda as mutações do cromossomo Y, constituindo a ancestralidade paterna do indivíduo. O teste detecta variações de grupos humanos antigos, como o haplogrupo 1 do cromossomo Y, que é encontrado em 66% dos portugueses e 54% dos brasileiros brancos. "O haplogrupo 1 pertence a uma linhagem de povos que migraram da Ásia para a Europa há cerca de 35 mil anos", conta o geneticista.
A novidade é o terceiro exame, o da ancestralidade genômica, que mede o peso da contribuição materna e paterna na formação do paciente.
Segundo Sérgio Danilo Pena, o estudo sobre a ancestralidade do homem brasileiro, divulgado no início do ano, revela que a miscigenação é bem maior do que se supunha. "É praticamente impossível encontrar um brasileiro genuinamente branco ou negro", afirma. O geneticista vai além: a pesquisa mostra que a cor de pele não reflete toda a história contida no DNA.
"Ao analisar o exame da ancestralidade genômica, o que observamos é que, na sua maioria, o branco brasileiro tem um herança genética mais próxima de seus ascendentes africanos do que dos europeus", explica Pena. "A relação entre cor e genoma é muito pequena, porque nossos genes exibem um casamento interracial bem-sucedido construído ao longo da história brasileira."
Murilo Fiuza de Melo